O uso da medicação como forma de formatar a sociedade

2 JANEIRO, 2017 -

Muita gente não detém conhecimento das estatísticas preocupantes em Portugal em relação à sobre medicação da população. Um relatório de 2015 da Direção geral da saúde estima que entre 2010-2014 em Portugal são consumidas anualmente mais de 325.867.249 doses de antidepressivos e 285.221.392 de ansiolíticos. O que coloca Portugal como o terceiro país do mundo com o maior consumo de antidepressivos.

No entanto, mesmo com este consumo astronómico de antidepressivos, o coordenador português da Aliança Europeia contra a depressão, Ricardo Gomes, afirmou nesse mesmo ano que Portugal é o segundo país da Europa e o terceiro do mundo com a maior taxa de depressão.

Face a esta informação a RTP fez um segmento com o psiquiatra António Sampaio, que, ao expor-se como uma figura de autoridade no assunto, afirma que esta taxa de depressão alta se deve à crise vivida em Portugal e chega mesmo a afirmar que os portugueses estão naturalmente mais predispostos a este tipo de diagnósticos. O problema com esta afirmação é que está completamente errada. A inframed lançou um estudo dois anos antes onde afirmam que não existe nenhuma ligação entre a crise e o aumento do consumo de antidepressivos.

De seguida o jornalista pergunta se não existe uma tendência dos médicos para a facilitação do diagnóstico da depressão, o doutor como que não responde diretamente dizendo que a depressão por norma é acompanhada por uma disfunção dando a entender que dificilmente isso acontece, mas persiste a ideia que este número de depressões em Portugal é normal e que os portugueses são naturalmente depressivos.

Até aqui tem-se uma ideia de que este excesso de diagnóstico patológico e medicação em Portugal é algo sistemático e que ao ver estes dados começa a parecer que existe uma facilidade para caracterizar algo normal como patológico. Aqui entramos num problema, como podemos nós considerar o que é normal, o que é fora do normal e dentro desse fora do normal o que merece ser medicado?
Observando a lista de características que se seguem conseguimos nós distinguir quais as que descrevem uma criança normal de uma fora do normal que mereça ser medicada?

1 – Na sala de aula não param quietas
2 – Tiram o lápis ao colega
3 – Levantam- se porque lhes falta a borracha
4 – Estão sossegadas, mas “na lua”
5 – Enquanto fazem os trabalhos levantam-se a cada cinco minutos
6 – São desobedientes e esgotam os pais

Se disseram que todas descrevem uma criança fora do normal então estariam corretos considerando que esta é a descrição de uma criança com défice de atenção que está exposta na página da fnac descrevendo o livro “Hiperatividade e défice de atenção” escrito pela Ana Serrão Neto, Coordenadora da área de Pediatria na CUF.

Isto é relevante porque é um exemplo do condicionamento da conceção de normalidade da população leiga cientificamente. Imaginemo-nos nós pais frustrados, que procuram na internet alguma ajuda na educação dos seus filhos e encontram algo como isto? Quantos de nós não pensaríamos que há algo de errado com os nossos filhos? Algo patológico?

Estas ações têm repercussões práticas, em Portugal de 2010 para 2014 segundo a direção geral de saúde, o número de doses de Ritalina (medicamento utilizado no tratamento de Défice de atenção) subiu de 3 para 5 milhões de doses diárias anuais em crianças entre os 5 e os 14 anos. Pensando agora nestes números, existem em Portugal 1 milhão de crianças entre os 5 e 14 anos. Também sabemos que, segundo os números do livro da doutora Ana Serrão Neto existe um total de 80 000 casos de deficiência de atenção e hiperatividade, ou seja, o número de crianças a tomar 5 milhões de doses é inferior a 80 000. Em comparação com a dose recomendada pela associação portuguesa da criança hiperativa que aconselha a “tipicamente tomar a medicação três vezes ao dia”.

Infelizmente, até na página da Internet desta associação na secção de tratamento, temos 9 tópicos sobre medicação e 0 sobre acompanhamento terapêutico. Curioso considerando que o próprio panfleto da Ritalina, revisto pela Infarmed afirma que este medicamento “é apenas utilizado após serem testados tratamentos que não envolvem medicamentos, tais como aconselhamento e terapia comportamental e que tenham sido insuficientes.”.

No Brasil o problema com a Ritalina é ainda maior. Os dados de uma pesquisa do Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), apontam que, em dez anos, o consumo da droga cresceu 775%.

Existe um artigo brasileiro que trata este assunto denominado “A explosão do consumo de ritalina”. Neste artigo tratam todos os assuntos que já referi do uso dos medicamentos como um instrumento normalizador, mas face à população brasileira. Mais importante ainda concluem afirmando que “Tenta-se recolocar as explicações organicistas em um lugar de referência para pensarmos as dificuldades de aprendizagem. O diagnóstico de TDAH vem também servir para que se coloque a culpa de questões sociais somente em alguns indivíduos, transformando em distúrbio aquilo que está fora da ordem social: “O que escapa às normas, o que não vai bem, o que não funciona como deveria…tudo é transformado em doença, em um problema biológico, individual.” (COLLARES E MOYSÉS, 1996). “Individualizando a questão, ignora-se todo o contexto social, como foi comentado, que deu suporte para o aparecimento do TDAH, nesse sentido, todos teríamos uma parcela de responsabilidade, o que colocaria em crise a conceção de normalidade vigente em nossa sociedade.”.

Aqui é que a nossa noção do que é normal tem impacto.

Um estudo brasileiro de 2005 usa o estudo da conceção de normalidade como algo importante para os serviços nacionais de saúde.
Este artigo fala também da carência de estudos que explorem como membros de um determinado grupo social reconhecem indivíduos mentalmente saudáveis.
O artigo argumenta que a eficácia de um sistema de saúdes depende, portanto, de sua contextualização perante o universo sócio-económico-político-cultural de cada grupo e o universo simbólico de cada indivíduo. E para que isso seja alcançado é necessário dar maior importância à observação dos elementos relacionados à normalidade mental, existentes em cada sociedade.
É face a este objetivo que devemos almejar. Devemos procurar uma organização social que premeie a individualidade, não tentar diminuí-la.

A conceção de normalidade e a conotação que tem é a principal causa da sobre medicação que existe no mundo. A comunidade científica que trabalha no estudo da mente como psiquiatras e psicólogos tem compactuado com um sistema que infelizmente utiliza a medicação não para ajudar o indivíduo, mas para o formatar e destruir a diversidade cognitiva catalogando-a como patológica.

Referências para o artigo:

Ritalina
Hiperatividade e Défice de Atenção, livro de Ana Serrão Neto
Toma o comprimido e cala-te?
, artigo de José Soeiro para o Expresso
Saúde Mental em Números – 2015
, Programa Nacional para a Saúde Mental

Antidepressivos
Portugal é o segundo país da Europa com maior taxa de depressão, artigo de RTP1
Portugal é o terceiro país no mundo onde se consome mais antidepressivos
, artigo de TSF
Consumo de antidepressivos em Portugal está a aumentar
, artigo de JN
Consumo de mais antidepressivos não está ligado à crise
, artigo de DN
Perturbação da Hiperactividade e Défice de Atenção

Brasil
Brasil registra aumento de 775% no consumo de Ritalina em dez anos

A ritalina no Brasil: produções, discursos e práticas

Texto de Guilherme Correia

Comentários

Artigos que poderão ser do teu interesse

ARTIGOS RELACIONADOS