Os instantâneos

2 FEVEREIRO, 2017 -

É um facto indiscutível que os Millennials – geração na qual orgulhosamente me incluo – é a mais escrutinada e debatida da história da Humanidade. Tal sucede por habitarmos uma era digital, de fluxos de informação intermináveis, onde as nossas decisões, hábitos, preferências e demais dados são instantaneamente colectados, organizados e transformados em estatísticas. E isso, em última análise, não aumentando as probabilidades de passos em falso, torna os falhanços por nós perpetuados bastante mais visíveis.

Ora, Simon Sinek é um daqueles gurus comportamentais que criam e produzem discursos motivacionais, fazendo disso modo de vida. Não me cabendo a mim atribuir-lhe ou retirar-lhe mérito, tem ideias muito bem organizadas, um discurso fluído e, espantem-se, uma quantidade absurda de considerações bastante válidas.

De volta à vaca fria: estourou há tempos um vídeo tornado viral, em que assistimos ao mesmo Sinek a dissertar sobre os Millennials. Em suma, e entre outras considerações belíssimas, vemo-lo dividir a razão para a insatisfação crónica da presente geração em 4 grandes grupos: relação com pais, com tecnologia, com o ambiente circundante e impaciência. Em larga medida, até assistimos a uma defesa e quase desresponsabilização da geração nascida em finais de 80/inícios de 90.

No fim do clipe senti-me incomodado. Atingido; quase despido.

Sou um tipo muito céptico, sendo que a isso acresce o facto de – só por vezes – também pautar por pessimista. E um céptico pessimista é o pior tipo de escumalha a ter numa festa, já diziam. Ainda assim, e o que é facto, é que o que nos circunda não augura nada de bom. Só o instantâneo nos atrai.

Vamos esquecer a política, esse bicho. Não enveredemos por Trump, nem Brexit, nem fenómenos de popularidade extremistas por toda a Europa, nem demais considerações: aí a discussão morre logo na praia e como na gíria se diz: “são todos iguais (…) uns corruptos”.
Este triste desconhecimento político espelha uma desanimadora apatia generalizada. e uma ignorância sem precedentes. Porém, e mesmo pouco ou nada sabendo, gosto que me julguem sabedor, acrescentando sempre o soundbyte pessoal ao ruído generalizado, por si só já ensurdecedor.

Aquando da morte de Soares o fenómeno foi evidente: somos exímios a reproduzir ideias dos nossos pais ou convenções feitas nos média. Duvido que 30% da minha geração lhe soubesse mais que o nome. Pensar por nós é mais duro, o sistema de ensino privou-nos desse luxo. Mas a reproduzir somos bons, exímios.
Vamos esquecer as redes sociais. Os rituais para agregação de manadas de seguidores, aglomeração de likes e afins, o espaço dado a conteúdos que em nada nos acrescentam valor. Finjamos que tudo isso é fruto de uma geração que cresceu com a tecnologia, embrenhada nela e por ela emprenhada. Esqueçamos que as notificações não são a primeira coisa que vamos verificar de manhã, antes dos olhos se terem habituado à luminosidade.

Vamos esquecer os hábitos: de consumo, televisivos, sociais. Façamos de conta que o importante não é ter o último iPhone, que o primetime dos canais abertos não é medíocre (porque o consumimos) e que não é apanágio refastelarmo-nos em grandes esplanadas, fumando cigarros em grupos grandes, charros em grandes grupos, falando de quase tudo e fazendo pouco ou nada. Somos péssimos finalizadores, falta concretização; foi-nos dito (e aí não podia estar mais em sintonia com Simon Sinek) que lá chegaríamos, que haveria um lugar para nós: douraram a pílula sem lembrar que, talvez, quem a ia tomar não a quereria dourada.
Simulemos – por fim – que nos deitamos felizes, satisfeitos, realizados. Simulemos que o silêncio não nos causa claustrofobia, os olhares reais desconforto e os sentimentos azia.

Não é que tenhamos falhado em toda a linha, embora me custe a admitir que geração que somos não merece o que tem.
Em toda e qualquer chance, abstraímo-nos e alheamo-nos da realidade; talvez já não saibamos comportar-nos nela. Ou não queiramos.
No final de contas, é tudo uma questão de apatia.
Este ócio que nos consome, até que a próxima satisfação instantânea nos mantenha entretidos.

Texto de Samuel Pinho

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