O submundo das redes sociais

20 MAIO, 2017 -

O SOL entrou no grupo onde foi partilhado o polémico vídeo da Queima das Fitas do Porto. Com 44 mil membros, a partilha de fotos com conteúdos sexuais explícitos, mensagens privadas e comentários de assédio são frequentes. Há até fotos de mulheres captadas na rua ou em centros de saúde.

A semana ficou marcada pela partilha de um vídeo de teor sexual captado num autocarro, no Porto, na semana da Queima das Fitas. As imagens que mostram uma jovem a ser masturbada não deixam claro a existência de um abuso sexual e, mesmo que tal tenha acontecido, a investigação está dependente de participação da vítima, o que não se verificou quando as autoridades identificaram a rapariga do vídeo. O caso veio a público depois de o Correio da Manhã ter decidido publicar o vídeo, na quarta-feira. Desde segunda que o SOL tinha alertado as autoridades para a existência deste tipo de imagens a circular na internet. A queixa chegou de mulheres que se tinham apercebido da existência de ‘grupos secretos’ de homens nas redes sociais, onde se partilham imagens sexuais explícitas. Um dos conteúdos que estava a gerar maior preocupação era precisamente o vídeo do Porto.

Um submundo nas redes sociais

As imagens captadas na semana passada no Porto começaram por ser partilhadas pelo WhatsApp e mais tarde num grupo secreto do Facebook com o nome #IMASOLDIER. Por cá, esta funcionalidade da rede social não tem sido muito falada, mas está longe de ser novidade. Existem três tipos de grupos no Facebook: os públicos (em que todos os utilizadores conseguem aceder ao conteúdo); os ‘fechados’ (é possível encontrá-los nas pesquisas, ver algumas publicações mas, para ter acesso a tudo, é preciso ser convidado por um membro) e por fim os ‘secretos’. Estes não aparecem na lista de opções quando se pesquisa pelo seu nome na rede social e é impossível ver, por isso, qualquer conteúdo ou lista de membros. Só se tornam visíveis após convite.

Apesar do secretismo, podem ser criados por qualquer pessoa. Há quem os use para manter a família em contacto, para organizar festas. Há grupos de mães que partilham artigos sobre maternidade e outros de troca de roupa e ofertas de trabalho. Mas há outros que parecem não ser tão bem intencionados e que aproveitam o anonimato e a impossibilidade de serem encontrados para partilhar conteúdos que facilmente seriam censurados se estivessem em espaços abertos. Um jovem islandês, ouvido pelo SOL, conta que, no seu país, esta é já a melhor forma de ter acesso a droga – através de mensagens em código, fazem-se as encomendas longe do olhar das autoridades.

Já uma publicação no Cleveland News, em 2016, comparava a cultura do «mundo secreto dos grupos secretos do Facebook» com o clássico filme de David Fincher Fight Club, conhecido pelo célebre lema «a primeira regra do Fight Club é não falar sobre o Fight Club». No mesmo ano, a BBC publicou um artigo que denunciava a partilha de imagens de crianças por pedófilos nestes mesmos grupos. Como as configurações da rede social permitem a invisibilidade, a liberdade de partilha de conteúdos é infinita.

E o que faz o Facebook? O chefe de políticas públicas da rede social disse à BBC que estão empenhados em remover conteúdos impróprios. Seguem, para isso, algumas pistas, como os nomes dos grupos, a que os administradores da rede têm a acesso apesar de não serem visíveis para o resto dos utilizadores. Nomes com uma indicação clara de seu conteúdo, que contêm imagens pornográficas e altamente sugestivas, muitas com referência a crianças e comentários sexualmente explícitos são alguns sinais de alerta.

Na investigação que o SOL começou a ter acesso a publicações de vários grupos secretos, não foram encontrados conteúdos pornográficos com crianças. Porém, as partilhas continham fotografias e vídeos explícitos de atos sexuais, mulheres anónimas na rua e ainda comentários com assédios.

Por questão de respeito às visadas dessas publicações, o SOL opta apenas por partilhar alguns dos comentários que encontrou nesse tipo de grupos, incluindo no #IAMSOLDIER, ocultando a identidade dos intervenientes. Refletem o ambiente destes fóruns secretos. Numa das imagens, partilhada em fevereiro, aparecem duas militares da GNR num balcão da Caixa, com o comentário «marchavam acima da lei». Noutra, uma jovem de biquíni na praia. «Esta inimiga gosta de andar na ofensiva. Alguém para abater».

