Os jovens estão deprimidos e ansiosos. Porquê?

28 AGOSTO, 2017 -

Nos Estados Unidos da América, os millennials são a geração com maior número de doentes com depressão. A Organização Mundial da Saúde alertava, em 2016, para o facto de o suicídio ser a segunda principal causa de morte de jovens entre os 15 e os 29 anos. As causas das doenças mentais são sempre indeterminadas, difíceis de enumerar. Cada indivíduo é diferente, mas muitos deles é na internet que lançam os pedidos de ajuda. O que levará os jovens a sofrerem desta forma? A instabilidade pode ser uma das respostas.

Se quando temos dores de dentes vamos ao dentista, ir ao psicológico é como quando tens dores de dentes, mas no coração”. Foi assim que o pai de Lisa (nome fictício) a convenceu a aceitar a ajuda de um psicólogo quando ainda era uma adolescente de 16 anos. Hoje, com 23 anos, três anos depois de ter ido a um psiquiatra onde foi diagnosticada com depressão e psicose, Lisa já não imagina como será a sua vida sem a medicação. “Era claro: se não tomasse medicação, podia ir pelo cano abaixo. Sem retorno”, conta ao i.

Um dia, Lisa sentou-se com o pai a olhar para o mar. “Voltámos a falar na dor de dentes. A ele, também lhe doíam. Mas quanto a ele, não haveria nada a fazer. Apenas isto: se eu ficasse melhor, tudo ficaria também. Então começou. Antidepressivos, ansiolíticos, antipsicóticos ou estabilizadores de humor, combinados, alternados, ou à experiência. Tenho medo de não saber quem sou passados estes anos, se quando estou bem o devo à medicação, se quando estou mal se deve à falta dela. Tenho medo que isto tenha que ser para sempre. Perdi memória, perdi peso, às vezes pareço uma aluada, vejo e ouço pior.  Mas ganhei coisas. E uma delas é esta: o fosso nunca mais é o mesmo depois de o conhecermos de frente e não tivermos medo de o pisar.

Estatísticas

Lisa não está sozinha. Os millennials são a geração com maior número de pessoas diagnosticadas com depressão que qualquer outra geração passada. Segundo um estudo da BDA- Morneau Shepbell, um em cada cinco millennials sofria de depressão nos Estados Unidos em 2015 (correspondente a 20% da população millennial). Segundo o psicólogo clínico e um dos autores do Plano Nacional de Prevenção do Suicídio, em Portugal não existem muitos estudos que permitam analisar a incidência de doenças como a depressão ou distúrbios de ansiedade entre gerações. No entanto, José Henrique dos Santos lembra que o Estudo Epidemiológico Nacional de Saúde Mental foi o primeiro trabalho a avaliar a epidemiologia das perturbações psiquiátricas numa amostra representativa da população adulta de Portugal. Os resultados do estudo, conhecido em 2010, mostram que a prevalência das perturbações psiquiátricas em Portugal é muito elevada. “Mais de um em cada cinco dos indivíduos apresentou uma perturbação psiquiátrica nos 12 meses anteriores à entrevista”.

Segundo análises do estudo em causa, esta prevalência é “a segunda mais alta a nível europeu, com um valor quase igual à da Irlanda do Norte, que ocupa o primeiro lugar”. Neste aspeto, Portugal distingue-se significativamente de todos os outros países do sul da Europa, que, sem exceção, apresentam prevalências muito mais baixas que os países do norte.

De acordo com o mesmo levantamento, as perturbações de ansiedade são o grupo que apresenta uma prevalência mais elevada no país (16.5%) e que mais contribui para que, em conjunto com a Irlanda do Norte, Portugal se distinga dos outros países da Europa. Seguem-se as perturbações depressivas, as perturbações de controlo de impulsos e por abuso de substâncias, todas elas com valores mais próximos dos encontrados nos outros países europeus.

Marina Pereira, psicóloga clínica com mais de 20 anos de experiência na área juvenil e académica, explica que “é sempre um risco traçar o perfil dum grupo,  ainda por cima tão vasto quanto o de uma geração”. Mas há algumas análises possíveis. “Os jovens portugueses são pouco diferentes dos demais ocidentais, variam só no grau: mais conservadores, menos confiantes, mais conformados, mais oportunistas, menos empenhados, mais atentos aos direitos que às obrigações, são muito solidários.

