O que é que andamos aqui a fazer?

13 ABRIL, 2016 -

Ultimamente tenho visto alguns filmes que me deixaram com uma pergunta na cabeça: o que é que este filme me acrescentou? Estou a referir-me especificamente ao ‘James White realizado por Josh Mond e ao Anesthesia‘ realizado por Tim Blake Nelson. No primeiro, vemos um filho alcoólico, desvairado, desesperado e atraiçoado pela vida, ou pela morte que levará a sua mãe com cancro a qualquer momento e, no segundo, um filme que começa com a morte de um senhor atacado por um sem-abrigo, que acaba por desenrolar-se em várias histórias paralelas, que se cruzam no fim. Mais tarde, vamo-nos apercebendo de que esse início é nada mais nada menos do que o fim e que assim terminará o espetáculo de 90 minutos: com a morte. Estes dois filmes deixam-me com uma sensação de vazio gigante e um ponto de interrogação a latejar-me na cabeça: por que raio têm as coisas de ser assim?. ‘Anesthesia‘ contempla um grupo de casos de pessoas deprimidas e infelizes com as suas vidas; estão tão amedrontadas pelo fim de tudo e pela indiferença do destino (que a qualquer momento pode tirar grandes partes deles ou pô-los a morrer aos pouquinhos), que não vivem em paz. Não vou citar o que Kristen Stewart diz ao certo, frases escritas bem demais pelo argumentista (Tim Blake Nelson, também ele realizador do filme) e que nos dão a sensação de ser isso mesmo: escritas; frases sobre exatamente nada e sobre exatamente tudo. O que é que andamos aqui a fazer?.

Trailer de ‘Anesthesia‘ 

Em ‘James White‘, James embarca numa viagem de alguns meses, em que a sua mãe vai piorando, e todos nós sabemos o que vai acontecer, através da representação verdadeira e incrivelmente sofrida de Christopher Abbott, alimentada pela performance perturbadora de Cynthia Nixon, que interpreta o papel de sua mãe. Já em ‘Anesthesia‘, só Walter Zarrow, interpretado por Sam Waterston, sucumbe à profunda tristeza e à apatia. A sua terrível morte é o culminar de uma vida em que afetou positivamente cada uma das outras personagens, com as suas ideologias filosóficas e paz interior.

Depois de ver estes filmes e de refletir sobre eles, apercebi-me de que eles não são tão inúteis assim, ou tão irrelevantes ou até tão incompletos. Eles representam aquilo que mais tememos e que nos recusamos a ver todos os dias. Andamos no nosso dia a dia, com os nossos pais, amigos, sorrimos e bebemos uns copos cheios de gargalhadas, ou choramos em frente à janela a fumar um cigarro, viajamos, fazemos amor, estudamos, mas todos sabemos o que vai acontecer no fim. Não estou a tentar ser depressiva e a resumir a vida a um fim, mas nos filmes são-nos contadas histórias sobre tudo e mais alguma coisa, tal como na vida. E depois há aqueles que nos contam tudo e mais alguma coisa sobre a morte. Dou por mim às vezes a pensar, quando vou a escolher um filme para ver sentada no sofá, que não quero ver um filme com morte; mas, na verdade, não há por onde fugir, ela está sempre lá.
E se calhar, devíamos ser um pouco mais como Walter; tentarmos deixar um bocadinho de luz na vida de cada um daqueles que nos rodeiam, seja com um ramo de flores para aquele que amamos, seja com outro pedaço de alegria qualquer.

Trailer de ‘James White

Texto de Joana Jorge

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