O Sonho de ser Pessoa

4 DEZEMBRO, 2016 -

Fernando Pessoa pautou todo o seu registo por uma diversidade incomparável com grande parte dos nomes da cultura europeia. Porém, essa variedade fundamentou-se na necessidade de dar voz e um corpo imaginado a cada uma das visões que possuía sobre o mundo e sobre a existência. Tamanha distinção deu o mote para que muitos sonhassem em usufruir a vida a partir dos seus diferentes pendores, muitos deles corporizados pelo engenho de Pessoa. Para o sonho de se o ser, portanto.

Alberto Caeiro era o mestre por alguma razão. Era o mestre por ser o mais ligado à Natureza e à simplicidade das coisas vivas. Toda essa aura de pureza e de essência produzida pelos rebanhos, pelos prados e pelos bosques não passaram imunes à caminhada lírica do mestre. Uma caminhada muitas vezes recomendada para que o ser humano se reencontre, contactando com os seres mais antigos e perenes que o planeta reserva na sua geografia. Uma caminhada que estimula a purificação física e mental, desvinculada de quaisquer artifícios modernos ou de fartas reflexões e lamentações existencialistas. O mestre, fazendo jus ao seu estatuto, passa a ensinar que a felicidade está bem perto. Sinta-se a sua fragrância.

Numa visão térrea e numa pontada presencial, aparece Ricardo Reis. É o tal que se inspira num tão proclamado carpe diem. Os sábios da Grécia Antiga conhecem neste aqui um importante impulso, sendo o seu exaustivo trabalho revivido através deste médico. Para além de dar uso à terminologia e à ferramenta médicas, propôs-se a ser um médico de almas. “Rega as tuas plantas // Ama as tuas rosas”. Uma simples premissa mas que traduz em pleno toda a sua filosofia e que escapa com tanta frequência à vida ocupada e desenfreada do comum indivíduo de hoje. A ausência da dor não faz parte dos planos daquele que vive tudo com tanta intensidade, projetando o seu futuro com ânsia e olhando para o passado com vontade de o alterar. O ser humano não tem sido Ricardo Reis, i.e. não tem valorizado o presente devidamente, esquecendo-o nos demasiados subterfúgios criados pela memória e pela profetizada glória. Para a Pessoa ideal, importa não esquecer esta necessidade de procurar a moderação num presente disposto a ser vivido e servido pela sabedoria esquecida. Nem que haja uma Lídia por aí.

Para ajudar à sintonização com a euforia e com a alegria suscitadas para a vida, surge Álvaro de Campos. Elétrico e veloz, é a voz mais modernista e futurista, a tal que procura ver mais longe e que se tenta encontrar numa crescente evolução social e tecnológica. Tal como o comum sujeito, procura-se adaptar e dar voz ao agrado e/ou desagrado nutrido por esse projeto de vida. Tudo isto se vai desdobrando numa vivaz e autêntica emoção por viver. Com onomatopeias e demais recursos para se expor toda a devoção pela comum existência das coisas, dá-se vida à vida. Mesmo que lamentando aqui e ali esta ou aquela dimensão, e relembrando bons tempos já idos, os caminhos são apontados para o futuro. Não é rara a associação ao sentimento e à ambição presente do ser humano aos escritos e sentidos de Campos. Um homem viajado e conhecedor, como aquele que muitos pretendem ser. A tal Pessoa de eleição associa-se também a este vanguardista, a este visionário das coisas mecânicas ou espontâneas. Todo o modernismo condensado em alguém que quis ir mais além. Todo o modernismo que, numa massificação inconfundível, tudo trocou. Perdeu-se o fio à meada e o encanto desapareceu algures. Para que o futuro seja de reconciliação, apela-se ao esforço daquele que quer ser de eleição, aquele que sonha em ser Pessoa.

No final, remete-se para o ortónimo. Partilhando um pouco daquilo que Bernardo Soares dissecou num desassossego que é de todos, é o ortónimo que é mais condizente com o atual estado da existência humana. Não deixa de ser interessante de notar que o próprio Pessoa não conseguiu ser uma Pessoa de eleição. Tudo isto dentro dos seus parâmetros. Bem tentou desconstruir-se em diversas figuras icónicas do inconsciente coletivo nacional mas não conseguiu. Martirizou-se com dores inerentes à criação e não se esqueceu de questionar a morte e demais ambiguidades que motivam picos de sofrimento. Também recordou a infância com olhos de saudade e de vontade de retomar esses tempos despreocupados e desarticulados com quaisquer tarefas e incumbências. Importava viver e somente isso. É generalizada a saudade nutrida por tempos destes, idos mas nunca esquecidos. Apesar de procurar soluções para essas aparentes ameaças ao seu bem-estar, nunca as conseguiu realizar em totalidade. Nunca se desprendeu das suas dores, reforçando a necessidade de ter de as expressar, mesmo que sofrendo ainda mais. Também custa ao sujeito expressar tudo aquilo que sente. Há essa dor anexa à representação do que se sente. Torna-se inevitável sofrer mais do que o devido, por muito que seja recomendado e exortado o contrário. Não há misticismos e orientalismos que lhe valham, muito menos futurismos ou estoicismos. Existirá cura para tão profunda enfermidade?

A dificuldade faz o engenho, importando um pouco da tão sabida voz popular. Pessoa é o autor de eleição de muitos e não é o acaso a atuar nestas circunstâncias. Há uma empatia, um sentido de compreensão e de apreciação que funciona de forma mútua. Enquanto ele entende na sua eternidade, a gente aprecia na sua fraternidade. De repente, soluções avistam-se. Pessoa tentou desconstruir a existência humana e dar resposta às suas vicissitudes de forma autónoma. Sem tomar conhecimento de tamanho feito, fez a investigação necessária para que o ser humano evoluísse e fizesse frente às adversidades que o quotidiano foi criando, mesmo que invisíveis. As coisas foram-se associando a outras, com as devidas referências líricas às diferentes situações vividas. Até uma crescente tendência para a anglofonia (nunca esquecer Alexander Search e a formação pessoana na África do Sul) e para a compreensão de como será viver na pele do sexo oposto (o heterónimo Maria José) não são raras nos dias de hoje.

Aquele que sonha ser Pessoa procura tudo em tudo o que vive, visando a totalidade da sua felicidade. Aquele que sonha ser Pessoa é o tal que todos procuram ser e o tal que todos procuram ver no outro para seguir como inspiração, como exemplo, como modelo. Aquele que sonha ser Pessoa saltou de uma teoria extensa e imensa, de um génio literário que deu asas amplas e resistentes aos ventos dissonantes com o sonho e com a obstinação de quem vê tal feito como um objetivo. Aquele que sonha ser Pessoa vai-se concretizando conforme vive e (se) conhece, dando ares da sua graça no Caeiro que orienta, no Reis que regula, no Campos que sonha e no Pessoa que procura livrar-se da dor que o atormenta. Aquele que sonha ser Pessoa celebra a sua consolidação sem saber que o é. Mesmo que vá cruzando aqui e ali referências para o seu dia-a-dia, não sabe o quão pessoano é. Aquele que sonha ser Pessoa é aquele que todos são sem o saberem. Porque nem o próprio Pessoa sabia que o era.

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