‘On the Quiet’: Um novo capítulo na aventura sonora de Xinobi

30 MARÇO, 2017 -

Das guitarras aguerridas e berros com sentimento ao universo complexo da música digital, Bruno Cardoso (também conhecido como Xinobi) tem vindo a deixar a sua marca no mundo da música portuguesa e internacional. A primeira experiência com a música foi no ambiente alimentado a distorção da música punk, como guitarrista da defunta banda The Vicious Five. As virtudes deste grupo musical espelham a ambição de The Hives e tantos outros projectos punk e rock de garagem que nos conquistam com a sua abrasão desmedida. Depois de três álbuns e um funeral de luxo no NOS Alive ‘14 The Vicious Five abandonaram os palcos mas a paixão pela música levou Xinobi à descoberta de novos horizontes.

Foi na música electrónica e no trabalho de DJ e produção que Bruno Cardoso descobriu a nova vocação musical. Já conta com uma carreira vasta, recheada de EP’s e remisturas, com um forte apoio que surgiu primeiro lá fora do que na sua pátria. O seu álbum de estreia 1975 foi editado em 2014 pela Discotexas, uma editora fundada por Xinobi e Moullinex, e neste projecto o artista mostra orgulhosamente as suas influências do mundo menos “digital”: há guitarras cuidadosamente alinhadas com drum loops, baixos a “rasgar” temas e nota-se claramente um esforço em incorporar estes elementos mais “analógicos” num universo preponderantemente digital.

Os exemplos estão à vista de todos os que descobriram 1975. “Mom and Dad” tem uma ginga surpreendente, auxiliada por um riff entusiasmante de guitarra e uma voz simples e sedutora, “Crime” também consegue criar um clima dançável incorporando um riff de guitarra simples e eficaz, e Polana mistura esse instrumento com música techno de uma maneira orgânica e apelativa. Finalmente, “People” tem um guitarra quase a lembrar Dead Combo (um grupo “vítima” de um discreto mas eficaz rework de Xinobi da sua faixa “Quando a Alma Não É Pequena”) com uma batida estimulante. Em 1975 Xinobi apresenta um projecto conciso, focado, com uma produção que pega nas raízes musicais do artista e as revitaliza, tornando inevitável o bater do pé ao som das batidas apelativas.

Três anos depois Xinobi está de volta com On the Quiet, um álbum que denota uma mudança na sua abordagem musical. O artista embrenha-se cada vez mais no universo da electrónica e abandonou quase por completo a abordagem “analógica” que caracterizava várias músicas de 1975 (com excepção  da música “Tonic Clonic”, que incorpora bem a guitarra e a deixa soar como um zumbido electrificante “ameaçador”, ajudando à atmosfera tensa e séria da música, sem perder o seu potencial dançável). De forma geral, nota-se uma maior coesão na produção, este novo álbum assemelha-se a um set de DJ, com mais continuidade e fluidez entre os vários temas que o compõe.

O melhor aspecto de On the Quiet é ao nível da percussão: as batidas são frescas e metodicamente construídas. “Skateboarding” começa meio submerso, descontraído mas a bateria efervescente que entra a seguir ao apaixonado discurso de Ian MacKaye (um influente produtor, cantor e guitarrista norte-americano) sobre a prática e o amor pelo skateboarding eleva a música e acentua com fervor a melancolia associada à sua sonoridade. O ritmo de “Far Away Place” é suavemente mantido por um trautear descontraído e uma batida pouco marcada na sua maioria, com alguns momentos mais vigorosos. Em “Morning Fix” somos confrontados com um universo quase exclusivamente digital mas há muita coisa acontecer a nível rítmico, seja um prato incessante ou um drum loop mais robusto.

Mas não é só a nível do ritmo que Xinobi procura inovar. Há uma tentativa de mostrar uma nova faceta da música electrónica, um house consciente com uma abordagem social vincada. Além da participação de Ian MacKaye em “Skateboarding”, Lazarusman, um poeta sul-africano colaborador de vários artistas de música electrónica, declama a sua escrita em “Searching For” e “See Me”, acrescentado uma vertente mais pensativa às batidas digitais e mostrando que não é só o dançar que a música de Xinobi desperta no ouvinte, há uma preocupação em abordar os temas mais relevantes da psique humana e da sociedade em que a mesma se exprime. As composições do artista português funcionam assim como banda sonora para reflectir sobre as palavras discutidas, mas infelizmente não são excepcionalmente estimulantes.

Temas como “Morning Fix” ou “Gili Meno” são “mornos”, com pormenores interessantes mas sem grande interesse. A cadência sonora de “See Me” funde-se bem com a  voz assertiva de Lazarusman mas o ambiente musical criado não é suficientemente desafiante para os ouvidos, acabando por cair na repetição sem propósito e sem despertar qualquer tipo de sentimento. Depois de uma aposta numa electrónica eficazmente conjugada com instrumentos reais que nos relembram do passado de Xinobi, o artista mostra uma sonoridade mais imersiva, com melodias mais passageiras e que pecam por não serem mais expressivas. A caminhada musical de Xinobi continua, cada vez mais divergente do seu ponto inicial, revelando a cada nova entrada um artista em constante evolução musical.

Músicas preferidas: “Skateboarding” e “Far Away Place”
Músicas menos apelativas: “See Me” e “Gilli Meno”

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