Patrick Wilcken: ‘o que começou como uma saída ordeira acabou como uma fuga humilhante’

25 AGOSTO, 2017 -

Natural da Austrália, Patrick Wilcken esteve no Brasil na década de 2000 como investigador da Amnistia Internacional. Da experiência resultou o livro O Império à Deriva, onde descreve como em 1808 a corte portuguesa, ameaçada por Napoleão, atravessou o Atlântico e se instalou no Rio de Janeiro, vivendo mais de uma década nos trópicos.

Os monárquicos portugueses defendem que o que aconteceu em 1808 foi uma transferência da corte, uma operação cuidadosamente planeada, e não uma fuga. Há argumentos que sustentem esta hipótese?

Há um elemento de verdade em ambas as proposições. Devido à situação extrema em que a corte portuguesa se encontrava – ameaçada por terra pelas forças de Napoleão se continuasse a apoiar os britânicos; e um possível bombardeamento de Lisboa e invasão do Brasil pela Marinha britânica se alinhasse com os franceses –, o príncipe regente D. João tinha estado em intensas conversações com o enviado britânico, o Visconde Strangford, sobre a melhor linha de ação. A solução acordada com Strangford foi retirar para o Brasil. E, apesar de os preparativos para a viagem já estarem em curso há algum tempo, D. João – um homem que não ficou conhecido pela capacidade de decisão – esperou até ao último momento antes de ordenar a retirada. Para aqueles que se juntaram no porto para assistir à partida – a maioria dos quais não saberia das negociações – o êxodo de último minuto deve ter parecido uma fuga desesperada, algo em que de facto se tornou, com a corte a esforçar-se por deixar o porto antes de o exército francês chegar. Por isso a operação teve tanto de planeado como de apressado; o que começou como uma saída ordeira acabou como uma fuga humilhante.

Aquilo que uma pessoa salva numa situação destas pode ser muito revelador dos seus interesses e prioridades. O que levaram a rainha, e a corte em geral, consigo na viagem para o Brasil?

A enorme quantidade de carga embarcada na frota era de facto reveladora. A corte levou os seus símbolos de poder e autoridade – mobílias requintadas, artefactos religiosos, pinturas a óleo, ouro brasileiro e diamantes e vastas provisões de moedas do tesouro real. Também levou uma grande quantidade de documentos do Estado e uma impressora, e tentou carregar os 60 mil volumes da biblioteca da Ajuda, o que sugere também que a retirada foi inicialmente bem planeada e que estava prevista uma estadia prolongada no Brasil.

Os brasileiros sabiam que a corte portuguesa ia chegar? Que preparativos foram feitos para a receber?

A parte da frota que levava a família real foi arrastada para fora de rota e acabou por ir dar a Salvador. Como não tinha sido enviado qualquer navio de reconhecimento adiante, o governador da Bahia não foi avisado da chegada e não sabia muito bem o que se esperava dele. Inicialmente, mandou esvaziar as ruas, mas ao chegar ao navio do príncipe regente disseram-lhe para organizar uma procissão real. No dia seguinte a família real foi saudada pela administração colonial e assistiu a uma missa Te Deum na catedral. De qualquer modo, isto era algo improvisado e que não tinha precedentes: até àquela altura, nunca um monarca reinante viajara até às Américas sequer de visita, muito menos para estabelecer ali a sua corte.

Como era a vida quotidiana durante a viagem? Havia rotinas bem definidas?

Não sobreviveram registos fiáveis da vida a bordo, mas há um relato que pinta um retrato sombrio da vida a bordo. Dadas as circunstâncias caóticas da partida, houve sérias faltas de água, de comida e de roupa enquanto a frota atravessava o Atlântico. Uma carta de um oficial português descreve membros da corte a dormirem uns em cima dos outros no convés a céu aberto, vivendo de magras rações de água e comida, e vestidos com farrapos. Também há, claro, a história muitas vezes contada – e que pode ser apócrifa – de uma epidemia de piolhos que obrigou vários membros da corte, incluindo Dona Carlota, a rapar as cabeças, chegando a Salvador usando turbantes para esconder o facto de estarem carecas.

Era normal a travessia do Atlântico demorar tanto tempo?

A viagem entre Lisboa e Salvador demorou pouco mais de sete semanas, o que estava dentro da duração normal naquela época. Em boas condições, os navios podiam cortar esse tempo para cinco a seis semanas, mas o contrário também podia acontecer e a travessia durar três meses. Só no século XIX, com o advento do vapor, é que a travessia do Atlântico começou a ser feita em duas semanas.