Na leitura da psicóloga, “os millennials portugueses adoram conviver, partilhar e valoriza a componente social, presencial e virtual, sendo um sinal de sucesso a popularidade do indivíduo no seu meio de companheiros ou de seguidores. Conheço-lhe poucas rotinas individuais, introspetivas, solitárias. Todavia, grupo não é um compromisso em par. Esse são outros tantos… E aí sim, são cada vez mais descomprometidos.” Marina Pereira defende que por isto, mas também por medo, os jovens da geração dos millennials, também chamada geração y, são pouco audazes. “Afinal, eles são (e dizem-no repetidamente, para justificar a continuada dependência de progenitores e/ou subsídios) os que não pediram para nascer”.

Segundo a especialista nesta camada jovem que procura ajuda clínica, aos millennials frusta-os, sobretudo, não terem correspondido às expectativas dos pais e às convenções sociais mais opressoras. “Na realidade, muitos continuam a acreditar que, um dia, a vida vai mudar, caso acertem na chave do euromilhões”.

Para José Henrique dos Santos, este é um assunto demasiado complexo e a resposta ao que os torna vulneráveis não é clara. “São demasiados fatores a fazer com que cada vez mais, as gerações mais novas sofram de doenças mentais, mas o amor é tudo, os pais são a base da estabilidade psíquica dos mais jovens. Há muitos estudos por fazer, isto é a minha experiência de campo a falar.

Teresa, 57 anos, mãe de um jovem com Síndrome de Ansiedade Generalizada conta ao i que “sendo uma mãe privilegiada, porque tive oportunidade de acompanhar muito os meus filhos, fui-me revendo no meu percurso até adulta. A vida dos jovens de hoje deve, como nunca, ser acompanhada pelos pais, dando espaço e liberdade mas muito vista de perto. Quando um filho sofre de ansiedade temos que prontamente indicar ajuda de especialistas, uma vez que nós pais, não podemos negar o reconhecimento da ansiedade como doença.” Teresa considera que, mesmo tendo capacidade para identificar algumas das causas da ansiedade do filho os pais têm de “se disponibilizar a ajudar com muita atenção, paciência e carinho de imediato e entendermos que mesmo assim temos que recorrer a profissionais de saúde, porque todos temos noção que a autoestima vai precisar de tempo para recuperar”.

Em 2000, o psicólogo Jeffrey Arnett cunhou o termo “idade adulta emergente” para descrever a adolescência prolongada que atrasa a idade adulta. No Washington Post explicava-se em 2014 que as pessoas na casa  dos 20 anos já não se veem como adultos. Existem várias razões plausíveis para isso, incluindo períodos de vida mais longos (esperança de média de vida aumentou, houve uma sobreproteção dos pais e há menos empregos altamente remunerados que permitem que os novos graduados da faculdade sejam financeiramente independentes numa idade jovem, criando uma dependência prolongada entre filhos e pais.

Os millennials têm de enfrentar alguns problemas que as gerações anteriores não tiveram. Um diploma universitário é agora o equivalente a carreira cujo um grau de ensino médio costumava proporcionar: “isto aumenta a pressão sobre as crianças que sentem que têm de ir para a faculdade e torna o processo ainda mais competitivo e a economia lenta já não produz uma riqueza de empregos após a graduação” lê-se.

Noticiava-se no “Wall Street Journal” que os millennials chegam a levar os pais às entrevistas de emprego como suporte e que há empresas como a “Google” e a “Linkedin” que permitem que os funcionários desta geração levem os pais para o trabalho durante dois dias.

Um estudo de 2013 do “Journal of Child and Family Studies” referia que os estudantes universitários que haviam sido sobreprotegidos pelos pais sofriam maiores níveis de depressão e tomavam mais antidepressivos que os restantes estudantes.

Em 2004 um estudo dos profissionais do Departamento de Psiquiatria do Hospital de Setúbal que trabalhavam em articulação com o Centro de Saúde da Palmela, constataram que havia um aumento do número de adolescentes (na altura, millennials) com quadro clínico de depressão, informação essa que vinha na linha da Organização Mundial de Saúde que prevê que em 2020 a depressão será das doenças com maior prevalência na população geral.

Eles pedem ajuda na internet

Humor em Memes

Os “memes” surgiram com a internet e espalharam-se rapidamente pelas redes sociais. O meme é um conceito de  conteúdo multimédia que, através do humor, é partilhado nas redes, fazendo com que os utilizadores se sintam ou não relacionados com determinado assunto. O termo vem de Richard Dawkins, que no seu livro, de 1976, “The Selfish Gene” se refere a uma ampla teoria de informações culturais.

