Os grandes homens também podem ser injustos

28 JULHO, 2017 -

Tenho um fraquinho pelos escritores russos e este ano levei na bagagem para as férias aquela que é considerada a obra-prima de Ivan Turguéniev (1818-1883). Pais e Filhos relata de forma comovente o regresso de um filho à casa do pai, um proprietário rural viúvo, após três anos de ausência a estudar na universidade.

O bondoso velho fica radiante com a chegada do rapaz, mas a visita não corre exatamente como ele esperava. Em parte, porque o filho está mudado; em parte, porque o jovem leva consigo um amigo (ou mentor), que começa rapidamente a tornar-se irritante. Comporta-se como se estivesse em sua casa, mostra-se abusador e arrogante. Pior ainda: parece exercer uma má influência sobre o regressado, demasiado influenciável.

Este amigo, Bazárov, estuda para ser médico e olha para tudo com um ceticismo desconcertante. Mostrando desprezo pelas regras da boa educação e pelas tradições – tão acarinhadas na Rússia rural -, acaba por entrar em conflito aberto com o tio do seu amigo, um aristocrata conservador e refinado. As duas gerações parecem inconciliáveis.

Mas, como em qualquer bom romance, as coisas não são assim tão lineares. E, sob essa capa de insensibilidade e insolência, Bazárov – que começa como uma figura marginal e aos poucos vai conquistando o protagonismo – revela-se um ser humano muito decente na hora da verdade.

Turguéniev foi um intelectual cosmopolita. Oriundo de uma família abastada, viajou muito logo desde a infância (aos quatro anos, no jardim zoológico de Berna, na Suíça, por pouco não caiu no fosso dos ursos); estudou na Alemanha; traduziu obras de autores como Shakespeare e Flaubert para o russo, mas também ajudou a transpor os grandes autores russos para as línguas europeias.

Dostoiévski contestava esta postura pró-ocidental de Turgueniév, que lhe parecia artificial e até prejudicial às letras russas. E, no romance Os Demónios, caricaturou-o como um literato liberal, estrangeirado e pedante. Mas este retrato pouco favorável feito por um dos gigantes da literatura russa não deve levar-nos a menosprezar Turgueniév. Às vezes, a rivalidade leva até os grandes homens a cometer injustiças.

p.s. A edição portuguesa da Relógio d’Água contém um posfácio de Vladimir Nabokov retirado do seu livro Lectures on Russian Literature. Constatei com surpresa que se trata de um resumo de Pais e Filhos, e não de uma análise. Para quem acabou de ler a obra é redundante e aborrecido fazer a recapitulação da matéria dada.

Crónica escrita por José Cabrita Saraiva, publicada no nosso parceiro jornal i

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