Depois do acesso ao grupo #IAMSOLDIER e ao grupo Chicks.before.dicks , tendo ainda acesso a publicações do grupo V de Vagina e Interdito a Homens constata-se uma clara diferença no conteúdo partilhado em fóruns de elementos femininos e masculinos.

Embora nos grupos compostos por mulheres haja a partilha de fotografias de homens famosos em poses sexy e apesar de se trocarem piadas sobre os homens, o SOL não encontrou nesses grupos a partilha de imagens gráficas ou vídeos sexuais, nem de homens fotografados na rua seguidos de comentários de assédio. No #IMASOLDIER, com 45 mil membros e interdito a mulheres, isso é frequente.

Ontem o grupo desapareceu do Facebook – ao pesquisar, os membros tinham a indicação de que a página não estava disponível. Mas, numa página onde o grupo vende merchandising – como camisolas a dizer #IMASOLDIER – fizeram saber que vão continuar. «Esta página vai ser apagada durante um tempo, apenas adiram à página seguinte soldados dentro de trinta minutos encerro a página», lia-se na publicação, que pedia para os seguidores aguardarem ordens no «no armazém de soldados».

Quem está por detrás dos grupos

O SOL conseguiu falar com um dos administradores do grupo. O homem de 28 anos, que pediu para não ser identificado, garante que o vídeo da jovem na Queima das Fitas só esteve online no #IAMSOLDIER durante duas horas e por erro de triagem. Este responsável reconheceu, ainda assim, que existe conteúdo impróprio no grupo, mas que se sente impotente para gerir as publicações de 45 mil homens.

Ao todo, o grupo tinha 11 administradores e moderadores. Para este membro, ouvido pelo SOL, a presença neste fórum faz sentido por ser um local de partilha de assuntos masculinos e conteúdos divertidos e recusa qualquer intenção dos autores de promover a difamação de mulheres.

Sensação de insegurança

Na prática, porém, é isso que sentem as mulheres que nos últimos dias tiveram acesso ao grupo. Uma das mulheres que revelou ao SOL a existência do #IMASOLDIER diz que «é difícil sentirmo-nos seguras, porque quando tivemos acesso aos membros do grupo e vemos que há lá homens casados, comprometidos, militares, polícias… A quem é que se pede ajuda nestas situações?». Ao SOL, Carlos Cabreiro, diretor da Unidade Nacional de Combate ao Cibercrime e à Criminalidade Tecnológica (UNC3T), disse compreender o medo, porém salienta que se trata «de dados difíceis de confirmar», uma vez que na internet a falsificação de identidade é recorrente. «Não podemos dizer que não há quem não use o nosso perfil, sendo que há outros problemas como cometerem-se crimes com os nossos e-mails ou serem enviadas mensagens falsas», exemplifica.

Para uma outra mulher que teve acesso ao grupo, o que viu resume-se a uma «manifestação profundamente marialva, na apologia de uma suposta masculinidade baseada na conquista de território e numa guerra de sexos». Mas, ainda mais preocupante, foi perceber que havia fotografias tiradas na rua, sem as visadas perceberem, a acabarem ali. «Sem precisar de tirar nudes, ter sexo, de estar bêbedas ou seminuas, pelos vistos podemos ser fotografadas a andar na rua, a tomar café ou a trabalhar para sermos expostas e localizadas, até com nome e contacto, e virarmos ‘alvo a abater’».

Para as autoridades, o fenómeno é preocupante, mas de difícil intervenção. «Como não estamos a falar de imagens de menores e crianças, como é que sabemos se houve ou não consentimento das pessoas?», diz Carlos Cabreiro. Além disso, tal como nos casos de crime sexual, o crime de devassa da vida privada também requer participação para ser investigado. «Para já, nestes grupos, a única preocupação que realmente sentimos é que não houvesse partilha de crianças, porque caso haja pode não haver necessidade de queixa porque estamos a falar de crimes públicos».

Cabreiro explica que a PJ não tem um acesso direto às redes, na medida que não pode andar sempre a controlar o que lá é partilhado. «Se tivermos conhecimento, temos acesso, mas ninguém das redes sociais nos comunica que num determinado local se está a falar de tráfico de droga ou de sexo. Temos de ser nós a pesquisar e é impossível a polícia controlar os conteúdos e tudo o que se passa na internet. Com certeza que vamos patrulhando e percebendo onde há informação, fóruns com conteúdos criminosos e consequentemente vamos atuando, mas o papel do cidadão e da comunicação social é denunciar para que possa ser investigado algum caso em concreto». Quando os grupos são secretos, o trabalho torna-se ainda mais difícil.

Artigo de Ana Carvalho, publicado no nosso parceiro Jornal SOL

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