Para muitos a saúde mental é um tabu. Pode não ser fácil falar sobre o quão vulnerável alguém consegue ser num mundo cada vez mais competitivo, mas a internet ajuda os millennials a sentirem-se menos sós. Todos os dias milhares de jovens partilham publicações sobre suicídio, depressão e ansiedade nas redes sociais, mas será que os mais velhos estão atentos aos pedidos de ajuda desta geração instável?

Dizer verdades a rir

Como as redes são muito impessoais, há uma desconexão que facilita a sinceridade e honestidade, explica a revista i-D num artigo sobre o quão benéfico os memes se tornaram na discussão de saúde mental. “Os memes, ao serem anónimos, fornecem um ponto de conexão entre desconhecidos no mundo online”. A essa mesma publicação, Maddie Knight, gestora de uma página semelhante no Instagram com mais de 18 mil seguidores, defende que “o humor é uma forma universal de nos conectarmos com os outros, e eu também acho que às vezes pode aliviar a apreensão em torno de temas que são difíceis de explorar”.

A internet Facilita a vida

A consultora Nielson lançou, em 2014, um estudo em que 54% dos millennials inquiridos consideravam que as novas tecnologias facilitam as suas ligações a amigos e família, sendo que mais de 74% considerou que as novas tecnologias tornam-lhes a vida mais fácil. O acesso à tecnologia e aos dispositivos móveis alimentam a capacidade de os millennials permanecerem socialmente ativos 24 horas por dia, sete dias por semana.

Páginas nas redes, lugares de partilha 

Páginas alusivas a conteúdos sobre depressão, ansiedade e outros distúrbios mentais atraem milhares de jovens utilizadores das rede de todo mundo. É o caso da página “Depression Memes 2.0”, que tem o “gosto” de 20.865 pessoas e é seguida por 21.033. É também o caso da “Yes, I’m sad” (Sim, estou triste), com 956.728 gostos. Existem ainda outros cantos tristes muito famosos nas redes, como a “Sad Page” ( página triste), que conta com 136.502 gostos e que é seguida por 135.980 utilizadores.

Suicide Memes, milhares de seguidores gostam disto

O nome diz tudo: são páginas que partilham conteúdos que “brincam” com um assunto muito sério. São milhares os utilizadores que gostam de páginas como a “Suicide Memes” (14.993 seguidores) e milhares os que gostam e partilham os seus conteúdos. A página “I’m pretty when I cry” (sou bonito/a quando choro) tem 1.113.312 seguidores e as publicações chegam a ultrapassar os 4000 gostos.

Meme como terapia

Em vez de irem a grupos de ajuda, ou partilharem muitos dos seus problemas num café a um grupo de amigos, os millennials usam os “memes” como forma de partilhar ideias, pedidos de ajuda, piadas, ou até como forma de mandar “bocas” a conhecidos. Julia Nathansonm, de 17 anos, já pertencente à Geração Z e criadora de vários memes na internet, explicou à revista i-D que este tipo de criação era a sua forma de substituir um terapeuta.

O que é a Depressão e o Transtorno de Ansiedade Generalizada?

Segundo a Organização Mundia de Saúde (OMS) “a depressão é um transtorno mental frequente“. Globalmente, estima-se que “350 milhões de pessoas de todas as idades sofrem com esse transtorno“.

A depressão é “a principal causa de incapacidade em todo o mundo e contribui de forma muito importante para a carga global de doenças. Mais mulheres são afetadas pela depressão que homens. Existem vários tratamentos eficazes para a doença“. A condição é diferente das flutuações usuais de humor e das respostas emocionais de curta duração aos desafios da vida quotidiana. A OMS diz ainda que “especialmente quando de longa duração e com intensidade moderada ou grave, a depressão pode se tornar uma séria condição de saúde. Pode causar à pessoa afetada um grande sofrimento e disfunção no trabalho, na escola ou no meio familiar. Na pior das hipóteses, a depressão pode levar ao suicídio. Cerca de 800 mil pessoas morrem por suicídio a cada ano — sendo a segunda principal causa de morte entre pessoas com idade entre 15 e 29 anos.”

Existem vários transtornos de ansiedade, o de ansiedade generalizada caracteriza-se por um estado de ansiedade excessiva persistente que não depende do contexto e é desproporcional aos fatos que ocorrem na maior parte dos dias por um período de pelo menos 6 meses. Pode levar à depressão e a outro tipo de doenças mentais.

Artigo escrito por Ana B. Carvalho, publicado no nosso parceiro jornal i

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