O que esperar do 70º Festival de Cannes

17 MAIO, 2017 -

Como é, este vai ser o ano do austríaco Michael Haneke, do grego Yorgos Lanthimos, do americano Todd Haynes? Ou serão mulheres, Sofia Coppola, Naomi Kawase e, sobretudo, o muito aguardado regresso de Lynne Ramsay a levar a Palma de Ouro?

Paulo Portugal, em Cannes

Não há volta a dar, nesta roda de festivais muito mediáticos, em que a lista de filmes a concurso é precedida dos autores, muitos deles habitués de Cannes, cai-se tantas vezes na tentação de vaticinar candidatos, como se de uma casa de apostas de tratasse, muitas vezes baseados apenas numa simples premissa do peso do nome dos autores ou da carreira, da relevância dos intérpretes, de alguma informação, ou rumor, que os beneficie. Pura futurologia, dir-se-ia. Até porque, frequentemente, o júri, normalmente também ele um autor – este ano é Almodóvar quem preside – tenta o mais possível trocar as voltas aos indicadores que as pools de críticos vão sugerindo pelas diversas publicações diárias da especialidade. É Cannes, baby! E tudo o que diga respeito a esta montra de cinema e ao seu mercado milionário vale ouro e a atenção do mundo.

You Were Never Really Here, de Lynn Ramsay

No nosso caso, entre a vintena de candidatos cometemos a ousadia de fazer futurologia e atribuir um prémio de “grande esperança” ao novo filme da escocesa Lynne Ramsay, You Were Never Really Here. Não só pelo enorme talento que deixa em cada filme – o último foi Temos de Falar Sobre Kevin, na seleção oficial de Cannes, em 2011, com uma bravíssima prestação de Ezra Miller e Tilda Swinton. Agora convida Joaquin Phoenix a interpretar o papel de um veterano de guerra a tentar impedir que uma adolescente (a muito jovem e bela Ekaterina Samsonov, e modelo d GAP e H&M) caia numa rede de exploração sexual. Pela consistência dos seus quatro filmes anteriores, não será de esperar algo menor que uma grande fita. Grandes expectativas, e não apenas por ter sido programado a fechar o festival.

Mesmo antes de começar, este já é o ano em que os novos suportes de divulgação de cinema, o streaming, por exemplo, criaram novas regras, mas que só vão valer ara o futuro. Isto a propósito da Netflix, produtora maioritárias de dois filmes em competição, The Meyerowitz Stories, de Noah Baumbach, e o monstro Okja do sul coreano Bong Joon-Ho, serem provavelmente estreados na plataforma Netflix antes de estrear em sala. Apanhado se surpresa, o festival acabou por “legislar” para o futuro, argumentando que “doravante todos os filmes na Seleção Oficial para a Palma de Ouro terão de estrear em salas francesas”.

Outra reverberação prévia a Cannes chegou só a quem leu as 600 páginas do diário de Thierry Frémaux, justamente Sélection Officiele, que cobre precisamente o desfecho do festival de 2015 até à entrega da Palma de Ouro do ano passado. E logo nas primeiras páginas, o Delegado Geral do festival – em suma o homem forte de Cannes – deixou um ’recado’ à reação com que a produção do tríptico filme de Miguel Gomes, As Mil e Uma Noites, deixara por ter ficado fora dessa Seleção, acabando por passar para a Quinzena dos Realizadores. Nesse trecho, Frémaux lamenta a insatisfação do produtor Luís Urbano e lança mesmo um repto ao cineasta, argumentando nestes termos: “As Mil e uma Noites foi um fracasso porque a opinião de alguns elogios empenhados não correspondeu à dos espetadores, com uma opinião mais imediata, conhecedora e sincera”. Enfim, desabafos.

Sim, Cannes já está a arder. Mas, se calhar, um dos grandes filmes do festival que começa hoje, quarta-feira, e se despede no próximo domingo, dia 28, ao serão com a atribuição da Palma de Ouro, até pode ser um filme português. É que mesmo sem estar em qualquer secção competitiva, apenas numa sessão especial da Quinzena dos Realizadores, as três horas de A Fabrica do Nada, de Pedro Pinho, vai deixar marca em todos aqueles que se atreverem a seguir o destino de uma fábrica que é ocupada por trabalhadores para escapar à falência. É um filme engajado, sim senhor, politicamente envolvido, mas com tantas ideias de cinema que é difícil ficar alheado. Pelo menos assim foi numa sessão do recente IndieLisboa, destinada a profissionais do meio, programadores de festivais estrangeiros e alguns jornalistas.

Um belo pedaço de cinema que trilha um caminho narrativo mas envolto num ambiente documental, de resto imagem de marca da produtora Terratreme, na zona fabril de Santa Iria da Azóia, perto de Lisboa. Ao longo dessas três horas, temos um filme resistente, arrebatador, cavalgando géneros e analisando a política sem problemas de incluir até um momento musical. Seguramente, um filme a que voltaremos em breve e com declarações de Pedro Pinho.

Mas vamos ao Festival, com a abertura de Les Fantômes D’Ismael, de Arnaud Desplechin, fora de competição, mas com Marion Cotillard e Charlotte Gainsbourg seguramente em grande estilo, num festival que ainda nos irá mostrar am antestreia os primeiros dois episódios da nova série Twin Peaks, de David Lynch.

Texto escrito por Paulo Portugal e publicado no nosso parceiro Insider Film

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