Os ídolos dos nossos dias

24 MAIO, 2017 -

Somos movidos por lendas e ídolos que, de certo modo, ainda estão por ser explorados e investigados. As certezas não são muitas mas são proporcionais às hesitações que nos levam para esses caminhos de plena descoberta, de plena e intensa descodificação daquilo que parece normal. A normalidade do anormal acaba por ser um aspeto interessante daquilo que é a realidade comum e usual. Passa despercebida toda a anormalidade do mundo. Talvez nós também partilhemos um pouco dessa anormalidade.

Grande parte dos ídolos dos nossos dias envolvem-se no folclore de cada cultura. Esse rasgo identitativo de cada um vai desenhando as ambições de cada um. As dúvidas, as interrogações e as incógnitas permanecem incólumes nesta constante e perseverante jornada. É uma permanente procurar aquilo que se conta mas que não se define de forma clara e inequívoca. São lendas que inspiram mas que não dão o traço realista que assegura o sucesso de cada empreitada. Para isso, importa ir à procura daquilo que sustente aquilo que somos e aquilo em que nos deixamos formular e construir.

Os ídolos dos nossos dias, porém, não são os mesmas que os da Antiguidade e nem sempre se remetem para os êxitos e fracassos dos Deuses e dos seus parentes. De igual modo, também não se firmam nas criaturas mitológicas e perniciosas que a Idade Média inspirava. Também pouca é a herança deixada pelos povos indígenas sul-americanos, mesmo que nos tenhamos deixado suscetibilizar pelo (fim do) calendário maia. Agora, a tradição acaba por ganhar esse cunho mitológico, em que as práticas e os costumes veem-se menos partilhados de geração para geração e menos vincados no dia-a-dia de cada um. São menos os indicativos que prevalecem nesse exprimir cultural, um exprimir que carateriza e que afirma cada um pela sua genética e pela sua herança. São esses mesmos indicativos que começam a identificar a queda do interesse pelas vidas passadas e pelos mitos que arrastam a fantasia para lugares vertiginosos mas curiosos. As tais lendas são referenciadas como um passado longínquo mas que já lá vai. As inspirações de tradições que se perdem e que se limitam aos arquivos municipais e aos manuais de História. A sensibilização para a importância do passado no lançamento do presente e do futuro cai, por vezes, por águas que tanto viram derramar. As águas que conheceram lágrimas de felicidade e de tristeza pelo cumprimento e pelo desvendamento dessas referências, mesmo que das mais sobrenaturais e transcendentais.

Afinal de contas, tudo isso é parte do legado que cada cultura oferece a cada um. Um legado que se vem perdendo na massificação da globalização. A globalização, esse bicho de sete cabeças que tanto e tão bem podia – e pode – dar ao mundo, de um ponto de vista de pluralidade e de pluridimensionalidade. A diferença, a distinção, aquilo que foge aos padrões normais e que ascende ao posto de mito e de lenda incentiva um investimento de curiosidade e de interesse pelo passado e pelo histórico individual e coletivo de cada um.

Muitos deles não são mais do que as tradições, os costumes e os valores que as culturas trazem no seu regaço, mesmo que esquecidas. Esses mitos são capazes de revitalizar aquilo que define cada um como cada qual, mesmo num plano de comunidade e de sociedade. Esta complementaridade torna-se apelativa num mundo cada vez mais global e conectado. A História tem tudo para se apresentar e ser logo tratada na segunda pessoa, por tudo e por todos. Somos diferentes mas iguais naquilo ao que a riqueza do passado respeita. A partilha é cada vez mais interessante e cativante e a modelação de novas referências, as contemporâneas e as referências para o futuro, começa já hoje.

As lendas e as histórias que remetem à fantasia não se inibem de passear pelos rumos da História, da literatura, do cinema e da pura e barata especulação. Há de tudo mas também há aquilo pelo qual vale a pena explorar e pensar com crítica e razão. Quiçá alguns dos mitos sejam, de facto, reais e jamais esquecidos. Valham-nos os livros, os filmes, os documentários, as obras e todas essas formas de eternizar aquilo que herdamos no seio da nossa cultura e do nosso mundo. Assiste-se ao engrandecimento humano quando as referências são novamente estudadas e refletidas, aplicadas no presente – mesmo que em paralelismos mais ou menos sérios – e bafejadas nos ventos futuros. Todo o tempo e todo o espaço tem um sem número de narrativas a contar, mais ou menos fictícias, mais ou menos intrigantes. O mundo tornou-se mais empolgante do que no início e continua nesta marcha ascendente. Cada vez mais resplandecente, são os ídolos dos nossos dias, do nosso presente, neste mito consciente e inconsciente.

Fotografia de artigo: Thom yorke por Richard Burbridge, Dazed & Confused, Fevereiro de 2013
Edição da fotografia: Comunidade Cultura e Arte

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