‘Países europeus que viveram atrás de muros não deviam construí-los’

15 SETEMBRO, 2016 -

O coordenador do Governo grego para os refugiados e migrações, Dimitris Vitsas, avisa que a Europa deve construir um “muro de humanidade” contra a xenofobia, numa alusão aos países da União Europeia (UE) que insistem no reforço das suas fronteiras.

Na Europa temos de construir não um muro de xenofobia e racismo mas um muro de humanidade contra a xenofobia. Não devem existir muros nos Estados-membros da UE, tem a ver com o futuro dos direitos humanos e da democracia“, considerou o também ministro-adjunto da Defesa, 60 anos, que, na quarta-feira, concluiu uma visita oficial de dois dias a Portugal para promover encontros com responsáveis políticos e visitar instalações civis e militares.

O ministro-adjunto grego criticava a decisão do primeiro-ministro conservador búlgaro, Boiko Borissov, que, na quarta-feira, exigiu financiamento a Bruxelas para concluir um muro de arame farpado na fronteira com a Turquia, no decurso de uma visita a essa região acompanhado pelos seu homólogo húngaro, Viktor Orban.

Não é solução… Assim não se apoia a UE nem os fundamentos da União nem da ONU. Não é solução esses países apoiarem este tipo de ideias. Durante muitos anos esses mesmos países estiveram atrás de um muro… No passado a Grécia abriu as portas a muitos cidadãos desses países, e os governos têm de pensar que a UE tem de se opor a quem assuma ideias racistas e nazis“, assinalou.

Dimitris Vitsas defendeu a necessidade estrita de promover os valores da democracia e dos direitos humanos, para que também se protejam “as populações da Europa e também os refugiados e os povos desses países“, recordando que a Grécia foi o “primeiro país” europeu a acolher migrantes na sequência da vaga de imigração iniciada no início de 2015.

No entanto, e ao ser questionado sobre o acordo UE-Turquia de 20 de março, o ministro grego, militante destacado do partido de esquerda Syriza e designado em fevereiro coordenador dos ministérios gregos para a gestão da questão dos refugiados e das migrações, defendeu-se das críticas emitidas por diversas ONG.

As ONG tinham dúvidas que conseguíssemos acolher os refugiados. Juntamente com a ONU o Governo grego está a proteger os direitos humanos, estamos no bom caminho, e apoiamos os diretos humanos“, assinalou.

Com o acordo UE-Turquia, a Turquia vai ser beneficiada. A cooperação da Turquia é muito importante e estamos a tentar avançar com o acordo, com diversos intervenientes, Turquia, Grécia, UE, organizações internacionais, e será aplicado até que termine a guerra e a pobreza nas regiões atingidas“, acrescentou.

Em março, a UE comprometeu-se a conceder 3.000 milhões de euros até 2017, e outros 3.000 milhões em data posterior, em troca da colaboração de Ancara na contenção da chegada de imigrantes em situação irregular e de refugiados ao espaço comunitário.

Bruxelas anuiu ainda a uma exigência da Turquia e admitiu a isenção dos vistos para os cidadãos turcos que pretendam entrar no espaço comunitário, sob determinadas condições.

Neste momento, no nosso país, 40.000 refugiados e imigrantes estão nas ilhas e 50.000 na Grécia continental. Já conseguimos acolhe-los, mas não tínhamos o apoio comprometido a UE“, precisou o ministro, que também se congratulou com a “bastante ajuda” de Portugal nesta área.

O que falta neste momento é o trabalho de investigação, a concessão de asilo e o procedimento de recolocação dos refugiados no âmbito do acordo UE-Turquia. Iniciámos agora o segundo programa de cuidados de saúde e acolhimento em casas, e de asilo, que será concluído até ao fim do ano” disse.

No âmbito deste acordo, prevê-se ainda que a UE aceite um refugiado sírio por cada migrante ou refugiado que tenha chegado ilegalmente às costas da Grécia, e que deverá ser “devolvido” à Turquia.

Após a sua conclusão, o fluxo migratório registou uma drástica diminuição na região do Mediterrâneo oriental: “Até 20 de março [data da entrada em vigor do acordo UE-Turquia] chegavam à Grécia 1.000 pessoas por dia, em 2015 tivemos 10.000 pessoas por dia, agora estão a chegar 100 pessoas por dia“.

Numa alusão à recente cimeira de Atenas, que na sexta-feira juntou na capital grega dirigentes políticos dos países do sul da UE, incluindo Portugal, Dimitris Vitsas frisou que o encontro teve como objetivo essencial sublinhar os problemas idênticos de todos os países envolvidos, e fornecer soluções e propostas para toda a Europa.

Não é para dividir a Europa, mas para englobar toda a história europeia e todos os seus fundamentos. Mesmo o representante de Espanha [com um governo de gestão conservador] concordou. E quem não apoia essa perspetiva, pretende que a austeridade se mantenha entre os povos do sul da Europa, e em toda a Europa“, sintetizou.

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Texto de Lusa

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