O regresso de A Tribe Called Quest na luta pela igualdade

19 NOVEMBRO, 2016 -

Há coisa de uma semana atrás o mundo ficou como que de pernas para o ar e mesmo que tentemos fugir ao assunto não conseguimos. A realidade é que o Trump ganhou as eleições dos EUA, após 18 meses de uma campanha centrada em ímpetos e ideais racistas, xenófobos, sexistas e homofóbicos. E por muito que os seus apoiantes aleguem que o sejam apenas por “apoio às politicas económicas”, não há como ignorar que menosprezar toda a injustiça social promovida é contribuir para o problema.

Nesses 18 meses, que culminaram no passado dia 9 de Novembro, inúmeros foram os artistas dos mais variados ramos da indústria do entretenimento que deram um passo à frente em protesto contra o candidato republicano. Não há como não reparar na importância que o rap tem neste aspeto. Um género musical que surge no seio da comunidade Afro-Americana e que se tornou desde finais do seculo XX um dos estilos musicais mais populares. Esta semana, fomos presenciados com o regresso de A Tribe Called Quest, grupo pioneiro no hip-hop alternativo, que não lançava um álbum desde 1998, e que agora lança We Got It From Here… Thank You 4 Your Service, gravado antes da perda de um dos seus membros fundadores, Phife Dawg, em Março deste ano.

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Com dois lados, cada um com 8 músicas, o álbum aborda os temas da desigualdade e da necessidade da união pela defesa de cada indivíduo e o combate ao privilégio racial. Isso denota-se imediatamente em The Space Program, que abre o álbum com “Gotta get it together forever / Gotta get it together for brothers / Gotta get it together for sisters / For mothers and fathers and dead niggas”. No single We The People… as palavras soam a revolta e imediatamente recordam a brutalidade policial que tem assombrado a comunidade Afro-Americana desde sempre, e que no último ano tem dado aso a muita polémica (“The fog in the smog of new media that logs / False narratives of guys that came up against the odds / We not just nigga / rappers with the bars / It’s kismet that we cosmic with the stars”). Whateva Will Be reforça essa noção, referindo como a cor da pele é ainda um factor de diferenciação entre quem tem as melhores oportunidades na vida e quem é inevitavelmente visto como criminoso (“So am I ‘posed to be dead or doin’ life in prison? / Just another dummy caught up in the system / Unruly hooligan who belongs in Spofford / Versus gettin’ that degree at Stanford or Harvard”).

Sonoramente, este álbum transporta-nos para o melhor do hip hop dos anos 90, pela produção de Q-Tip. Tem um som característico comum aos anteriores do grupo, mas em vez de invocar melancolia serve como continuação do trabalho anterior. O tempo exerce, então, um papel fulcral nessa medida: ATCQ conseguem fazer-nos recordar os anos 90 mas nunca descurando a atualidade; não sentimos que estamos a ouvir um álbum antigo, mas não é ignorável toda a força com que o hip-hop de outrora se exerce na produção. A contribuição de nomes como Kendrick Lamar e Anderson .Paak ajuda a fazer prevalecer a frescura do álbum.

Também incontestável é a influencia que o jazz tem no trabalho de Q-Tip, como refletem Dis Generation, Melatonin e Movin Backwards. Em Movin Backwards, .Paak, Jarobi e Q-tip revolvem acerca do passado, de como não querem voltar lá, mas como isso ainda se reflecte à sua volta, como se o mundo estivesse a andar para trás; .Paak aborda novamente a brutalidade policial com “Feds coming out, with riot gear / And everybody’s hands in the air / Four-fives get your ass ‘round somewhere”, recuperando o que Jarobi diz em The Killing Season (“Things haven’t really changed, been dormant for the moment / Marks and scars, we own it, only makes for tougher skin / Helps us actualize the actual greatness held within / Been on the wrong team so much, can’t recognise a win / Seems like my only crime is having melanin”).

ATCQ conseguiram deixar, como o ultimo para o seu legado, um álbum que, no ambiente hostil do tempo presente, funciona como álbum de intervenção, uma chamada ao fim da segregação e à união de uma nação. E conseguiram fazê-lo sem comprometer a integridade daquilo que é um dos melhores álbuns de rap do ano. Que a sua prolificidade se reflita na obra de outros artistas nos anos que se avizinham. Obrigada pelo vosso serviço.

Texto de Sara Miguel Dias e fotografia de Nitin Vadukul/Photoshot

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