O que nos deixou Tzvetan Todorov?

21 FEVEREIRO, 2017 -

Todorov tornou-se num dos nomes mais relevantes no contexto académico búlgaro. O europeu, para além de antropólogo e de sociólogo, debruçou-se sobre a História do mundo e sobre a literatura que a acompanhou e a sustentou, abordando também a filosofia e a semiótica. Em muito contribuiu a sua estadia em França, país em que estudou e investigou. Este vasto leque de saberes tornou-se unificado nas ideias e obras que foi apresentando ao mundo, traduzindo uma mescla de experiências sensoriais e mentais num conjunto agregado e sustentado pelo seu cunho pessoal.

Nascido no dia 1 de março de 1939 e tendo partido no passado dia 7 de fevereiro, foram mais de 70 anos devotados à causa dos estudos sobre as gentes e os indivíduos, sobre as suas obras literárias e sociais e sobre toda a intriga que inclui a semiótica na diversificada receita proposta. O búlgaro envolveu-se nestas questões mesmo após se formar na Universidade de Sófia (em filologia) e se doutorar na Universidade de Paris, juntando-se ao Centre Nationale de la Recherche em 1968, ano de muita efervescência nas camadas mais jovens e revolucionárias da sociedade. Dois anos depois, aliou-se a Gérard Genette, fundando a revista Poétique, na qual foi um dos editores principais até 1979. Esta produção apresentava as primeiras revisões e críticas literárias da autoria de Todorov, tanto de um ponto de vista linguístico como duma perspetiva conceptual.

Ainda no âmbito da teoria da literatura, demarcou-se com a publicação da obra Introduction à la Littérature Fantastique (1970), tendo pensado e definido os conceitos de fantástico, de estranho e de maravilhoso. Segundo o autor búlgaro, o primeiro termo alude a acontecimentos impossíveis de explicar ou qualificar no mundo em que nos inserimos. Após presenciarmos tal fenómeno, deveremos ponderar se o mesmo se trata de uma ilusão ou de um episódio real. Terminado o universo da incerteza, abandonamos o terreno do fantástico para adentrar no do estranho ou do maravilhoso. Na primeira categoria, o acontecimento resulta de uma ilusão, produzida a partir do sonho, da loucura, da ilusão dos sentidos ou do consumo de drogas. Assim, as “leis da realidade” – expressão criada por Todorov para definir o mundo e o real em que nos circunscrevemos – permanecem intactas e, por conseguinte, é-nos outorgada uma explicação racional e lógica. Pelo contrário, no domínio do maravilhoso, as “leis da realidade” são desafiadas ao verificar-se a ocorrência de um fenómeno desconhecido ou de episódios sobrenaturais.

Apesar de Tzvetan Todorov se ter estabelecido como um dos vultos da teoria da literatura, destacou-se também nos campos filosófico, sociológico e antropológico. A partir da década de 70, publicou obras como Frêle Bonheur : essai sur Rousseau (1985), tendo-se focado nas concepções do filósofo francês Jean-Jacques Rousseau sobre a felicidade humana e a via para alcançá-la na modernidade.  Em L’Homme Dépaysé (1996), explorou o seu problema identitário – um topos marcadamente moderno –, que advém de uma profunda divisão entre o ser-se búlgaro, a sua terra-mãe; o ser-se francês, espaço no qual se sente cidadão; ou o ser-se norte-americano, lugar que visita e onde habita regularmente. Notemos que Todorov foi professor convidado das mais prestigiadas universidades norte-americanas como Harvard, Yale, Columbia e University of California, Berkeley.

Um outro viés crucial no acervo bibliográfico de Tzvetan Todorov é o estudo da história e das ideias modernas. Ainda em 1982, publicou o livro La Conquête de l’Amérique : la question de l’autre, no qual analisou a descoberta da Mesoamérica pelo povo espanhol, servindo-se do conceito de alteridade. Nove anos mais tarde, publicaria Face à l’extrême – uma das suas obras mais icónicas –, de onde parte dos campos de concentração nazistas e dos gulags soviéticos para explorar a moral e os limites humanos, sustentando-se em relatos de testemunhas deste passado histórico. Ao longo deste texto instigante, o pensador búlgaro questiona o conceito de desumanização, comummente associado a acontecimentos extremistas, e desvenda casos heróicos, dignos e comoventes, recuperando uma dimensão perdida ou ignorada deste período.

