Os passos filosóficos da Escolástica

13 SETEMBRO, 2017 -

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No seio da Idade Média, muitas vezes designada como a “Idade das Trevas”, surgiu um rasgo de luz no pensamento filosófico, à imagem de muitas iluminações que, não obstante a fustigada fase temporal, tomaram proporções nessa altura. É neste contexto que surge o sistema da escolástica, relacionado com o Cristianismo, mas que não abdicou de, a partir de várias traduções efetuadas por copistas e monges, envolver a filosofia greco-romana. Assim, várias problemáticas filosóficas, como a vontade, a razão, a fé, o intelecto, e a existência e manifestação de Deus, surgem como destaque neste sistema de pensamento. Antevendo o Renascimento, ficou esta charneira, que não deixou de influenciar vários dos filósofos que se seguiriam, como o racionalista René Descartes, e o idealista Georg Friedrich Hegel.

Numa visão historicista, a idade medieval é, muitas vezes, ao olho do senso comum, visualizada como regressiva e atrasada. No entanto, e com a referência desta tradição filosófica, catapultou o interesse das gerações seguintes pelas vidas e rotinas das mentes e agentes da Idade Média. Mesmo com o espectro do Cristianismo em torno do sistema de pensamento escolástico, não deixa de, ao representar as classes a partir das quais se dão as primeiras relações de ensino e de pedagogia, marcar a estruturação da própria filosofia, de divulgar esses ancestrais escritos, e de dar um mote certeiro e oportuno para a literacia crescente da sociedade.

A escolástica não poderia surgir sem a necessidade histórica da criação das escolas, tentando revitalizar a prática do ensino, esquecida na fase greco-romana. Tudo começou com a fundação da abadia beneditina Monte Cassino, em Itália. O padrão intelectual muda para os mosteiros católicos, e despede-se da sociedade civil, que se prende com tradições e costumes comunitários na sua dinâmica. A incorporação, por parte dos bárbaros, dos valores e das formas de comunicação e de conhecimento dos povos romanos só foi possível pelo trabalho realizado pelos escolásticos, que sumarizaram e classificaram os materiais existentes à data.

No entanto, foi mais do que esse o intento e a importância da escolástica, que encaminhou os seus objetivos para a preservação da tradição cultural existente, incluindo os famosos sistemas de pensamento platónicos e aristotélicos. Na procura de alcançar a verdade, com base nos ensinamentos cristãos, seriam vários aqueles que associariam a vocação mais pensada e racional, plasmada em obras de renome, e conservadas pelas classes monásticas. O ensino, seguidamente, tornar-se-ia organizado em três áreas primárias (gramática, dialética e retórica), conhecidas como trivium, às quais se juntariam as aglomeradas no quadrivium, já numa fase mais aberta para o desenvolvimento científico, com a astronomia, a aritmética, a música, e a geometria.

Boécio, um filósofo imbuído no tempo do Império Romano, já perto da queda deste, havia dado o mote para que se consagrasse essa dialética, que despontava na sagração da fé e das figuras cristãs, tendo traduzido uma importante fatia de tratados helénicos de diferentes pensadores. Da sua autoria, destaca-se “A Consolação da Filosofia”, onde discorre sobre a eternidade e a sabedoria sustentadas na virtude e na emoção divinas. Antes de arrancar a Idade Média, juntar-se-ia Cassiodoro, outro estadista romano, à imagem de Boécio, mas que abdicou das suas funções políticas pela preservação da herança intelectual existente, passando a viver num mosteiro. O mosteiro passaria, assim, a ser uma zona de grande curiosidade intelectual, onde, mais do que se estimar, se questionava e se aplicava à sociedade como um todo.

Esta era uma fase em que, para os antecedentes e para os próprios escolásticos, era inconcebível crer que vozes surgissem e afirmassem, com toda a certeza, que nada há de impercetível à razão humana, nem mesmo os mistérios da revelação. Um monge, conhecido por Pseudo-Dionísio, o Areopagita, tornou-se num dos mais curiosos e mais referenciados nomes, daqueles que viriam a contribuir para a afirmação dessa cultura ocidental. Não obstante as imensas dúvidas sobre a sua identidade, embora se tenha tornado homologado pela Igreja Católica, por ser o único a ser convertido por São Paulo. A influência que o seu pensamento teve nos subsequentes escolásticos foi notável, na estruturação daquilo que era a teologia, com algumas nuances místicas e neoplatónicas. Para além disso, traria as ideias de que, à luz da teologia negativa que introduzia, nenhum nome poderia ser atribuído a Deus de forma apropriada, sem que fosse o próprio a revelar-se. No entanto, também esses nomes não poderiam expressar ou alcançar a natureza divina, pois o criador não tinha as mesmas origens em relação àquilo que criava. Apesar das várias afirmações ou negações feitas por outros em relação a Deus, perante a correção da negação efetuada àquilo que se lhe propunha, não poderiam alcançá-lo, pois este superar-se-ia a todas elas. Seu estudante, São Máximo, o Confessor estudou com detalhe e minúcia o neoplatonismo, e deu o mote para a formulação da Igreja grega. A controvérsia que gerou, todavia, passava por destrinçar a vontade humana da divina de Jesus Cristo, para além de considerar o destino e a caminhada da humanidade à imagem e até Deus. O pensamento greco-bizantino havia penetrado por toda a circulação interior e exponencial da formalizada escolástica, distanciando-se do puritanismo cristão.

