Paul Vecchiali: “A heterogeneidade é a verdade da vida”

8 MAIO, 2017 -

O realizador francês de 86 anos é, com Jem Cohen, um dos heróis independentes desta edição do IndieLisboa.

Foi de um discurso homofóbico de Charles Pasqua, ministro do Interior do governo de Jacques Chirac, na rádio que em 1986 Paul Vecchiali partiu para a escrita do argumento daquele que seria o primeiro filme francês a abordar a questão da sida entre a comunidade gay, “Once More”. Tragédia em forma de comédia musical a evocar a obra de Jacques Demy, amigo do realizador francês, de resto, que, contemporâneo da Nouvelle Vague francesa, se manteve sempre à margem dela. Interessava-lhe o cinema francês da década de 1930, aquele que “inventou tudo” para que os que viessem depois, na década de 1960, pudessem pensá-lo, repensá-lo. Entre uma coisa e outra, Vecchiali, acredita ser um meio termo, coração no primeiro, cabeça no segundo. Filmes vê todos os que pode, até da coleção que mantém de VHS. Antigo, sempre, sobre o novo, sobretudo no cinema.  “Acho que a certa altura entrámos numa época dominada por predadores”, diz, falando de Leone, Clint Eastoow ou Kubrick que diz terem feito “muito, muito mal ao cinema”. Independente como sempre foi nos 50 anos de carreira ao longo dos quais nos deixou já mais de 50 filmes, Paul Vecchiali é, aos 86 anos, um dos heróis independentes (a par de Jem Cohen) desta edição do IndieLisboa, que lhe dedica uma retrospetiva e onde estará presente na quinta-feira para uma conversa com o público, na Cinemateca Portuguesa. Provocador quase por obrigação, fez de temas como a sexualidade, a sida ou a pena de morte assunto de boa parte da sua obra, caraterizada por uma “profunda individualidade”, descrevem os programadores. E é nisso que acredita, como nos diz numa conversa telefónica de Paris, a dias de viajar para Lisboa. “A heterogeneidade é a verdade da vida.” E a sua é o cinema.

Ao longo de 50 anos de carreira fez mais de 50 filmes, o último dos quais, “Le Cancre”, estreou no ano passado em Cannes. Aos 86 anos e com esta extensa filmografia, continua com muitos filmes por fazer?

Sim, estou a preparar um filme que será totalmente filmado em exterior e tenho o projeto para um outro que será todo feito em interior. O primeiro chama-se “Les Sept Déserteurs” e é uma visão irónica sobre sete mercenários, passado inteiramente num edifício bombardeado e abandonado, onde eles se refugiam.

É ao mesmo tempo um manifesto contra a guerra e um filme fantástico.

E o seu último filme, “Le Cancre”, uma das suas 17 obras que estarão em retrospetiva no IndieLisboa, partiu de onde? 

Quando tinha 14 anos apaixonei-me por uma rapariga e dos 14 aos 17 anos tive um amor muito profundo e muito forte, como são todos os primeiros amores. Entretanto reencontrei-a e mantivemo-nos em contacto por telefone, falávamos todas as manhãs, e isso deu-me uma ideia para um personagem que vivesse obcecado pelo seu primeiro amor. A história não é exatamente a mesma, criei todo um cenário, mas era a ideia de uma obsessão por um primeiro amor.

Qual é a sua maior fonte de inspiração quando parte para um novo filme?

Muitas vezes pode ser uma reação contra um filme. Por exemplo, detestei o “Salut l’Artiste” [de Yves Robert, 1973], acho que teria resultado melhor se tivessem escolhido para o papel do Marcello Mastroianni um ator menos conhecido, e em reação a isso fiz “Femmes femmes” [1974]. Depois, em reação ao “Apocalypse Now”, fiz um filme em dois dias e meio, que se chama “C’est la vie!” [1981]. Mas varia muito.

Li numa entrevista que deu já há uns anos que fazer cinema é uma profissão mas também uma responsabilidade e um compromisso e que por isso “deve ser sempre uma paixão”.

A dificuldade de um realizador é encontrar a medida justa entre o respeito dos outros e a sua conduta. Sou simplesmente um homem, um homem apaixonado pela sua profissão e apaixonado pelos atores e pelos técnicos. As relações entre nós são de igual para igual. Não gosto de ter uma presença predominante. Evidentemente sou eu que tenho a responsabilidade [do filme] e colocam-me questões, mas gosto de os ouvir sempre os outros também.

Foi contemporâneo da Nouvelle Vague francesa, era próximo de Jacques Demy, por exemplo. Por que razão acabou por manter o seu cinema à margem dessa corrente, ao mesmo tempo que se deixou influenciar pelo cinema francês da década de 1930?

Acho que há uma dialética possível entre o cinema dos anos 30, que inventou tudo, e o cinema da Nouvelle Vague, que refletiu sobre tudo. Costumo dizer que tenho o coração nos anos 1930 e a cabeça na Nouvelle Vague. Penso que a heterogeneidade é a verdade da vida. Não gosto de filmes homogéneos.

Por que é que deixou os “Cahiers du Cinema”?

Um dia escrevi uma crítica de um filme de que gostava muito que foi recusada e depois encontrei um texto que era quase exatamente o meu assinado por outra pessoa e não me pareceu correto.

O que o leva a dizer que o cinema francês esteve sempre na vanguarda da escrita?

Acho que o cinema francês da década de 1930 inventou tudo, os filmes americanos são prova disso. Mesmo quando olhamos para os filmes de [Kenji] Mizoguchi, no Japão, ou  os filmes italianos encontramos sempre esta associação às descobertas do cinema francês dos anos 30.

É recorrente utilizar os seus filmes para tomadas de posição – ou chamadas de atenção – para os temas mais controversos de cada tempo, e a sua filmografia foi atravessando vários. Como é que surgiu, por exemplo, “Once More”, em 1987, o primeiro filme francês a abordar o tema da sida entre a comunidade gay?

Um dia ouvi o senhor Charles Pasqua [ministro do Interior francês entre 1986 e 1988] defender na rádio que devia haver castigos para os homossexuais. Foi numa altura em que tinha terminado um telefilme [”À titre posthume”] e uma minissérie chamada “Les jurés de l’ombre” [1987], que tinha demorado algum tempo a fazer, e num fim de semana escrevi esse filme [”Once More”]. Pareceu-me evidente que o filme iria ser impactante. Foi assim que aconteceu.

O que é que procura e o que lhe dá mais prazer na arte?

Tudo. Encontro felicidade a escrever, encontro felicidade a filmar, a montar, a apresentar depois o filme ao espectador. Tudo me faz feliz no cinema. O cinema é a minha vida.

Vê muitos filmes?

Continuo a ver dois ou três por dia.

Três?

Três não consigo sempre. Mas vejo sempre dois, pelo menos. Gosto muito do cana do Sundance, com filmes americanos independentes, vejo também no Cine« [canal da televisão por cabo francesa dedicado à transmissão de filmes], onde revejo filmes dos meus ídolos, tenho muitas cassetes, continuo a ver filmes em VHS.

Gosta mais do antigo do que do novo.

Sim, mesmo. Acho que a certa altura entrámos numa época dominada por predadores – como Sergio Leone, Clint Eastwood ou [Stanley] Kubrick – que fizeram muito, muito mal ao cinema.

Entrevista de Cláudia Sobral, publicada no nosso parceiro Jornal SOL

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