‘Orelha Negra’: fantástico caleidoscópio musical

5 OUTUBRO, 2017 -

Como definir Orelha Negra? Uma sondagem pessoal prévia a alguns ouvintes casuais do grupo revela a música deste grupo português como uma “salganhada de estilos”, “uma mistura de géneros”, surgindo dessas respostas uma interrogação válida e a procura ávida de uma definição. Mas isso revela-se desnecessário; a boa arte não precisa de categorias para ser apreciada, fala por si própria e, no caso da música, através de frequências auditivas genialmente elaboradas e conjugadas.

Ao ouvir Orelha Negra pela primeira vez experienciei (além de deleite) surpresa e curiosidade. A pergunta “O que é isto?” ocupou a minha mente durante os primeiros tempos de descoberta de Orelha Negra, o primeiro projecto do grupo do qual fazem parte Sam the Kid munido de uma MPC, o veterano DJ Cruzfader nos pratos, Francisco Rebelo e João Gomes  no baixo e teclas respectivamente (companheiros no grupo Cais Sodré Funk Connection), e Fred Ferreira a partir a loiça toda na bateria. Queria decifrar qual a inspiração que estava na génese deste grupo, o que os unia neste universo de samples, muito funk, linhas de bateria e de baixo irrequietas, teclados quentes e alma de hip hop no meio de tudo isto. A novidade sonora foi para mim combustível para a interrogação, e nunca a curiosidade soou tão groovy.

O primeiro álbum do grupo está recheado de samples, mesclas entre canções e vozes e é o principal factor que salta à vista, recheado de uma groove dançável, extremamente apelativa, e que se faz ouvir com muito estilo. O tema que introduz o projecto (“Memória”) incorpora samples sob uma batida melancólica com um teclado caloroso que escorrega pelas várias vozes e pelos vários pedaços de história que se fazem ouvir ao longo da música. No segundo projecto (também de seu nome Orelha Negra), essas valências são melhor exploradas, nota-se uma maior química entre os membros da banda e isso é transmitido pelas músicas que compõe o álbum.

Agora que lançam o seu terceiro projecto, essa união de mentes atinge o seu auge, há uma grandiosidade inerente aos temas, com muita coisa a acontecer nos vários universos musicais que Orelha Negra pintam, uma multitude de pormenores escondidos que só a repetida exploração auditiva desvenda. O terceiro Orelha Negra distancia-se dos trabalhos anteriores por ser o mais ambicioso projecto musical da banda, o mais complexo, sem deixar de ser digno da sua discografia.“Nascente” introduz-nos a um mundo que se crê diferente, com salpicos de psicadélico espalhados ao longo desta faixa e ao longo do álbum, e sente-se uma melancolia suave a percorrer o tema. O baixo “roliço” diz-se presente sem hipótese de ser ignorado, acoplado a uma atmosfera que parece quase saída de um filme de ficção científica, com ares de Air que suspiram por entre os intervalos sonoros, e uma voz que parece pertencer ao universo dos Daft Punk (algo que também se nota no solo final aguerrido da potente “Duas Caras”, com Fred a esmerar-se neste tema, numa bateria camuflada por samples).

Comparativamente com o álbum anterior há menos músicas, mas a duração é praticamente a mesma, o que simboliza um aprimorar dos arranjos e das composições, uma maior atenção ao preenchimento dos temas através de um espaço sonoro rico e diversificado. A atmosfera do álbum divide-se entre momentos mais suaves e contidos e outros que parecem querer engolfar o mundo com a sua “abrasão” calculada. “A Sombra” assegura-nos pela percussão e sopros intensos que não há tempo a perder, e o riff possante e raivoso mantém-se ao longo de uma música progressivamente mais avassaladora, um tsunami “monstruoso” que nos deixa perplexos com a sua força incrível.

“Parte de Mim” também demonstra essa intensidade, com uma sample do grupo de hip hop Mobb Deep a fazer-se ouvir e uma batida entusiasmante. Fred rebenta com a faixa com a sua bateria possante e João Gomes faz soar um teclado absolutamente contagiante, a acabar o terceiro longa duração de Orelha Negra com um estrondo inabalável. A parte mais pacata surge pela mão de temas como “Claire”. A sua batida digital e sonoridade convidam à sedução, demonstram a saudade de abraçar a cara-metade, uma música mais contida mas não menos amorosa.

 Fotografia de Rui Vieira

Há uma maturidade que transparece ao longo do álbum, uma certeza dada pelos músicos através da sua arte que o grupo está mais coeso do que nunca, e testemunhado pelo ouvinte da maneira mais deliciosa possível. Até o funk de Orelha Negra é mais pronunciado: “Skylab” é uma ode fantástica a este género, convida à dança com o seu tom de celebração, banda sonora perfeita para um qualquer sunset caloroso e com os espíritos em altas, uma faixa muito agradável. Por sua vez, “Fénix” continua essa atmosfera mas de forma mais “clássica”, uma abordagem mais contida a um estilo que é continuamente a alma da festa e uma das melhores valências de Orelha Negra.

Mas a verdadeira força deste álbum está em jogar com o inesperado, em que se espera uma coisa e surge algo diferente mas não menos bem-vindo. Em “Ready” isso é bastante claro: esta música começa com uma bateria de ataque e um coro épico que dá lugar a uma atmosfera soul muito suave. À terceira vez que muda de ritmo continuamos sem o esperar mas já nos habituámos à ideia de que não conseguimos prever esta banda e que a surpresa é espantosa, excelentemente planeada, e que revela uma mestria na produção. Quando finalmente acaba, sentimos que percorremos múltiplos espaços sonoros, estivemos em todo o lado sem sair do nosso conforto. “Apolo 70” é outra excelente música que alterna entre vários momentos, com um riff de guitarra delicioso, um baixo “saltitão” e um scratch que fala pelo hip hop que corre na alma de Orelha Negra. A passagem para a parte mais calma é surpreendentemente eficaz e culmina com uma batida intoxicante, de bombo ribombante e uma guitarrada soturna, um final perfeito para uma música maravilhosa.

Chegamos ao fim do terceiro Orelha Negra talvez com mais perguntas do que as que tínhamos quando esta divagação musical de cinco amigos começou. Por vezes é difícil dizer quem faz o quê mas o resultado final é fabuloso e esta mistura de géneros e redemoinho de estilos continua a ser uma novidade bem-vinda. Há algumas certezas: o papel de maestro e intérprete é partilhado por todos e sentimos um crescimento nas suas artimanhas. Nunca este grupo soou tão complexo, tão sagaz, tão absorvido na produção musical. Hoje mais do que nunca transparece um cilindrar de expectativas. Quando é incerto se a música vai para a direita ou para a esquerda, o ouvinte sente essa encruzilhada, mas em vez da suposta surpresa os Orelha Negra seguem em frente, desbravam o seu próprio caminho e mostram uma perspectiva diferente, inesperada. A procura da perfeita definição continua em aberto mas a música, a criatividade explorada sonicamente, essa nunca soou tão fantástica como neste projecto.

Músicas preferidas: “Ready”, “Apolo 70”, “Skylab”, “Parte de Mim”, “Soul2”, “Última Volta” e “Claire”

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