A corte portuguesa mudou os seus hábitos quando esteve no Brasil? A alimentação, por exemplo, alterou-se de acordo com o que havia disponível?

Em certo sentido, a família real tentou isolar-se da nova realidade tropical, importando salame e vinho de Itália, e trazendo músicos austríacos e artistas franceses da Europa. Noutros aspetos, alguns membros da corte adaptaram-se aos trópicos. Dom João adicionou quatro ou cinco mangas às suas habituais refeições de frango assado. Usou trabalhadores escravos na sua propriedade, tinha gaiolas com macacos e papagaios no palácio de S. Cristóvão e gostava de tomar banho na baía.

Em 1821 o Rio de Janeiro era uma cidade diferente da que a corte tinha encontrado em 1808? Estava muito mudada?

O Rio era um pequeno porto de escravos em 1808 e mudou dramaticamente. Uma vez ali instalada, a corte empreendeu a replicação das instituições que havia em Lisboa, criou uma imprensa real – a primeira no Brasil –, ministérios e uma espécie de câmara municipal para gerir as obras de renovação da cidade. Ao longo dos anos D. João também recriou a vida de corte, rica em pompa, cerimonial e criação artística, atraindo aristocratas e viajantes europeus. Contratou músicos, como o aluno de Haydn, Von Neukomm, e artistas como o francês Debret e o austríaco Thomas Ender – tendo ambos produzido retratos icónicos daquela era. E ainda construiu um teatro real. A corte deixou uma marca indelével no Rio – muitas instituições atuais remontam àquele período, da polícia à biblioteca nacional, uma belíssima coleção de livros que está abandonada, ou o jardim botânico, que é hoje uma atração de nível mundial.

Quando regressou, a corte trouxe novas modas para a metrópole?

Testemunhos diretos do regresso sugerem que a família real, longe de adotar vestes ou estilos exóticos no Brasil, tinha ficado congelada no tempo. Quando voltaram estavam vestidos com roupas europeias que há muito tinham passado de moda na sua ausência. O embaixador francês, Hyde de Neuville, descreveu a princesa Maria Benedita, de 74 anos, como ‘uma imagem que tinha acabado de saltar para fora da moldura’.

Sei que viveu e trabalhou no Brasil. Como surgiu essa oportunidade?

Na década de 90 dei aulas de inglês no Rio de Janeiro e estive a aprender português. Depois, a meio dos anos 2000, comecei a trabalhar para a Amnistia Internacional como investigador na área dos direitos humanos no Brasil. Esse trabalho levou-me a viajar pelo país, pelas favelas, reservas indígenas, campos de cana de açúcar, pelo sistema prisional, mas também pelos níveis mais altos da administração federal e do Estado. Nesse período aprendi imenso sobre todos os aspetos da vida e cultura brasileiros: muitas coisas positivas, mas também muitas coisas negativas.

Do que gostou mais e do que gostou menos no país?

O Brasil é uma mistura extraordinária de influências e culturas – da forte herança portuguesa às marcas afro-brasileiras e indígenas. A sua história única significa que se distingue tanto dos seus vizinhos latino-americanos como das origens europeias. Penso que isso dá à sua cultura, cozinha e arquitetura um toque de originalidade muito especial. No que toca ao que gostei menos, o Brasil é um país muito mal administrado, com a política federal, estatal e municipal enredada na corrupção. As infraestruturas urbanas são muito deficitárias, como os serviços públicos de saúde e educação. A violência policial e dos gangues é trágica. Viver no Rio permitiu-me experimentar esses prazeres num cenário incrível, mas também me mostrou as dificuldades do dia-a-dia numa cidade ineficiente e insegura.

Conhecendo o país e o seu passado, vê razões históricas para a corrupção generalizada que hoje está à vista?

Sem dúvida. Desde os tempos coloniais, o Brasil tem sido governado por uma elite que não tem de prestar contas a ninguém. Todo o sistema político foi construído em torno da troca de favores. Alguns dos estados menos desenvolvidos no Nordeste mantêm tradições coloniais de famílias poderosas que dominam a vida política e económica num sistema quase feudal. Nos centros mais sofisticados, como o Rio e S. Paulo, os interesses do Estado e das grandes empresas há muito que estão ligados de forma pouco saudável. O que é diferente hoje é que séculos de impunidade estão a chegar ao fim, com a investigação Lava Jato e as acusações a políticos e homens de negócios de topo. Temos de esperar para ver se realmente estamos perante uma viragem histórica fundamental ou se os antigos sistemas de corrupção vão-se adaptar e reafirmar-se.

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