Pedro Hispano, o médico português que, de estudioso filósofo, se fez Papa

11 MAIO, 2017 -

Pedro Hispano foi um dos homens mais versáteis da Idade Média, mostrando em parte que era alguém que não era pertence à sua era. Com perspetivas modernas, tanto no âmbito das matemáticas como das artes, chegou a ser Papa, assumindo a designação de João XXI. Embora o papado tenha sido de curta duração, Hispano nunca prescindiu dos seus estudos, que tanto tinham de inovadores como de vastos. De muito valeram as viagens académicas e as travessias pelos livros e pelas eventualidades científicas que a matemática lhe privilegiou. Um valor sensato e rico num pontificado que se pontificou mais pelo papel assumido na Matemática e na Filosofia do que as provas dadas como clérigo.

Pedro Julião nasceu em Lisboa nos princípios do século XIII, embora se desconheça a data concreta do seu nascimento. Filho de um médico, foi desde cedo que se envolveu nas questões científicas e nas obras que veiculavam os conhecimentos de então. Porém, e como o manancial de fontes se concentrava nas classes clericais, foi na Escola Episcopal da Catedral de Lisboa que arrancou a sua formação, seguindo-se França, onde foi lecionado por São Alberto Magno, que também instruiu nomes relevantes da Escólastica como São Tomás de Aquino e São Boaventura. No país gaulês, estudou tanto medicina como teologia, deleitando-se também com o estudo da dialética, da lógica, da metafísica e da física aristotélica. Foi nesta fase que se tornou conhecido como Pedro Hispano, arrecadando suficiente prestígio para servir de assessor clerical ao rei Afonso III.

Dando provas do seu apreço pelo saber, lecionou medicina em meados do século XIII, precisamente no seu primeiro contacto com Itália, lugar onde viveria algum tempo e que seria o lugar onde assumiria o seu papado. Dando aulas na Universidade de Siena, redigiu um tratado de título “Summulae Logicales”, obra primordial de estudo e influente para as gerações vindouras sobre a lógica aristotélica, acabando traduzida para grego e hebraico, e sendo divulgada por toda a Europa a partir das mais de duas centenas de edições lançadas. Para além desta obra, redigiu uma que se revelou fulcral na área da oftalmologia, designada de “De Oculo”. Difundida nos meios académicos europeus, tornou-se preponderante numa doença ocular da qual padeceu o artista Miguel Ângelo. Ainda no ramo da medicina, Hispano explorou várias das vias pelas algumas doenças comuns poderiam ser curadas (“Thesaurus Pauperum”, sendo traduzida para doze idiomas). Como professor, procurava também incutir essa vontade de investigar, de explorar, e de problematizar os registos que chegavam às mãos dos seus alunos, incentivando-os a colocar o seu sentido crítico e prático em atividade e em causa.

Para melhor compreender este trabalho académico, importa percecionar as áreas predominantes do saber então, sendo estas substancialmente a lógica, a gramática, e a retórica. De forma interessante, era a própria lógica a mais importante das três, sendo lecionada de forma obrigatória nos centros educativos da sociedade medieval. Tudo isto advinha da tradição greco-latina, exponenciada em nomes como Aristóteles e Platão. Os escolásticos foram as classes que foram preservando e restaurando os documentos onde versavam essas teorias e obras, acabando por as trabalhar, gradualmente, de forma crítica. Tudo se incluía, desde previsões, silogismos, suposições, falácias, ampliações, restrições, distribuições, etc. No entanto, existiram algumas modificações naquilo que é a semântica medieval.

Das premissas, partiu-se para a elaboração desses silogismos, para a sua classificação e para a identificação das eventuais falácias. A semântica medieval orbitava, desta forma, nas suposições – capacidade de substituir um dado objeto – e nas significações dos silogismos – o que se entende de uma dada expressão – , omitindo-se o que as ampliações, as restrições e distribuições traziam. Ainda nas expressões, a linguagem poderia conter uma referente a si mesmo, sendo esta a metalinguagem, comportando esta as referências aos próprios constituintes da linguagem. As suposições também se podiam dividir em dois tipos, sendo elas as naturais e as acidentais, sendo que as segundas acabavam por se formular a partir de elementos universais ou identitativos. Com isto, tanto os pronomes, como os determinantes e os advérbios tornavam-se preponderantes naquilo que era a composição estrutural de um dado raciocínio lógico. No campo das falácias, estas subdividem-se nas que dizem respeito à pronunciação ou composição semântica ou sintática, assim como de correspondência, da proposição, e nas que, de forma inconsciente ou no desconhecimento, acabam por se omitir um ou mais dados, assim como antecedentes e consequentes de suposições.  No fundo, o enfoque constava em inferências que se centravam no mundo, na realidade, não esquecendo, como génese, a presença de Deus. Este modelo de lógica, do qual o futuro papa é uma figura de proa, tornou-se na charneira entre Aristóteles e René Descartes, ao importar o passado para um modelo presente de referência futura.

Hispano, à imagem dos seus companheiros escolásticos, estudou afincadamente a lógica aristotélica, e apresentou-a com adendas e reformulações importantes, dando um importante passo para aquilo que seria a afirmação da lógica escolástica medieval. O apoio que recebera dos seus parceiros era positivo, e a influência que a obra teve chegou até ao continente americano, em tempos de descobrimentos e de formação dos povos indígenas; para além de ser editado por uma série de teóricos futuros dos séculos XIV, XV e XVI. Porém, esta receção seria disfarçada por uma fase em que muitos acharam o conteúdo pesado e maçudo, tornando-se quase ininteligível, e dificultando a aprendizagem dos mais jovens. Foi com os teóricos do humanismo renascentista que se sentiu a necessidade de renovar aquilo que provinha da fase escolástica, no encalço da renovação e revitalização do que se havia produzido nas civilizações anteriores à Idade Média.

