Os mitos e ditos heróicos de Homero

6 NOVEMBRO, 2017 -

Como um dos grandes mitos da literatura clássica, surge Homero. Entre Odisseias e Ilíadas, são viagens em forma de epopeia que são criadas e desenvolvidas pelo autor, que apresentou ao resto do mundo o vasto e numeroso arquipélago grego. Para lá dos filósofos, este espaço helénico excedeu-se pela geografia física e intangível, remetendo para a herança coletiva as célebres viagens de superação, contando com protagonistas que perduram no dia-a-dia da literatura e da cultura. Homero, conhecido somente pelo nome, e não pela personalidade que, putativamente, foi, é compreensível e percetível no que escreveu, no que correspondeu, no que concedeu. Um legado irreversível, que deu o mote para que as epopeias marítimas e bélicas conhecessem o fio condutor da realidade.

São muitas as questões que abundam quanto à identidade do autor (questão homérica, que coloca em dúvida o contexto espácio-temporal onde as suas obras foram redigidas), orbitando em torno de figuras muito diferentes, tanto profissional como geograficamente, embora se acredite que tenha vivido entre o século VIII e o VII a.C. Etimologicamente, Homero deriva do grego e do fenício, podendo indicar tanto penhor, como alinhador de canções. Este estudo foi encetado por académicos bizantinos, que veicularam e comentaram os seus livros, para além de demais modernos pensadores. Todas as datas associadas à vida e obra de Homero são destrinçadas pela tradição local e regional, embora muitas teorias tenham sido configuradas e organizadas em obras literárias especialmente dedicadas a esse estudo.

Alguns dos testemunhos legados reúnem poemas, que estão consagrados na obra “Epigramas”, que celebrizam alguns provérbios naquilo que é a formação cultural dos mais diversos ramos de origem grega. A sua literatura, subsumida nestes fragmentos, revelam vários detalhes locais, relativos a diferentes lugares no território grego, assim como o relato de certas ocupações. Várias lendas correlacionaram a sua eventual identidade com muito do que havia escrito nestes ocasionais poemas, que assentam numa tradição oral que subjaz a toda a obra homérica. Tudo isto foi redescoberto por hipotéticos coevos de Homero, nomeadamente outros autores gregos, mas também por teóricos de regiões constituintes da região mediterrânica, contribuindo para a sua perpetuação na célebre Biblioteca de Alexandria.

Um dos grandes pontos de especulação sobre a identidade homérica derivou dos aprendizados que legou a outros, como Arctino, também poeta, que viveu no século VII a.C.. Parte considerável da sua poesia adveio daquilo que havia sido exultado na “Ilíada” e na “Odisseia”, gerando um caudal, que inclui “A Etiópida” e “O Saque de Troia”, integrando o Ciclo Épico, poemas mitológicos da Grécia. Vários outros trabalhos, como os “Hinos”, dirigidos aos diversos protagonistas da mitologia grega, “Margites”, ou os “Cantos Cípricos”, são colocados em causa, no que toca à sua autoria, estando, de alguma forma, associados a Homero. Tanto pelo estilo de escrita, como pelas temáticas retratadas, foram várias as conjeturas criadas, embora pese o manto que caiu sobre a sua figura, que iria perdurar num misto de mistério e de heroísmo, como um dos consagrados vultos da poesia ocidental.

Do repertório de Homero, e entre muitos que são os indistintos livros cujo cunho homérico é erroneamente nomeado, destacam-se as célebres e perpétuas “Ilíada” e “Odisseia”, que mergulham nas delimitações centrais e orientais do Mediterrâneo. Ambas são hipoteticamente datadas do século VIII antes de Cristo, embora pesem as questões das readaptações feitas, com o decorrer do tempo, por outras figuras. A sua autoria continua em questão, no sentido das próprias duas não terem sido escritas pelo mesmo autor, tendo em conta, conforme estudos realizados já no século XX, sobre as discrepâncias entre estas.

Estas epopeias estão redigidas em forma lírica, na habitual e estudada métrica do hexâmetro dactílico. Associada à poesia epopeica, esta estruturação consiste num arranjo de sílabas de prolongamento vário, ainda despreocupada com as rimas, mas já com algumas noções de organização em versos. A combinação dessas sílabas designa-se por metros, constituindo os grupos silábicos que formulam os versos, os pés. Estes pés são compostos pelas longas e breves, articulando-se com a existência de dois tempos, uns mais altos, e outros mais baixos.

