‘Paradise’, de ANOHNI, é a continuação e o juntar de peças soltas de HOPELESSNESS

1 ABRIL, 2017 -

Foi o ano passado, com HOPELESSNESS, que assistimos à partida de ANOHNI do som suave e orquestral a que nos habituara com Antony and the Johnsons. Fê-lo através da introdução de elementos de eletrónica, que tornaram o seu som acessível a um público mais mainstream, e cujo objetivo foi, maioritariamente, passar uma mensagem; veja-se as letras dos singles 4 Degrees ou Drone Bomb Me, em que a cantautora nos atinge com algumas das mais cruas atualidades que ferem o mundo e a humanidade, sejam o aquecimento global ou a guerra no médio oriente. A eficiência da sua comunicação advém da facilidade com que tais músicas se consomem e consequentemente incitam a uma reflexão nas questões que abordam. De outra forma, pode ver-se esta estranha conciliação rítmica e temática como um modo de frisar a indiferença com que a população reage aos problemas sociais com que é bombardeada diariamente. Seja como for que olhamos para o álbum, é inegável louvar o seu valor, quer a nível de produção e masterização, quer pela importância das temáticas abordadas.

ANOHNI prolonga essa conceptualização com Paradise. Este extendend play de seis temas, gravado na mesma altura que HOPELESSNESS, contou com a produção de nomes como Oneohtrix Point Never, e, talvez mais do que o anterior, procura articular os seus muitos elementos de electronica ambiente com os graves da voz da cantora e os ritmos mais pop de algumas das músicas, como por exemplo, o title track, Paradise.

Começando com In My Dreams, em que uma camada de ruido branco é sucessivamente subjugada ao repetitivo sintetizador, ANOHNI invoca os sonhos, palavra importante em todo este álbum, e que serve de ponto de partida para a idealização de um mundo em que não vivemos. Segue-se, por isso, e como só faria sentido, Paradise, aquilo que só encontramos nos sonhos – um mundo sem fim em que a falta de esperança se afunda na terra. Acompanhado de batidas profundas, marca ritmicamente uma conexão entre essa expetativa com o infortúnio do momento presente (“Staring at myself / I feel giant and trapped / Seemingly / Without escape”), a intermitente oscilação entre o sonho e a realidade (“I’m here, not here / As a point of consciousness”).

Jesus Will Kill You dirige-se aos líderes que, de uma forma ou outra, estão por trás da desarmonia entre nações; daqueles que colocam os seus interesses à frente do bem-estar da sociedade que representam – o que lhes dá esse direito, como pode o poder determinar a riqueza e a riqueza determinar o poder de uma porção tão ínfima privilegiada que só por isso têm na mão o comando do mundo? Esta revolta é seguida imediatamente pela desilusão frisada pelas próprias palavras do titulo de You Are My Enemy, em que a voz é o centro e o instrumental é minimalista, começando apenas no segundo verso, deixando ecoar o primeiro na imensidão do silencio com “I never felt a part of this world / I reject the way that we live / I give birth to my own enemy”.

Ricochet presiste, mas há uma alteração rítmica – há agora uma urgência que acompanha o medo exprimido em “I don’t wanna ricochet” e que culmina com a cedência ao conformismo de She Doesn’t Mourn Her Loss, uma canção taciturna de terminus, que nos deixa com a palavras sentidas de alguém não nativo inglês, a exprimir desejo de um dia nos unirmos e trabalharmos para um mundo melhor.

Paradise é então uma continuação, a associação das peças soltas que ficaram por juntar em HOPELESSNESS, que fortifica a mudança de direção de ANOHNI enquanto cantora, mudança essa surgida da necessidade de vozes que se façam ouvir numa sociedade cada vez mais auto-destrutiva. É difícil pensar numa voz que o faça mais intensamente que ANOHNI, e por isso, agradecemos.

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