‘Paterson’: Uma cidade, um homem, um poema, um filme

7 JULHO, 2017 -

Se o filme de Jim Jarmusch é um tão grande triunfo, isso não se deve apenas ao talento do cineasta, mas começa pela excelente tradução para o ecrã da obra de um dos maiores poetas do século XX.

O protagonista de “Paterson” tem um caderno que leva consigo para todo o lado, como uma sombra secreta. Aí recolhe os sinais dessa vida que sobra, a margem de encanto que persiste das deambulações aparentemente anódinas da sua pacata existência na cidade Paterson, no estado americano de New Jersey. Chama-se Paterson também o personagem interpretado por Adam Driver, naquele que é só o primeiro de uma série de ecos através dos quais o filme de Jim Jarmusch nunca se cansa de sublinhar o quanto certas subtilezas só as captura uma atenção que insiste nos mesmos motivos, repete as coisas e os lugares, as pessoas e a vida local.

Há uma obstinação muito particular neste filme, capaz de traduzir a experiência revolucionária de um poeta que teve uma influência decisiva na poesia norte-americana. A única verdadeira medida do universal é o local, notou William Carlos Williams, poeta a quem Jarmusch, mais do que render uma homenagem, faz comparecer neste filme. Acompanhamos assim este motorista de autocarro que à poesia reserva o seu ângulo contemplativo, mantendo uma tensão que não só evita que os sentidos embotem, como faz do dia-a-dia um contínuo, permitindo-lhe levar a fundo as suas investigações. Durante uma semana, seguimos Paterson, o seu processo, o quotidiano elevado a uma disciplina.

Logo fica claro como, do poema de Williams, “Paterson”, dividido em cinco volumes (o sexto ficou a meio quando o poeta morreu), e publicado entre 1946 e 1958, Jarmusch ficou fascinado com a ideia que surge logo no início, a de “um homem como metáfora para a cidade de Paterson, e vice-versa”. À semelhança do protagonista do seu filme, também Williams viveu ali a vida inteira, saindo apenas pela duração do curso de medicina. De dia, dirigia a unidade de Pediatria do Hospital Geral de Passaic, à noite, escrevia poemas.

No caderno de Paterson estão todos os poemas que escreveu. Só os mostrou a Laura, a namorada. E musa. Interpretada por Golshifteh Farahani – a atriz iraniana que, depois de ter posado nua para a revista francesa “Madame Figaro”, em janeiro de 2012, foi banida do seu país -, além do toque de café no leite, de uma beleza que causa algum sobressalto na ideia do que é hoje local, denunciando a explosão multicultural e étnica dos nossos dias, há nela um desafio das possibilidades, é ela quem, para lá de sonhar com uma Pérsia mítica, ambiciona fazer fortuna a vender cupcakes, ao mesmo tempo que fantasia tornar-se uma estrela da música country, tem um sentido de estilo ao mesmo tempo exuberante e irónico, ficando pelo preto e branco e criando com eles mais movimento do que aqueles que preferem ser óbvios, e abusam das cores. (Também aqui há algo mais do que um piscar de olhos às restrições que se autoimpunha Williams, e que tornaram o seu estilo um exemplo de fabulosa sobriedade.) É ela também quem procura contagiar Paterson, exigindo que mostre os poemas “ao mundo”, coisa em relação à qual ele se mostra mais do que reticente.

Depois há Marvin, o buldogue que Paterson leva a passear todas as noites, num ritual que vê cada dia acabar no bar local. O dono entra, senta-se ao balcão, demora uma caneca de cerveja e fica à mão de um pouco de conversa, deixando lá fora o cão amarrado pela trela a um poste. Quando o cão lhe estraçalha o caderno, a coisa é feita com um tal afinco, que se pode dizer que foi um ato de vingança, mas o cuidado em desfazer em pedacinhos o caderno, como se quisesse apagar o rasto de cada um dos versos escritos por Paterson, abre margem à hipótese do cão ter sido possuído pelo furioso instinto de um crítico literário.

A destruição dos poemas irá servir como um teste à obstinação de Paterson, que, antes que a semana volte ao início, terá de ultrapassar o desgosto, resolver que o que importa não é o percurso e nem sequer o veículo – de resto, também o velho autocarro se vem abaixo, parado à berma da estrada na sexta-feira. Um problema elétrico.

