Os dez melhores filmes do japonês Hirokazu Koreeda

28 JUNHO, 2016 -

Hirokazu Koreeda nasceu a 6 de Junho de 1962, no milagre económico japonês e no seu retorno como uma super-potência mundial, em termos industriais. O Cinema japonês começou a sua mudança para algo mais ‘new-wave’ com novos actores e realizadores. Apesar de ter começado como um documentarista, trabalhando em revistas, nos anos 90, lançou quatro filmes que marcaram a sua carreira, solidificando o seu estatuto como um dos realizadores mais marcantes de todos os tempos. Mostra-se como um dos realizadores mais polivalentes, apesar da sua inclinação para filmes com um argumento muito sensível e emocional, onde o drama domina toda a empreitada. No entanto, é criticado como um dos realizadores ‘mais lentos’, por parte de uma parte do público que não aprecia a velocidade dos seus filmes. Koreeda inspira-se nos clássicos como Ozu e Ichikawa, mas nunca deixa de penetrar nos seus filmes a sua própria marca, analisando e dissecando a contemporaneidade com a sociedade japonesa como principal objecto de estudo.

10 – Air Doll (2009)

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Lida com a solidão da vida urbana, principalmente demarcada pela ansiedade e pelo stress, conduzindo essa ideia através de uma boneca que ganha vida e mente humana. Foi um filme muito criticado, apesar de ter tido uma recepção positiva, o filme tem características típicas à la Koreeda, tal como a descrição da vida humana e um forte contexto emocional. No entanto, recebeu algumas críticas negativas, já que não abrange toda a sociedade japonesa, pois presta mais atenção aos problemas da mulher na sociedade japonesa, ganhando uma particular atenção desta parte do público. Pessoalmente, o facto de transpor os problemas da solidão através de uma boneca que ganha vida humana, torna-se por demais fantasioso para o meu agrado e daí esta última posição para o filme. Torna-se muito irreal e falta-lhe alguma substância que possa ser transposta para a realidade, apesar de admitir que contém as qualidades que um filme de Koreeda normalmente tem, nunca abandonando os aspectos mais emocionais da existência humana.

9 – Hana (2006)

“Hana” é o primeiro grande filme de comédia do realizador japonês, contrariando o típico cenário mais emocional e difícil de visualizar que os seus filmes acarretam. Apresenta alguns pormenores de drama e de emoção que são sempre atenuados pelo humor e bons momentos do género. Foi um filme que me surpreendeu imenso, já que não hábito este tipo de filmes fazer parte da filmografia que Koreeda. Classificá-lo-ia como uma comédia-dramática devido às mudanças de género que o filme vai sofrendo. É uma demonstração da polivalência do realizador que nunca esqueceu as suas raízes e que seguiu o seu caminho mais virado para o drama. A acção ocorre no século XVIII. O filme relata a história de Aoki Sozaemon que foi enviado pelo seu clã, de Matsumoto até Edo, para vingar a morte do seu pai. Após uma longa procura, ele encontra o culpado pela morte do pai, e tem agora que decidir se o deve ou não executar. Com o tempo, Aoki aprende a valorizar a vida e tudo o que ela tem para oferecer, principalmente com os seus vizinhos, mas também com Osae e o seu filho. Todos vivem num bairro degradado, com poucos serviços sanitários básicos. Os seus ‘companheiros’ e Osae ajudá-lo-ão a decidir sobre a sua horrível tarefa. A principal marca cómica deste filme reside nos vizinhos e numa outra história paralela, de um grupo de samurai que está muito hesitante em atacar a sua ‘vítima’.

O filme surge após o lançamento do seu icónico filme, “Nobody Knows”, lançado em 2004, e antes de “Still Walking”, lançado em 2008. Ambos apresentam uma carga emocional muito mais exigente do que o filme de 2006, o que demonstra a polivalência do realizador.

8 – Maborosi (1995)

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Foi um dos primeiros grandes lançamentos de Hirokazu Koreeda, que até 1995 tinha lançado duas longas-metragens e feito uma carreira como documentarista. “Maborosi” apresenta um punhado de tragédia, contrastando com um início esperançoso de uma personagem cheia de alegria e com altas expectativas para a vida. Lida com a perda e solidão, sobre estar sozinho enquanto não se está sozinho. Lida com um passado nunca deixado para trás. É uma jornada melancólica de uma mulher que perdeu o seu primeiro marido, após ter cometido suicídio sem nenhuma razão aparente. A face feliz de uma jovem mulher rapidamente se tornou numa cara triste e sem vida, tornando-a depressiva e sem substância. Mais tarde, ela volta a casar e muda de cidade, mas o passado nunca a abandona. A nova vida é um novo começo para alguém que nunca, na verdade, entendeu o que lhe aconteceu. O filme pode ser visto como um pedido de socorro para aqueles que têm dificuldade em expressar-se, nunca permitindo a entrada de outros nos seus mundos. A cena final é ou pode ser vista como um mar de oportunidades para uma nova vida que a personagem terá que aprender a aceitar.

