Orson Welles, o cineasta inovador e renovador

21 AGOSTO, 2016 -

Numa era em que Hollywood captava tudo que gerava lucro, afirmava-se um nome diferente. Com menos propensão para o lucro mas com uma inigualável amplitude criativa que o fez rapidamente destacar dos demais. Antes do cinema, passou pelo teatro e pela rádio com a mesma distinção da que incutiu na parcela da sua obra que dedicou à sétima arte. Rebuscando conceitos artísticos de eras idas e abordando perspetivas técnicas de referência para as gerações vindas, Orson Welles tornou-se num pioneiro de distinção. Não obstante viver desaforadamente, existia personalização em tudo que tocava, distinguindo-se então o que tinha e o que não tinha Welles. Uma segmentação somente ao alcance dos génios.

George Orson Welles nasceu a 6 de maio de 1915 em Kenosha, no estado norte-americano de Wisconsin. A sua infância revelou-se algo conturbada, tornando-se órfão aos 15 anos após perder o pai e a mãe, esta quando tinha 9 anos. Um ano depois, reencontrou a alegria no seu coração na arte e começou a estudar pintura. Não obstante esta descoberta, Welles abandonou cedo os estudos por desinteresse e dedicou-se à representação. Com somente 22 anos, e já contando com alguma experiência em palco e até em projetos ligados à rádio, fundou a sua própria companhia de teatro. No entanto, foi no ano seguinte (1938) em que a sua carreira sentiu um forte impulso perante a comunidade norte-americana. Com a rádio a predominar os tempos de lazer e a servir como um importante orgão social, Orson Welles rentabilizou todo esse potencial com a adaptação de “The War of the Worlds” do autor H.G. Wells. Com a obra a retratar uma invasão alienígena ao planeta Terra, a interpretação causou o pânico generalizado em todos aqueles que escutavam atentamente a inspirada e jornalística proclamação de Welles. A ficção encheu as manchetes dos jornais do dia seguinte, noticiando a azáfama gerada pelo trabalho do norte-americano. Pelo meio, um contrato assinado pelo artista que garantia a realização de três filmes sob a tutela do estúdio RKO, que lhe concedeu total liberdade na mesma. Começavam a iluminar-se os focos na figura de Orson Welles.

Em 1941, lançava-se no cinema e com um projeto bastante robusto. “Citizen Kane” traçava uma crítica acutilante à ascensão e queda de William Randolph Hearst (interpretado pelo próprio Welles), um magnata da imprensa norte-americana. Porém, e para além do aspeto concetual e das barreiras impostas à prossecução do filme, este trabalho tornou-se bastante significante no futuro do cinema pelo caráter renovador e inovador que incutia. Apesar de não gerar os lucros esperados pela indústria cinematográfica, toda a envolvência que o complementou tornou-se particularmente marcante na definição do estilo de Orson Welles e na potenciação de um génio artístico. Ao nível da filmagem, o norte-americano empreendeu dois ângulos que são conhecidos como “plongée” e “contra-plongée”. Ambos procuram a profundidade, filmando de cima para baixo e de baixo para cima respetivamente. Apresenta-se assim uma forma de superiorizar ou inferiorizar elementos conforme se desencadeia a ação. No que toca à exploração do campo, Welles volta a utilizar duas formas opostas mas complementares, sendo elas o “campo” e o “contra-campo”. Esta antítese permite a constituição de uma continuidade visual, unificando personagens que, embora separadas na realidade, tentam formular uma realidade una e sobreposta às demais. Na dinâmica da narrativa, o realizador corta com a tradicional linearidade e ousa arriscar na sua ausência, cortando com a lógica cronológica de forma a personalizar a forma de contar a história. Esta tornou-se numa premissa bastante usada no futuro, nomeadamente em projetos de mistério e thrillers. Em paralelo com esta não-linearidade, o cineasta também foi inovador no que toca à edição e montagem do filme, levando-o a sofisticar e a testar novas perspetivas no modo de construir o produto final. No final, foram nove as nomeações obtidas para os Óscares, conquistando a respeitante ao melhor argumento original.