É, precisamente, neste panorama que se contextualiza a associação platónica de Santo Agostinho de Hipónia, e a empatia aristotélica de São Tomás de Aquino. Importa destrinçar e apresentar estes dois nomes, proeminentes na influência da filosofia que se seguiria à apresentação das perspetivas de ambos. Agostinho, proveniente do Norte de África, deixou obras, como “A Cidade de Deus”, e “Confissões”, muniu a graça de Cristo de um caráter indispensável para a liberdade humana, para além de estudar a problemática do pecado original (o de Adão e Eva), e de dar o mote para a discussão das razões que tornem uma eventualidade bélica exequível. Não deixou de ser controverso, propondo a predestinação divina, e da sua postura filióquila, em que transmitiu a crença de que o Espírito Santo só procedia do pai, e não, também, do filho Jesus Cristo. No entanto, associou-se ao dualismo maniqueísta, e à importância neoplatónica da alma e do intangível, mesmo sem nunca prescindir da importância da Igreja, mais numa forma espiritual – a cidade de Deus – do que na sua formulação material. A salvação e a graça divina adquiriam uma forma emocional e que partia de dentro para fora, ao contrário do italiano Tomás de Aquino, que acreditava no inverso.

“Com o coração se pede. Com o coração se procura. Com o coração se bate e é com o coração que a porta se abre.”

Santo Agostinho de Hipona

Por sua vez, o italiano dominicano tornou-se no proponente da teologia natural, à luz da sua corrente do tomismo, em que argumentou que a razão, pertinente e determinante na intenção e ação humanas, estava em Deus. Várias sociedades beberam desta premissa de Aquino, e, no campo da ética, da metafísica, e da teoria política, apresentaram cenários sociopolíticos com bases de Tomás de Aquino. Esta fusão com o aristotelismo conheceu corolário em “Suma Teológica” e “Suma contra os Gentios”, obras fundamentais na formação teológica e na própria teoria e legislação canónicas. A sua missão consiste em colocar a metafísica ao serviço da teologia, com o conhecimento a provir, mais do que da iluminação divina agostiniana, do mundo sensível, existindo uma tabula rasa a ser preenchida. O intelectual tornou-se privilegiado em relação ao intencional, sendo mais perfeito que a ação concretizada. Menos místico e mais racional é o que carateriza Tomás de Aquino em relação a Agostinho.

A influência do Aeropagita chegaria até ao século XV, onde já existiam cardinais que se sentiam contagiados pela vocação matemática e experimental. À luz disso, surgiu Nicolau de Cusa, um humanista em pleno Renascimento, que procurava a mais ampla universalidade na companhia do neoplatonismo original e do cristão, no auge da elevação humana. Este nome seria, também, inspirado por um outro, que renovou as bases do neoplatonismo dionisíaco, e que procurou conceber sistemicamente o mundo, de forma menos panteísta. Assim, João Escoto Erígena, que viveu no século IX, em “Sobre a Divisão da Natureza”, tentou retirar o panteísmo, mesmo gerando vozes dissonantes na Igreja, e unir a Natureza ao dogma cristão da criação. Transversal a todos os teóricos à data, existia uma tendência para a discussão sistemática de textos e problemas existentes na literatura que tratavam e interpretavam. Formulados os seus pontos de vista, procuravam reunir a sua visão de verdade atingível, sem perder de vista a autonomia e independência intelectual dos seus desígnios.

Um dos que o procurou com mais afinco e destaque foi Alberto Magno, que nasceu na região bávara da Alemanha, e que inspirou Tomás de Aquino a partir da visão aristotélica que detinha, mais filosófica que religiosa, mas que não descartava a compreensão das várias ciências existentes então. Esse pendor de Aristóteles que se sentia na abordagem de Magno deveu-se ao intenso estudo que realizou à sua multidisciplinar obra, sendo um dos principais responsáveis pela sua legação até aos nossos dias. Não obstante, formulou princípios revolucionários à data, negando a filosofia perante a certeza da existência, conferida pela experiência. A razão e a fé tornavam-se, entretanto, menos conjugáveis, e dificultava-se a missão de encontrar analogias relativas às verdades da revelação. Mais do que imputar crença à coordenação do conhecimento natural, o filósofo tentou integrar os elementos a ordenar, e a estruturar de forma lógica, tendo em conta as suas divergências.