No que toca exclusivamente à teologia, escreveu três obras, dentro das quais uma não chegou a ser publicada, sendo dedicada à esposa do monarca francês Luís VIII. Esta foi “De Tuenda Valetudine”, que veio no encalço de “Comentários ao pseudo-Dionísio” (este um grupo de textos que cruza o cristianismo e a sua virtude com o neoplatonismo e com Dionísio, figura que viria a ser convertida por São Paulo) e de “Scientia Libri Anima” (ainda sobre a filosofia da mente, tendo uma forte componente aristotélica). Entretanto, em 1260, é nomeado decano na Sé de Lisboa, entrando no sacerdócio e sendo eventualmente reconduzido também para cónego e deão dessa instituição. Para além desse cargo, tornou-se prior na Igreja de Santo André, em Mafra, e na Colegiada Real de Santa Maria de Guimarães, para além do tesoureiro-mor na Sé do Porto.

No entanto, foi em Braga que conheceu a sua principal função eclesiástica, tornando-se no Arcebispo de Braga em 1273, sendo indicado para o lugar pelo Papa Gregório X. Os seus préstimos e competências como médico foram argumentos suficientes para participar no XIV Concílio Ecuménico de Lyon e, neste, ser elevado a Cardeal-Bispo de uma diocese estreita em relação ao Vaticano. Após assegurar a sua sucessão no arcebispado de Braga, Pedro Hispano tornou-se no médico principal do Papa Adriano V em 1275. Esta assessoria concedida ao líder do Vaticano seria importante para que se posicionasse na linha da frente da sua sucessão. Esta viria a ocorrer em 1276, em questão deliberada num conclave. Assim, a sua eleição tornou-se oficial no dia 13 de setembro e, uma semana depois, foi coroado como o Papa João XXI.

Como principais missões do seu pontificado, assume a punição dos membros pouco coniventes com os cardeais do conclave, para além de procurar a união da Igreja Grega Oriental à Ocidental, para além de porfiar pela libertação do agora Israel, conhecido por Terra Santa, então na posse dos turcos. Tenta também funcionar como um mediador das relações internacionais, pugnando pela aproximação de França, Germânia e Castela entre si, vindo a falhar na resolução dos impasses que os distavam. Mais perto de si, acolhe tanto os mais abastados como os menos, atendendo a todos com a simplicidade que o caraterizava. Esta disponibilidade acaba por ser louvada na “Divina Comédia”, da autoria do conhecido autor Dante Alighieri, que o coloca no paraíso. João XXI é posto na órbita da alma de São Boaventura, alcunhando-o de “aquele que brilha em doze livros”, referindo-se aos tratados da sua autoria. Para além de Dante, também Afonso X, rei de Leão e Castela, e autor de poesia, elogia-o em “Paraíso”, no canto XII, sendo referido como “clérigo universal”, “grande filósofo” e “completo cientista físico e naturalista”. Para além disto, reverteu um decreto que havia passado no segundo Concílio de Lyon, em 1274, e que remetia os cardinais à solitude e restringia os seus abastecimentos de pão e vinho.

No entanto, era mais o estudo que a própria função de pontífice que o movia, delegando com frequência no futuro Papa Nicolau III, então Cardeal Orsini, várias das tarefas destinadas a Hispano. Sentindo-se, também, fisicamente condicionado, viria a retirar-se para a cidade italiana de Viterbo, onde partiu a 20 de maio de 1277. Antes, havia programado uma evangelização aos tártaros, povo do leste que havia sido subjugado pelo império Mongol. Porém, os contornos da sua morte acabaram por ser motivados pela queda das paredes da casa onde residia, pois o palácio apostólico encontrava-se, então, em obras. Dessa forma, o seu papado não chegaria a um ano de vigência, mas nem isso impediu que fosse louvado e celebrizado postumamente. Seria alguns séculos depois que o seu mausoléu se fixaria na Catedral de Viterbo, mausoléu de uma figura que viria a emprestar o nome a várias instituições portuguesas, tais como a um hospital em Matosinhos, a uma avenida em Lisboa, e outra em Braga (ambas como João XXI), e a um instituto no distrito de Coimbra.

Pedro Hispano tornou-se numa figura imortalizada pela História, visão transversal e intemporal que de tantos outros se esquece. Com Julião, foram várias as investigações, atribuições, menções e especulações que acompanharam o trabalho investigativo que se seguiu à sua afirmação como médico, investigador, e membro das instâncias católicas. Pelo meio, até indagações medievais sobre possíveis associações com o misticismo e com a magia negra. No entanto, não há especulação que consiga colocar em causa o valor do trabalho de Pedro Hispano, influente nos seus desígnios honoríficos, mas sem nunca desprimorar o prazer pelo seu ofício de estudar, de descobrir e de redescobrir o mundo em que habitava. Portugal foi o ponto de partida para uma vida itinerante com pouco de entediante, rejuvenescendo numa lógica material que o levava ao seu Deus final.

Comentários

Artigos que poderão ser do teu interesse

ARTIGOS RELACIONADOS