A mais recente obra de Todorov, que chegará às livrarias portuguesas a 21 de fevereiro, volta a vincular-se ao viés histórico do pensador búlgaro. Em Os Inimigos Íntimos da Democraciao autor explorou e analisou a história do século XX, tendo concluído que, com o colapso da União Soviética e do comunismo mundial, os inimigos da democracia não residem fora, mas dentro dela. Servindo-se e aliando os seus profundos conhecimentos sobre a história das ideias à sua experiência vivencial, Todorov pensou os grandes paradoxos da liberdade, os inimigos da democracia e os vários momentos-chave da história contemporânea, recusando sobretudo o terrorismo, o fascismo e o comunismo como os grandes rivais do regime democrático.

Em “Mal-estar na Democracia” – o primeiro capítulo d’Os Inimigos Íntimos da Democracia – o pensador búlgaro começa por refletir sobre a importância primordial da liberdade. Tendo vivido a primeira vintena da sua vida numa Bulgária totalitária, a liberdade de expressão e de pensamento afiguravam-se como dois dos valores fundamentais mais desejados. Volvidos 48 anos e ainda em território europeu, o termo liberdade parece arrecadar acepções que perturbam o autor. Parece a Todorov que, a partir de 2011, o vocábulo brota em propaganda de partidos políticos de extrema-direita, nacionalistas e xenófobos, apontando o Partido da Liberdade dos Países Baixos como um dos exemplos.

Por conseguinte, apesar de perspetivar a liberdade como um dos alicerces da democracia, constatou que uma certa utilização da mesma poderá representar uma ameaça aos regimes democráticos. Esta é a premissa: os rivais da democracia não advêm do exterior, mas pairam no interior da mesma.

Partindo para a análise dos momentos-chave do século XX, Todorov realça o confronto entre os regimes democráticos e totalitários, que findou com a vitória da democracia. Vence-se o nazismo em 1945 e, em 1989, assiste-se à dissolução do comunismo. O autor salienta que, ainda que continuem a existir regimes comunistas, estes não se configuram como uma ameaça, mas como um mero anacronismo que não resistirá à cadência do tempo.

Com o ataque de 11 de Setembro de 2001, o mundo ocidental atribuiu ao islamismo integrista o estatuto de inimigo dos governos democráticos, elegendo os Estados Unidos da América como o alvo primário desta guerra santa. Porém, segundo Tzvetan Todorov, o integrismo islamita não acarreta o perigo encarnado outrora pelos regimes comunistas: se o primeiro requere intervenções policiais, o segundo pressupõe a mobilização dum exército poderoso.

Ainda no primeiro capítulo, Todorov explora o conceito de democracia, afirmando que é “um regime em que o poder pertence ao povo” e correlaciona-a com conceitos como o pluralismo, o progresso e a liberdade. Nas palavras do pensador búlgaro, estes elementos deverão ser considerados de modo igualitário, evitando a desmesura. Se porventura um destes elementos se emancipa dos outros, instauram-se os inimigos íntimos da democracia: o populismo, o ultraliberalismo e o messianismo.

Tzvetan Todorov sustenta-se, por conseguinte, na sua extensa bagagem de conhecimento e nas suas experiências em regimes totalitários e democráticos para construir uma das suas mais aguardadas obras. O autor búlgaro abstém-se de apresentar “remédios ou receitas, mas [procura] ajudar a compreender melhor o tempo e o espaço em que vivemos”. Todorov e Os Inimigos Íntimos da Democracia foram considerados como cruciais nos tempos modernos pela The New York Review of Books, que assegurou: “Now, of all times, there is a need for cool heads, such as Todorov, who approaches the limits of free speech with admirable dexterity”.  

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