Quanto ao período escolástico, por si só, importa percecionar a sua evolução diacrónica. Um dos progenitores da formalização desta fase veio da Ordem Beneditina, sendo ele Santo Anselmo de Cantuária. Criador da perceção satisfação no sentido da expiação, tornou-se independente da influência direta da teologia negativa, e deu confiança à razão humana. A esta, apontou o caminho para iluminar os mistérios da fé cristã, embora fosse crente numa salvação através de Deus. A sua filosofia prendeu-se com a perceção da fé, ao ponto desta ser entendida, na compreensão da realidade material e imaterial, numa espécie de dualidade, que oscila entre o racionalismo e a irracionalidade da fé. O argumento ontológico fundamentador da existência de Deus que propôs acabaria por ser, depois, trabalhado pelo francês René Descartes, através do seu racionalismo.

“Não quero saber para crer, mas crer para saber”

Santo Anselmo de Cantuária

Precisamente a dialética acima mencionada seria problematizada pelos crescentes lógicos e teológicos que nasciam na alvorada da escolástica. Berengário de Tours, em pleno século XI, traria a razão para estudar Deus e a fé, e chegou a negar a transubstanciação a partir do pão. Por sua vez, Pedro Damião, um dos precursores da afirmação de São Francisco de Assis, caraterizaria a filosofia como a estrutura-base da teologia, e lutar-se-ia por provar, logicamente, a presença de Deus, por mais contraditória que aparentasse ser. Também São Bernardo de Claraval, cisterciense, e Abelardo, discutiriam essas hipóteses. O primeiro, de caráter vigoroso, olha com suspeição para a hierarquia lógica proposta pelo segundo, acusando-o de tentar ver toda a inteireza de Deus através da razão humana, embora problematizasse uma série de certezas católicas. Por sua vez, Abelardo tentava analisar criticamente o pensamento relativo a Deus, à luz de um ponto de vista lógico, discutindo a existência de duas realidades e das universalidades a si subjacentes. A realidade e a existência, como um todo, eram as principais problemáticas que sustentavam o fluxo pensativo dos escolásticos.

No entanto, o avanço deste, num ponto de vista criativo, só poderia ser possibilitado por um herdeiro de Santo Agostinho, de seu nome Hugo de São Vítor. A sua obra, que seria a primeira a ser devidamente considerada como uma summa – tratado sistemático de um dado grupo de conhecimentos, embora Pedro Lombardo também tenha constituído uma pouco antes sobre a teologia cristã – trouxe uma abertura ao mundo natural, defendendo que o conhecimento da realidade era um pré-requisito para a contemplação, um dos requisitos para a restauração da imagem divina. Foi um período em que, já no século XII, que a escolástica se iria consolidar na Idade Média, nas Universidades, tal como as de Paris, de Bolonha, e de Oxford.

“A conversa secreta é um encontro direto entre Deus e a alma, abstraída de todas as restrições materiais.”

Avicena

A maturidade do período escolástico chegaria pouco depois, com um pensamento muito fortalecido pelos postulados platónicos e agostinianos. Pedro Lombardo, com o seu breviário sobre as ideias de Santo Agostinho, formalizou essa inspiração, que não descurou, em resposta, a recuperação de Aristóteles, muito por via das traduções para latim que seriam feitas, pela primeira vez, do grego, ao invés das traduções árabes. Isto veio baralhar aquilo que já era uma visão consolidada da teologia e da realidade tangível e intangível. Com essa emergência, crescente foi o sentido de oportunidade de percecionar a realidade de uma nova forma, mais a partir da realidade aristotélica sugerida. Porém, alguma contenção permaneceu latente, com a vontade de remanescer a tradição e a totalidade da verdade, ainda para mais devidos aos comentários que vinham nessas obras traduzidas, e que poderiam gerar alguns distúrbios interpretativos. Dois dos nomes árabes que espelham essa realidade são os do persa Avicena e do espanhol Averróis. O primeiro seria crucial na realização e na promoção da medicina, para além dos diversos tratados que redigiu de cariz filosófico, bebendo muito daquilo que havia sido feito na Grécia Antiga (como “Metafísica”, de Aristóteles”), e colocando em perspetiva lógica e atestável a existência-essência de Deus Já o segundo dedicou-se ao estudo da palavra divina, à luz de Platão e de Aristóteles, revendo neste a perfeição do conhecimento humano, e sugeriu o mundo independente da presença divina. Um terceiro rosto, provindo do século XII, de origens judaicas e ortodoxas, surgiu, de seu nome Maimónides. Valorizando a mundividência aristotélica, não deixou de afirmar veementemente a sua crença em relação à existência de Deus, embora confrontado com essa problemática.

