‘O Vendido’, de Paul Beatty, é um romance arrasador

28 SETEMBRO, 2017 -

Sentado no Supremo Tribunal Americano, o personagem Me, um afro-americano criado no gueto de Dickens, cidade fundada com o intuito de ser “livre de chineses, espanhóis de todos os tons, dialetos e chapéus, franceses, ruivos, citadinos e judeus sem qualificações”, acende um charro enquanto espera para ser julgado no que ele considera ser mais um caso racial nos Estados Unidos da América. Me é acusado de esclavagismo (tem um escravo que não quer deixar de ser escravo) e de reinstalação da segregação racial.

O desconcertante início de “O Vendido” (Elsinore) promete o que virá ser cumprido:
Paul Beatty (Los Angeles; 1965) escreveu o romance mais “badass” que o leitor vai ter nas mãos este ano.
É entre juízes, advogados e réus, que Me conta que a sua motivação visava o bem comum. Sem o racismo, a comunidade perdeu a sua dinâmica e as pessoas ficaram “perdidas”. Onde encontrar novas causas e novas bandeiras?

“O problema é que não sabemos se a integração é um estado natural ou não. A integração, forçada ou não, é entropia social ou ordem social? Nunca ninguém definiu este conceito”.

Me (que pode ser traduzido por “mim”)  olha para a vida como uma linha recta, percorrida com o sofrimento próprio de um negro de classe baixa. Naquele bairro agrícola, ele assume-se como especialista em vida vegetal, dedicando-se à plantação de melancia e ganza. É, como o próprio diz, “um agricultor de subsistência”.

O seu pai, um obcecado cientista social, fez dele uma cobaia no exercício das ideias de libertação do povo negro. Para Me, o pai tinha “noções maradas de negritude e infância”.
Estas ideias continuaram a ser defendidas nos “Dum Dum Donut Intellectuals”, grupo composto por académicos e proprietários negros, que o pai havia fundado. Foy, o líder, apelida Me de “O Vendido” por este não defender os ideais do grupo.

A vitalidade de Dickens torna-se residual. As suas próprias delimitações são assimiladas. Com o desaparecimento de Dickens e a morte do pai, Me abandona a sua passividade. No entanto, as suas atitudes vão em sentido oposto ao que é defendido pelo grupo de intelectuais reunidos numa loja de donuts. Me pinta as delimitações de Dickens no chão, promove a segregação na escola local e no transporte público e tem um escravo.  Apesar das evidentes melhorias na dinâmica social, Me é acusado. É isso que nos conta, enquanto lambe uma mortalha e enrola um charro.

O racismo não se restringe a uma contenda entre brancos e negros. Os próprios negros desprezam os mexicanos, por estes lhes roubarem o emprego, numa cidade defensora da segregação desde os primeiros dias. É nesta conjugação de culturas que o indivíduo e a comunidade constroem as respectivas identidades. Me percebe que as tentativas de devolver a cultura primordial aos habitantes daquela localidade estão condenadas ao fracasso.

“Todo este trabalho, Dickens, a segregação, a Marpessa [por quem está apaixonado], a quinta, e continuo sem saber quem sou”

A miscigenação entre culturas impossibilita a separação de cultura negra e branca (e mexicana), pois têm vindo a influenciar-se e a assimilar características uma da outra. A pureza de uma cultura não existe, porque qualquer cultura é uma conjugação de traços e influências.  A procura dessa identidade “pura” leva a que, no grupo “Dum Dum Donut Intellectuals”, se defenda a alteração de conteúdo de obras canónicas da literatura universal. “O Grande Gatsby” passaria a ser “O Grande Blacksby” e “A Cabana do Pai Tomás” seria “o Apartamento do Pai Tomás”. Por mais ridículo que possa parecer, estas propostas são ecos da realidade. Existem “correntes de pensamento”, mesmo em universidades, que pretendem abolir obras por serem consideradas racistas ou misóginas. Me é brilhante, quando lhe dizem, com grande indignação, que Mark Twain utilizou a palavra começada por “e” (escarumba) 219 vezes em “Huckeberry Finn”:

“(…) porquê culpar Mark Twain por não teres paciência nem coragem para explicar aos teus filhos que a «palavra começada por “e” existe e que durante as suas vidinhas protegidas podem um dia vir a ser chamados «escarumbas» ou, ainda pior, atrever-se a chamar «escarumbas» a outra pessoa. Nunca ninguém se vai referir a eles como «pequenos eufemismos negros», portanto, bem-vindo ao léxico americano: Escarumba!”

A reescrita não passa somente pelo título. Foy, ao ler “Huckleberry Finn” aos seus netos, substituiu a palavra “escarumba” por guerreiro” e “escravo” por “voluntário de pele escura”. Ele reescreveu o passado para impor a ideologia actual.

A literatura revitaliza o seu poder quando se liberta da função ideológica. As bandeiras do politicamente correcto são lançadas para o canto bafiento onde jazem outras bandeiras, e a literatura, que não deve subserviência a nada nem a ninguém, assume-se como um milagre da linguagem com potencial ilimitado.
As ideias mal engendradas, tantas vezes registadas em motes, são ridicularizadas e reduzidas a nada pela mordacidade fulgurante do autor norte-americano. Dwight Gardner, no “New York Times”, afirmou que as primeiras 100 páginas do livro são as mais cáusticas e mais “badass” que leu num romance norte-americano publicado na última década. E percebe-se a razão. Os monólogos aproximam-se, tantas vezes, da corrosiva desmontagem dos números de “stand-up comedy”. Autores “bem comportados”, como Eggers, ou pretensamente originais, como Banksy, não são poupados.

O humor, em Beatty, não apareceu agora. Além de 4 romances e 2 livros de poesia, o autor organizou, também, uma antologia de humor afro-americano (Hokum: An anthology of african-american humor”)
Quando “O Vendido” (“The Sellout”) foi publicado, em 2015, nos Estados Unidos da América, passou praticamente despercebido.

Seth Colter Walls, em “The Guardian”, afirmou que a “New Yorker” não deu a James Wood, nem a outro crítico, a tarefa de escrever sobre o livro de Paul Beatty. O selo de Wood, que serve de bússola ao teor analítico de vários críticos, não existiu. Nem a de Wood, nem a da maior parte dos críticos literários. Por estas razões, a surpresa foi grande quando se soube que “O Vendido” havia ganhado o “National Book Critics Award”, e ainda maior quando o mesmo livro venceu o “Man Booker Prize”.

É óbvio que o autor não defende o racismo – muito longe disso. Paul Beatty arrisca, ao propor um ponto-de-vista diferente. As ideias, o humor e a crítica existem em contracorrente. Me (Ou Beatty?) ri-se de si e dos outros quando analisa, de forma panóptica, a identidade colectiva dos norte-americanos.
Esta voz fazia falta. “ O Vendido” é ar fresco. Extraordinário.

Fotografia em destaque: Graeme Robertson / the Guardian

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