Paolo Cognetti: “A ida para as montanhas foi uma resposta à depressão”

17 MAIO, 2017 -

“As Oito Montanhas” é um romance que parte da autobiografia para se lançar numa meditação sobre o regresso aos lugares da infância, às montanhas, à pobreza e à liberdade.

Da noite para o dia, Paolo Cognetti tornou-se o rapaz prodígio das letras italianas. Antes do livro sequer ser publicado, foi a grande sensação na Feira do Livro de Frankfurt, sendo vendido para 30 países. Depois de ter fugido para as montanhas nos Alpes para escapar a uma depressão, de ter aceite a pobreza e um estilo de vida algo ascético, o escritor tem agora razões para temer que o sucesso literário não se contente em bater-lhe à porta, mas que ameace arrombá-la.

Além de escritor, foi realizador, documentarista. Em que medida à uma confluência destas duas actividades? Ou seja, de que forma é que a sua escrita corresponde também a um desejo de gravar e documentar?

Penso que o ter sido documentarista influencia a minha escrita de duas formas diferentes: Primeiro, no olhar. Tudo o que conto tem de passar pela visualização. É uma regra a que me submeto, e é o que aprecio tanto nalguns escritores norte-americanos, como o Hemingway, em que tudo naquela escrita se vê. Num romance, em qualquer história há muitas coisas que permanecem invisíveis, que não podem sequer ser ditas. Muitas coisas entre os meus personagens, entre Pietro e o seu pai, ou o seu amigo, não chegam a ser ditas. Aprecio essa forma de escrever, em que muito fica no escuro. O segundo aspecto relaciona-se com o meu interesse pela vida dos outros. Tenho um narrador bastante tímido, que não gosta muito de falar sobre si mesmo, sobre a sua vida privada… Nem sequer sabemos se tem namorada ou não, o que é que está a fazer no Nepal… Ele prefere falar sobre o seu amigo, Bruno. Esta opção pelo narrador que usa o seu ponto de vista como testemunha mas permanece ausente vem do documentário. Quando filmas um documentário não o fazes para te expor a ti mesmo. Estás aberto e disponível para a vida e a visão dos outros.

Como é que a ficção entra neste seu romance? No fim, parece-lhe que é uma obra autobiográfica ou acredita que a ficção cria uma nova realidade permitindo-lhe aprofundar a sua relação com o mundo e com os outros?

É uma questão importante, e que ao mesmo tempo permanece um mistério para mim. No início há muito de autobiográfico, conto muitas coisas sobre a minha infância, o meu pai, a minha família, as montanhas, os lugares onde passei os meus primeiros anos, mas, a partir daí, a ficção arranca. Não sei bem porque é que precisamos da ficção. A partir de que momento é que a ficção toma conta de uma autobiografia, e a transforma numa outra coisa? Talvez seja um mecanismo para tornar a tua história algo mais universal, passar de um ângulo privado, de uma memória íntima para uma memória colectiva. Esse é o poder da ficção.

Antes tinha já escrito dois livros de não-ficção.

Sim, o primeiro foi “Il ragazzo selvático”, que foi um diário dos meus primeiros seis meses nas montanhas, um relato das experiências de solidão e ermitério. É um pequeno livro que encontrou os seus leitores, mas um público reduzido. Para uma autobiografia, acho que esse era o público que se deseja. É desejável que seja uma coisa partilhada entre poucos. Já um romance pode aspirar não apenas a um público mais vasto, mas a própria natureza do romance é dizer respeito a mais pessoas. Seria impossível aquele livro ter sido traduzido para 30 livros como está a acontecer com este. Nem sei bem porquê, mas este romance parece ter algo que irá ser igualmente perceptível para um chinês como para um italiano.

Este livro teve um enorme sucesso não só crítico como de vendas em Itália. Quando começou a ter reacções, sentiu que o seu alcance se relaciona com o surgir num momento em que as pessoas estão bastante conscientes da tensão entre a vida urbana e aquela que se vive no campo, o afastamento em relação à natureza?

Sim, é um momento de grande apreensão. Recebo muitos emails de leitores. Parte deles são apenas para dizer que se identificaram, porque também eles tiveram uma infância no campo, ou que se reconheceram na relação entre mim e o meu pai, a mesma relação que eu estabeleci com as montanhas. Outra parte, fala no seu desejo de também mudar de vida. Trocar a cidade pelo campo, descobrir uma outra forma de vida. É uma necessidade deste tempo, desta geração, face às pressões de uma sociedade que nos sufoca, e devido também aos constrangimentos provocados pela crise financeira e económica. Muitos aperceberam-se de que, de certo modo, tinha sido o fim de uma era, que havia um modelo que já não resultava para nós. Essa noção de que deves lutar para ter uma carreira de sucesso, formar família, viver entre casa e o trabalho, tudo isso entrou em crise com a economia.

Trocou a sua vida em Milão para ir para as montanhas, ficando a viver numa casa a dois mil metros de altitude. A mudança e os primeiros tempos provocaram algum choque em si?

O que me levou a essa mudança foi a sensação de que estava a viver uma vida vazia. Tinha 30 anos, e senti o que sentem tantos outros jovens que se dão conta de que lhes falta uma razão forte para viverem na cidade. Foi num período em que muitas coisas pareciam ter chegado ao fim. Foi o fim de uma relação amorosa, de um projecto que tinha com alguns amigos, e julgo que estava à beira de uma depressão. Ir para as montanhas foi uma resposta à depressão. Encontrar um lugar onde pudesse começar de novo, descobrir algo que me apaixonasse. Uma nova vida, uma energia nova. Porque a depressão é isso, essa vertigem que nos rouba a energia. Já nem escrevia, tinha até deixado de ler. Estava dominado por uma enorme fragilidade. As montanhas foram uma caminho para encontrar de novo a forma e o meu gosto pela vida.