É nesta fase que se contextualiza a presença de São Tomás de Aquino, e do seu tutor Alberto Magno. Tomás, procurando a forma mais perfeita e pura em razão e fé, visualizou-as juntas na Bíblia, com a assessoria do legado aristotélico. Este legado ajudá-lo-ia a afirmar a realidade natural como um todo, que incluía os corpos físicos e os poderes cognitivos dos seres humanos. Este sistema de conhecimento não se prendia, e encontrava-se aberto à sintonização da crença cristã, embora discordasse de Santo Anselmo na perspetiva de ser totalmente verificável em lides racionais. A polémica permaneceu viva, entre os impulsos bíblicos e as premissas filosóficas.

Para melhor entendimento das duas vertentes, Tomás de Aquino tentou compreender melhor os conceitos de criação e de criado. Foi assim que se deslocou a Paris, tentando propor uma teologia aberta ao mundo, díspar do secularismo radical, dos heterodoxos aristotélicos, e dos agostinianos tradicionais. Um dos nomes que desconsideraria essa visão do pensador seria São Boaventura de Bagnoregio, um desses tradicionais agostinianos, que apontava que o teólogo só necessitava de saber parte da criação, a que fosse pertinente para o seu estudo. Embora apontasse para a iluminação do intelecto, não descurava a sua condução para a união com Deus, causador da existência de todos os seres e entes. A descrença que nutriu em relação à razão natural foi causada, assim, pela crescente derivação para o secularismo. Tomás responderia que a fé pressupunha e necessitava desse conhecimento natural do mundo, em especial, da criação, para não cair em erros de cariz incontestável. Contudo, o pensamento de Tomás de Aquino também é iluminado pela teologia negativa, crendo este que os humanos desconhecem aquilo que é a ontologia divina, para além da essência das coisas.

“Não pense [o homem] que é suficiente a leitura sem a unção, a especulação sem a devoção, a busca sem a admiração, a consideração sem a exultação, a obra sem a piedade, a ciência sem a caridade, a inteligência sem a humildade, o estudo sem a graça divina, o espelho sem a sabedoria divinamente inspirada”.

São Boaventura de Bagnoregio

Tomás de Aquino não seria feliz na tentativa de unir razão com fé, fosso que seria adensado após a sua morte, em 1274. Três anos depois, o arcebispo de Paris promulgaria um ato eclesiástico, onde condenava e apontava baterias aos secularistas racionais e avessos à teologia tradicional. No entanto, as consequências foram as opostas às inicialmente desejadas, com grupos organizados a surgirem, entre eles, os princípios do luteranismo e do calvinismo, e com o diálogo entre teologia e filosofia a perder importância. No entanto, e existindo a necessidade de responder às questões emergentes, foi necessária a chegada da experiência personalizada. Juntar fé à razão tornou-se um desafio para o qual as respostas começaram a escassear, com novos conceitos, como os de necessidade e de liberdade, a surgirem na discussão. João Duns Escoto trouxe a ideia de que a razão não poderia perceber a fé, embora a filosofia permanecesse ligada à teologia, mas como serva. Não deixa, ainda assim, de enaltecer a experiência, e de a aplicar à própria filosofia. De registo, fica mais um passo rumo ao secularismo. No século XIV, notabilizou-se o inglês William of Ockham, o progenitor do nominalismo – recusando a existência do universal – que mencionava a liberdade de forma premente, e a obtenção do conhecimento de forma lógica. A experiência era o único modo de se alcançar este, e de desvendar a realidade concreta, pelo que se deu o nascimento de uma nova teologia, a positiva. Fé e conhecimento distanciaram-se definitivamente, e o divórcio de um casamento que alcançou a duração de um milénio tomava lugar e proporções.

Várias circunstâncias conducentes a dominar aquilo que eram os precedentes, tentando institucionalizar ideias, levaram a que a fertilidade do pensamento e da problematização dos filósofos escolásticos estagnasse, e levasse à sua quebra e desarticulação. Foi no mencionado século XV, fase na qual o Renascimento já se solidificava. A influência desta perspetiva filosófica e teológica não deixaria de se assumir, em especial na própria formação nessas áreas até aos dias de hoje. Um pensamento que lutou e que tentou esclarecer a presença da presente razão perante a consciente fé. De Santo Agostinho a São Tomás, passando pelos seus antecedentes e procedentes, surgiu uma milenar herança, de eterna esperança numa fé de confiança e bonança.

Fotografia: “Liber ethicorum des Henricus de Alemannia”, do pintor Laurentius de Voltolina

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