7 – Distance (2001)

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Apesar da posição em que coloquei este filme, confesso alguma desilusão com a forma como o realizador abordou o tema. O filme é baseado em factos verídicos e debruça-se sobre um problema que causou um enorme impacto na sociedade japonesa, nos anos 80. O filme até os 40 minutos de duração é relativamente desapontante e desinteressante, tendo em consideração o principal tema do filme. O filme lida com o tema dos cultos, um em particular que dominou e aterrorizou a sociedade japonesa nos anos 80. Correndo de me contradizer, o filme torna-se, verdadeiramente, interessante aquando do aparecimento de um dos antigos membros do culto que vitimizou os familiares das personagens principais deste filme.

“Distance” tenta criar um panorama de estudo perante as consequências de um acontecimento trágico, que modificou as vidas dos membros de um culto que, três anos antes, tinham contaminado o fornecimento de água da cidade e que consequentemente se suicidaram, no quartel-general do culto. Os familiares dos membros do culto celebram, todos os anos, o aniversário da morte do respectivo familiar. Tal evento tem fortes potencialidades para se estender numa longa jornada de emoção e sentimentalismo que Koreeda acaba por não explorar e dissecar, da mesma forma como o faz nos seus outros filmes. A acção é fortalecida com uma série de flashbacks que justificam a entrada dos familiares no culto e a respectiva execução do plano.

6 – I Wish (2011)

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É um filme ‘fofo’ e bonito por parte de Koreeda, usando crianças para transpor o seu objectivo mais fantasioso e até infantil. Koreeda sempre gostou de utilizar crianças nos papéis principais, colocando um maior grau de emoção nos seus filmes. A família joga aqui o papel mais importante e mais vital na vida de dois irmãos que vivem separados um do outro.

Os irmãos desejam estar juntos, sonhando e esperançando a sua reunião. Ambos ouvem um rumor de que um novo tipo de comboios a viajar à velocidade máxima podem garantir um desejo, se passarem um pelo outro ao mesmo tempo, se os ‘desejadores’ estiverem num determinado lugar. Apesar de difícil a transposição para a realidade deste acontecimento, Koreeda tenta levar o espectador para outro ‘universo’ de aceitação emocional, juntando dois irmãos, fantasia e ficção, criando uma nova aventura de sonhos, desejos e esperança. É querido e delicado, apesar de igualmente duro e difícil, tendo em consideração os sentimentos dos dois irmãos, sem nunca permitir que a fantasia se torne demasiado irreal.

5 – Our Little Sister (2015)

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Koreeda traz a receita Ozu de volta, pegando em pequenos pedaços do mestre do drama e realismo, com os seus próprios elementos de contemporaneidade e vida moderna, para criar um dos melhores filmes de 2015. Conta a história de três irmãs que vivem juntas. As três irmãs têm os seus vinte anos de idade, e são ‘obrigadas’ a conviver com uma adolescente com 14 anos de idade, a sua meia-irmã, após a morte do Pai das quatro. Em “Our Little Sister”, Koreeda disseca os traumas internos de uma infância perturbada, colocando um quarto elemento numa equação de estabilidade e preservação, construindo as condições perfeitas para um possível conflito. Este filme tem um pouco de Kon Ichikawa também. O modelo de dissecação das personagens assemelha-se um tanto ao de Ichikawa, nunca ultrapassado o risco vermelho da dignidade, estudando as personagens até certo para provar um determinado ponto. Apesar de não ser tão profundo quanto “Nobody Knows” ou “Like Father, Like Son”, “Our Little Sister” consegue ser um dos grandes filmes de Koreeda que demonstra mais uma vez o porquê de ser um dos melhores realizadores, desde 1990.