Não são os poemas – escritos propositadamente para o filme pelo poeta Ron Padgett, amigo pessoal de Jarmusch – que tornam este um dos melhores filmes entre os que abordam de forma tão fria e inspirada “a mais desocupada das ocupações”. Não são grande coisa os três poemas que apanhamos Paterson a escrever nesta semana, mas o que torna este um filme tão relevante poeticamente  é a forma como dialoga e, às vezes, transpõe de forma exímia para o cinema a abrupta e deliciosa técnica dos poemas de Williams.

No que toca à melhor poesia, não há substitutos, e aparte o poderoso engenho metafórico de Jarmusch, os seus planos, de uma beleza tão contida num estudo visual que serve um excelente quadro interpretativo para a obra do poeta que viria a ganhar já postumamente o Pulitzer por “Pictures from Brueghel and Other Poems” (1962), só nos é lido um grande poema neste filme. É o que Paterson lê a Laura na imagem acima: “Isto é só para dizer/ que comi/ as ameixas/ que estavam/ no frigorífico// as quais/ tu provavelmente/ tinhas guardado/ para o pequeno-almoço// Perdoa-me/ estavam deliciosas/ tão doces/ e tão frescas”.

Não é que os três poemas de Padgett atribuídos a Paterson não cumpram a sua função, cumprem-no precisamente porque deixam ver o trabalho menos do que o poema acabado, que consegue ser tantas vezes tão sedutor quanto enganador, como acontece com alguns dos mais breves e intensos poemas de Williams, que chegam a parecer puros acidentes provocados pela inspiração. Este filme deixa claro que esses golpes de asa são tão raros ou improváveis quanto ser atingido por um raio. “Paterson” é um filme sobre um tipo que tem ainda de fazer essa decisão. A meio do caminho da sua vida, depois de o cão lhe ter destruído todos os poemas que tinha escrito, ele deve decidir se quer mesmo entregar o resto dos seus dias a uma disciplina em que, no fim, com ou sem reconhecimento, é como se nada ficasse. Até porque, mesmo um génio como William Carlos Williams é um nome praticamente desconhecido, e não tem na cidade à qual se dedicou com tamanha obsessão mais do que alguma placa, muito menos do que outras figuras que a lógica mediática manda hoje elevar a divindades. Todas estas questões são tocadas com uma subtileza espantosa no filme. Por detrás do balcão há uma parede da fama, onde o dono do bar decide segundo critérios algo insondáveis quem merece ou não figurar ali.

Laura prepara todas as manhãs a lancheira que Paterson leva para o trabalho. Na hora do almoço, ele escolhe a cascata de Passaic, um dos sítios preferidos de Williams, para comer e tentar escrever alguns versos. Num dos dias, além de lhe mandar uma fotografia sua, Laura mete também uma imagem de Dante; e noutra ocasião lembra-lhe o facto de a musa de Petrarca, “o poeta que aperfeiçoou o soneto”, e elevou o amor romântico a alturas nas quais tem persistido desde então, se chamar Laura, como ela. (“Transforma-se o amador na cousa amada”… Mas isso é do Camões!, dirá o leitor. Não, não é. Foi só uma das muitas coisas que o nosso maior lá foi buscar.)

É ela quem mais acredita no talento de Paterson, e quem partilha com ele a admiração por “Carlo William Carlos”, como lhe chama, não sabemos se brincando se por distração. Mas o importante é que este gesto motivacional da namorada convoca os génios intemporais de Dante e Petrarca a par do de Williams. E não seria a primeira vez que isso acontece. Daisy Fried, num artigo no “The New York Times” que Jarmusch talvez tenha lido, defende que ele foi mais importante que Ezra Pound e até que T. S. Eliot. O maior poeta do século XX. Talvez seja exagero, como é compará-lo na sua influência na língua americana àquela que Dante teve para o italiano – sendo “A Divina Comédia” a obra fundadora da língua italiana moderna. Mas não é exagero dizer que o tempo que Williams dedicou, como faz Paterson, a ouvir conversas, a apurar o tumulto, o balanço da língua, o calão, as piadas, a captar-lhe a vivacidade e o caráter, os aspetos mais distintivos. Trazer para os poemas os cortes e suspensões, truncar os versos, criar efeitos de sobreposição, elidindo, partindo… Trazer a poesia como a uma sombra, capaz de se surpreender e perseguir depois o que a marcou, fazer participar dos poemas esses acidentes tão espontâneos, recriar o lado íntimo, mais discreto, o estado de graça, essas variações que nos prendem e agarram a isto, a tudo, essas coisas de nada de que, afinal, tanta coisa depende.

Texto escrito por Diogo Vaz Pinto, publicado no nosso parceiro jornal Sol

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