‘Ozark’: para além do bem e do mal, uma moral para os dias de hoje

22 AGOSTO, 2017 -

A nova série da Netflix deixa claro que a ficção televisiva alcançou já aquela maturidade que se prende com o ter um vasto legado, uma série de exemplos no passado ao qual pode ir beber sem, no entanto, ficar preso a ele

Além de toda a perturbação económica, da forma como envenenou as expectativas de boa parte da classe média, fez da pobreza uma aventura ainda mais drástica e impiedosa, atirando tantos para um modo de sobrevivência fantasmal, a crise financeira teve um inimaginável custo moral. A cortina caiu e a esperança, afinal, foi das primeiras coisas a morrer. Com ela, arrastadas, muitas ilusões foram ao fundo, e os ideais que serviam de bóia não aguentaram. As letras pequenas são hoje as que primeiro vamos ler. De algum modo, perguntamo-nos sempre: Como é que nos estão a tentar lixar? A confiança tornou-se um luxo acima das nossas possibilidades. O subtexto social alterou-se, e parece agora fazer notar que a realidade não terá a menor complacência para com os ingénuos.

“Ozark”, a nova série da Netflix, marca esse ponto de inflexão, o momento em que uma decisão arriscada de um chefe de família faz dele um peão num jogo muito perigoso, vendo-se obrigado a arrastar a família para longe de tudo o que tinham como raízes e a despedirem-se de tudo aquilo a que achavam que tinham direito.

Marty Byrde é o protagonista que, na interpretação de Jason Bateman, se transforma num sublime ensaio sobre esse raro talento de alguns homens que viram “o destino seguir-lhes o rastro como um louco com uma navalha na mão” (Arsenii Tarkovskii) manterem, não a calma nem a frieza, mas o terror como pura motivação. Estamos a falar de um gestor de fundos, um génio meticuloso que, no entanto, mal sobrevive ao quotidiano que fez da sua vida abastada nos subúrbios de Chicago o típico cenário de um drama insosso. Os dois filhos estão bem, a educar-se e a crescer de forma ligeiramente insubordinada, e, naturalmente, estão-se nas tintas para ele. A mulher – interpretada de forma igualmente pungente por Laura Linney –, depois de um hiato de 15 anos, tendo feito uma pausa na carreira para criar os miúdos, na volta deu com um mundo onde as segundas oportunidades são como trevos de quatro folhas. Em vez de antidepressivos, preferiu arranjar outro homem e compensar-se, assim, não apenas da falta de atenção do marido, como da falta de sentido de uma existência pacata e sem desafios.

Esta série não chega a ter o arranque convencional. À partida, já sabemos que, a não ser que a velocidade dos acontecimentos os cole nas suas posições, cada um dos elementos desta família irá arranjar a sua fuga. Basta o primeiro episódio para que estas circunstâncias extraordinárias se alinhem e atirem para segundo lugar as crises pessoais de cada um, exigindo-lhes todas as suas forças para se agarrarem à vida.

Artigo escrito por Diogo Vaz Pinto, publicado no nosso parceiro jornal i

Comentários

Artigos que poderão ser do teu interesse

ARTIGOS RELACIONADOS