O ritmo tornou-se padronizado em dois sentidos, sendo conotado o lento e solene, assim como o dinâmico e vivaz. É nestes metros que se distinguem o hexâmetro e o também conhecido iambo, mais voltado para as normais conversas. O primeiro enquadra-se, assim, nessa toada pausada e suavizada, dando o efeito desejado à poesia épica homérica. O hexâmetro dactílico (este termo deriva de dedos) é composto por seis pés, encaminhando-se por um tempo marcado por uma sílaba longa, e enfraquecido por uma outra longa, ou duas mais breves. A existência de uma pausa no meio do verso, ou seja, no terceiro pé, permite conferir fôlego ao declamador desta dinâmica epopeica, assumindo-se o pendor deste tipo de obras para a proclamação.

No próprio estilo de escrita, não é incomum verificar o emprego de epítetos, típicos de uma exultação associada à declamação poética. Surgem também cenas de tipo, em que um narrador repete padrões de frases relativos a certas ações e atividades, para ligar e conduzir desenvolvimentos do próprio enredo e das personagens ao longo deste. Outra estrutura muito comum na literatura homérica é o padrão quiástico, onde, de forma repetida, se posicionam duas ideias, presentes no início e no fim da história, e suas variantes, que se expressam e articulam de forma simétrica ou invertida, seguindo uma dinâmica quase anelar. Habituais são também as parataxes, que procura ligar duas frases simples e curtas em cada verso, desdobrando-as ao longo da narrativa.

Voltando para aquilo que é a obra em si, a “Ilíada” decorre na Guerra de Tróia, no cerco efetuado à cidade de Ilium, ou Tróia, que perdurou durante dez anos. Assim, relatam-se as diversas escaramuças e eventos entre o rei Agamemnon e o guerreiro Aquiles. A diversa mitificação criada em torno do conflito bélico é aludida nesta epopeia, incluindo algumas profecias sobre o destino de Aquiles e de Tróia; e bebe muito daquilo que é o trabalho de Hesíodo, igualmente poeta grego. O conflito descrito não deixa de ser, amiúde, questionado pelos historiadores, naquilo que é a sua legitimidade, para além da própria contextualização e presença do próprio Homero nesta deflagração. As questões históricas adensam-se perante aquilo que é a descrição dos próprios intervenientes na narrativa, que portam armas de bronze (a Idade do Bronze antecedeu os acontecimentos relatados) ao invés de outras compostas por ferro; embora sejam, tal e qual como na Idade do Ferro, cremados em vez de enterrados. São várias anacronias que colocam em discussão aquilo que foi a eventual vivência de Homero, em conjugação com o período em que viveu.

Este trabalho não pode ser visto sem se referir a “Odisseia”, uma espécie de sequela, protagonizada por Odisseu, também conhecido por Ulisses, o rei de Ítaca, e o seu regresso após o esmorecimento de Tróia. Após dez anos de cerco, também são dez aqueles que Ulisses demora a retornar ao seu lar, onde habitam a sua esposa Penélope, e o filho Telémaco. A não-linearidade narrativa, para além do papel determinante das mulheres e dos escravos nos eventos decorridos, são peças-chave para se desconstruir a pertinência desta obra em tempos futuros. Importa perceber, também, o impacto homérico naquilo que foi a constituição de um dialeto muito próprio, voltado para a literatura redigida. Influído pelo iónico e pelo aeólico, também estes dialetos helénicos, não deixa de se tratar de uma versão obsoleta do grego jónico, um dos mais célebres destes, e destinado a configurar toda esta poesia heróica. Passou, assim, a ser conhecido como grego épico, tomadas em consciência as circunstâncias do seu uso.

Homero seria uma inspiração perene, e uma referência permanente no contexto do pensamento e da criação cultural do mundo ocidental, estabelecendo a ponte e o suspiro para uma génese de várias exultações. Um baluarte, aos olhos de Platão, daquilo que é a constituição cultural helénica, nos seus primórdios, perante o esquecimento de uma visão ampla e global na atualidade de negócio e de indústria. Não obstante, os pontos de referência estabelecidos e saudados pelo autor elevam-se para lá daquilo que é qualquer questão sobre a sua identidade, onde a verdade é a que prevalece nos mitos e ditos de um construtor de heróis.

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