4 – After Life (1998)

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É um dos filmes mais contraditórios de Koreeda. Na verdade, é um dos filmes fantasiosos, juntamente com o lançamento de 2009, “Air Doll”. É contraditório pois por um lado apresenta uma grande vertente de fantasia, apresentando um nível intermediário antes da entrada para o Paraíso para os recentemente mortos, e por outro lado é um filme muito maduro no que respeita a emoções e à sua exteriorização. Novamente, o realizador disseca as personagens, inovando a forma como realiza, utilizando pessoas que nem sequer são actores para os papéis dos mortos que relatam as suas vidas e as suas experiências a uma espécie de ‘funcionários públicos da morte’ que os preparam para a sua última viagem e recordação. Grande parte das conversas foram improvisadas e são totalmente realistas. O edifício escolhido para nível-médio, antes da ida para o Paraíso, assemelha-se mais a um edifício governamental, atribuindo para uma camada de realismo ao filme. Os ‘novos mortos’ têm de escolher a sua memória favorita para poder viver nela o resto da sua eternidade. A cada Segunda-feira, surgem mais mortos, iniciando o processo novamente. Todos os mortos têm um prazo para escolher as suas memórias, de forma a poderem ser recriadas e vistas antes da entrada para o ‘último nível’.

3 – Still Walking (2008)

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“Still Walking” bem que podia ser um filme de Ozu, se não tivesse sido lançado no ano em que foi lançado. Koreeda aborda, à la Ozu, o tema da morte de um filho, que tentou salvar uma outra vida, 15 anos antes, de uma forma extremamente sensível e subtil sem nunca ignorar a crueldade dos factos. É o melhor exemplo do legado que Ozu deixou aos realizadores contemporâneos. É um potpourri de emoções e sentimentos, tanto tristes como felizes, com um argumento muito envolvente e intimista e um desempenho dos actores bastante digno de nota. Mistura a genialidade de “Tokyo Story” e a inocência de “Late Spring”, ambos de Ozu, sem deixar o seu próprio estilo para trás. Koreeda é o melhor seguidor de Ozu, mantendo uma interpretação fixa da vida, mas sempre aberto a novas ideias. É um dos mais difíceis lançamentos do realizador, devido às fortes características emocionais que apresenta, que não deixam ninguém indiferente.

2 – Like Father, Like Son (Hirokazu Koreeda, 2013)

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É um filme emocionalmente ambíguo, já que mistura emoções positivas e negativas. É um filme que pode ser considerado como um dos mais bem ‘polidos’ do realizador japonês, devido ao grande alcance emocional que o filme pode atingir e pela realidade e impacto que pode ter no espectador. O final é de partir o coração e é um final que o espectador quer ver, no entanto ao longo do filme verificam-se alguns sentimentos dúbios por parte de um Pai que tem dúvidas em relação ao amor que tem pelo filho. É a confirmação de Koreeda como um dos melhores realizadores dramáticos de todos os tempos.

Conta a história de Ryota Nonomiya, um homem de negócios que vive para o trabalho. Ele é casado, e ambos descobrem que o filho deles não é, afinal, o seu filho biológico. O filho biológico de ambos foi trocado à nascença pelo de outra família. Ambos terão que enfrentar esta situação, ‘trocando de filhos’ com a outra família. A intenção de Koreeda é chocar a audiência misturando a tragédia de tal acontecimento com um final, verdadeiramente, merecido e aceitável.

1 – Nobody Knows (2004)

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Todos os realizadores têm a sua própria obra-prima e Koreeda tem em “Nobody Knows” a sua própria obra-prima. O facto de ser baseado numa história verídica de quatro crianças que foram abandonadas pela própria Mãe num apartamento, coloca este lançamento como um dos melhores dos últimos 20 anos, em termos de qualidade cinematográfica. O evento real chama-se “O caso das quatro crianças abandonadas de Sugamo”, ocorrido em 1998. Mais do que uma dramatização do evento, é também uma crítica à pobreza existente numa das maiores potências mundiais, em termos económicos e industriais. O filme ganhou diversos filmes, tendo sido um dos mais premiados do ano, à data de lançamento.

As quatro crianças aprendem a viver num pequeno apartamento, após terem sido abandonadas pela própria Mãe. A Mãe, e raiz dos problemas, é instável e bêbeda, explorada pelos homens que só procuram por sexo e nunca querem assumir responsabilidade por nada do que fazem. Os quatro meios-irmãos não têm o mesmo Pai e alguns nem sequer sabem quem é o seu próprio Pai. A personagem principal, Akira, tem apenas doze anos e aprende a tornar-se no ‘patriarca’ e responsável pelo bem-estar dos irmãos.

É um filme perturbante, surpreendeu-me pela frontalidade e realismo de um acontecimento tão assustador. Por outro lado, contém uma certa infantilidade mágica e inocência. A performance das crianças é fenomenal e uma das melhores que alguma vez vi. “Nobody Knows” exterioriza o melhor de cada um, livrando o caminho da ignorância perante o problema em questão. É mágico, emocionante, surpreendente, doce, mas também triste, perturbante e por vezes difícil de ver.

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