Uma aura de reverência perante o caráter revolucionário de Welles pairava, suscitando vários convites para este atuar noutros filmes. Pelo meio, um frutífero casamento com a estrela de Hollywood Rita Hayworth, com quem teve uma filha de nome Rebecca. De seguida, o realizador quis ampliar horizontes e viajou para a América do Sul, onde absorveu algumas ideias para futuros projetos. No entanto, o que restou da sua longa carreira na sétima arte viu-se titubeante. Para sobreviver e garantir as mínimas condições para a realização dos seus trabalhos, Welles viu-se obrigado a participar em filmes mais comerciais e a depender só de si em todo o processo suplementar ao cinematográfico. Para além disso, mostrou ao mundo em plena época de guerra os seus dotes em magia, garantindo alguma sustentabilidade financeira com essas atividades. Este contexto não impediu a celebrização de dois dos seus projetos de nome “The Magnificent Ambersons” (1942) e “Touch of Evil” (1958). Enquanto que, no primeiro, se reflete sobre a crise de uma família abonada na viragem do século XX, o segundo medita sobre a ética policial no rescaldo de um homicídio, sendo novamente acompanhado pela Hollywood neste. Porém, outros tantos se revelaram subvalorizados perante a crítica de então, habituada a um modus operandi e modus vivendi específico no que saltava para a tela. “The Lady From Shanghai” (1948) e “Chimes At Midnight” (1965), o primeiro não divergindo muito de um estilo arrojado de perseguição e abrindo as portas para o film noir e o segundo entregando-se à obra shakespeariana na relação de Sir John Falstaff com o príncipe da sua coroa. Pelo meio, também adaptou “Othelo” em 1952 e “The Trial”, obra de Franz Kafka, em 1962, estes já na sua digressão artística pelo continente europeu. Como ator, participou em grande parte destes projetos, fazendo-se valer da sua experiência na representação dramática das obras de William Shakespeare.

“Qualquer carreira no mundo artístico é uma montanha-russa, e muitos sucessos resultam da combinação de várias circunstâncias felizes. Mas deve existir algo mais também.”

Orson Welles sobre uma carreira no mundo artístico.

Apesar das dificuldades na produção de cinema, o seu papel na conjuntura artística de então impedia-o de cair no esquecimento, pois mostrava-se notável no desempenho das funções como ator nos projetos para os quais era convidado. A peculiar voz rasgada e pesada assentava no memorial dos anos cinquenta do cinema norte-americano e tudo isso se configurou nos papéis empreendidos em “The Third Man” (1949, para além da emblemática banda sonora), “The Long, Hot Summer” (1958) e em “Compulsion” (1959). No entanto, e enquanto cumpria os seus compromissos com mestria, não resistia em dar o seu parecer na realização. Sentindo-se cineasta de corpo e alma, essa grande propensão para a direção mostrava-se na forma como orientava os restantes atores e como sugeria planos e abordagens por parte da equipa produtiva. Dentro destes aspetos, mais alguns que talharam a senda inovadora da forma de compor cinema de Orson Welles. A utilização do “chiaroscuro“, técnica muito usada na pintura e que consistia na manipulação de contrastes entre escuros e claros na composição visual da história, era uma delas. No que toca à filmagem, sugeria a filmagem de longos takes e de cenários em que a profundidade se impusesse, garantindo uma maior amplitude e consistência na história a contar, assim como em todos os seus arredores espácio-temporais.

Na profundidade de tão produtivo génio, muito ficou por ser feito. Obras como “Don Quixote” ou “The Merchant of Venice” chegaram a ser equacionadas e trabalhadas por Orson Welles mas o seu coração traiu-lhe a 10 de outubro de 1985. Homem de excessos, para além de ter uma composição física bastante ampla, Welles percecionou-se com caraterísticas que nunca foram alheias ao que estava para além do cineasta e do artista. No que toca à sua criação e produção, Welles foi inovador e renovador. Inovador por empreender a vastas reformulações na abordagem cinematográfica, tanto no que envolve a parte concetual como na materialização da primeira. Renovador por conferir uma lufada de ar fresco à modalidade da sétima arte, revivendo a energia e o vigor que se diluíram com o registo monocórdico mas lucrativo de Hollywood. No fundo, tornou-se incompreendido por não se tratar do protótipo de realizador desse tempo, em que o rendimento financeiro prevalecia diante da expressão vigorosa e corajosa. Orson Welles deu voz a todo esse vigor e coragem, caraterísticas essas conduzidas pelo seu génio criativo e explorativo. Um cinema recitado pelos sentidos e pelos sentimentos, tratando o dilema como um poema. Vias de expressão geniais que com Welles se viram reais.

“O cinema não tem fronteiras nem limites. É um fluxo constante de sonho.”

Orson Welles sobre o cinema

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