Um escritor que nos vem à cabeça ao ler o seu romance é Hermann Hesse, na medida em que ele também usava os romances, as suas personagens e a narrativa para criar poderosas meditações, uma certa espiritualidade. As suas personagens também parecem não enquadrar apenas uma certa personalidade, mas uma atitude de contemplação.

Gostei muito dos romances de Hesse que li. E também da forma como o romance dele caminha sempre para aquela noção do bildunsroman, e estas personagens que são sempre viajantes, figuras errantes, as vidas deles reflectem sempre uma busca incessante. Na verdade, um dos principais modelos para “As Oito Montanhas” foi “Narciso e Goldmund” [romance de Hesse], que é também a história de dois amigos: um monge e um artista. Os dois falam sobre as diferentes escolhas que fizeram na vida, e este mesmo modelo romântico usei-o no meu livro, com Pietro e Bruno. Bruno é aquele que nunca abandonou as montanhas, e Pietro aquele que regressa da cidade, e que passa a vida a viajar sem encontrar o seu lugar no mundo.

Começou por escrever poesia e depois contos. O que é que passou do seu trabalho nesses géneros mais ‘minuciosos’ para o romance?

Mais do que poesia escrevi muitos contos. Um género que me parece estabelecer um compromisso entre a poesia e o romance. Porque nos contos existe uma atenção a cada palavra, um efeito de depuração. Persisto nessa crença de que é necessário encontrar a palavra acertada, justa. Penso que no romance a minha escrita continua a ser concisa. Não sou o tipo de escritor que escreve centenas e centenas de páginas. Sou dos escritores que gosta de limpar, cortar, riscar, na busca da palavra que chega para dizer o que queres.

Hoje vive uma parte do ano na cidade e a outra nas montanhas. Parece-lhe que uma compensa a outra, ou sente cada vez mais a necessidade de afastar-se da agitação urbana e das pressões da sociedade?

Nunca tomei a decisão radical de abandonar de vez a cidade. Sinto sempre a necessidade de regressar, sobretudo no inverno. Sinto que uma e outra se opõem mas, por isso mesmo, complementam. Há alturas em que não suporto estar nas montanhas. A solidão, o silêncio são demais. Preciso de descer. Na verdade, adoro as cidades. Adoro estar aqui em Lisboa estes dias. Adoro estar e falar com as pessoas. Há duas estações na minha vida. A que me obriga estar recolhido, a escrever, junta da natureza, dos animais, e a que me leva para a cidade.

Qual foi o período mais longo que passou isolado nas montanhas?

Talvez uns três ou quatro meses. Às vezes recebia a visita de amigos, mas de resto estava sozinho.

E que tipo de luxos tem?

A casa tem luz, tem água, tenho cozinha, tenho casa de banho, até tenho uma conexão à internet, que embora não funcione muito bem me permite fazer chamadas, embora não me permita estar ligado às redes sociais ou a fazer alguma coisa que exija mais tráfego. Dá para estar contactável, mas não dá para permanecer ligado. É o que me serve. Nada de radical, um meio termo.

Como compara hoje a sua vida à dos seus pais?

Eu e o meu pai somos muitos diferentes e muito parecidos. Para começar, fisicamente, somos muito semelhantes. E à medida que cresço e envelheço revejo-me cada vez mais nele. Mas as nossas vidas são tão diferentes. Ele foi o tipo que trabalhou 35 anos na mesma empresa, oito ou nove horas por dia, casou, teve dois filhos… a vida dos nossos pais. A minha vida é completamente diferente. Nunca trabalhei para uma empresa, tenho namorada mas não me parece que venha a ter filhos. Sinto-me tão livre sendo escritor, e também por ser pobre. Durante muitas anos vivi sem ter dinheiro para nada. Cheguei mesmo a passar grandes dificuldades. Mas sou também um filho desta época. Eu e o meu pai somos a prova de que a mesma pessoa em duas épocas diferentes se tornam homens diferentes.

O seu livro tornou-se uma sensação mesmo antes de ser traduzido para outras línguas. Portugal é, aliás, um dos primeiros países depois de Itália a poder lê-lo. Mas todo este sucesso não lhe provoca alguns receios? Não sente que agora pode surgir um novo desafio, que terá a ver com as pressões do meio literário para andar pelo mundo a promover o seu livro?

Sim, isso está a tornar-se um problema. No início estava apenas excitado, mas agora que o livro já foi publicado em Itália há seis meses…

Mas o livro só foi publicado há seis meses?

Sim, em Novembro passado. Foi vendido para todos esses países antes de ter sido publicado em Itália.

Portanto ainda nem sabiam que ia ser um sucesso de vendas em Itália.

Não. Tinham apenas lido o romance e acreditaram que ia ser um sucesso. Mas por causa disto estou a ter um ano bastante diferente daquilo a que estou habituado.

O livro foi publicado pela Einaudi, que é uma das mais prestigiadas editoras italianas. Sei que foi um sucesso junto da crítica, mas e as vendas?

Vendeu mais de 100 mil exemplares. O que é bastante. Mas este ano para mim foi passado quase todos os dias a falar do livro. A viajar pelo país. É muito bonito, mas não é a minha vida. Agora começo realmente a sentir necessidade de retomar a vida que tinha. Escrever, ler, estar com os meus amigos. Estou agora a encarar este sucesso como um problema.

Entrevista de Diogo Vaz Pinto, publicada no nosso parceiro Jornal SOL

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