O que é o Paraíso?

26 OUTUBRO, 2016 -

Diz o provérbio, “quando o sol nasce, nasce para todos”. Mas, recorrendo a George Orwell (e fazendo uma analogia grosseira), quando o sol nasce, nasce para todos, mas nasce mais para uns do que para outros. A Porta Paraíso fala daqueles que ficam mais à sombra.

Faça a experiência. Pergunte a um conhecido ou a um desconhecido o que é o paraíso. Provavelmente, se lhe chegarem a responder, as proposições religiosas ou alegóricas vão ser o foco do discurso. Ninguém vai admitir que vive no paraíso. Nem mesmo o leitor. Ou sequer quem lhe escreve.

No Gretua, atrás do estabelecimento prisional de Aveiro, quem compra bilhete volta a sair pela porta de entrada. Seguindo as instruções dos colaboradores da sala, desloca-se até à parte traseira do edifício. Na penumbra, com apenas uma fita vermelha a dar o rasto, os habitantes do paraíso chegam a uma porta de saída do mundo onde vivem. Saem do paraíso, entram no palco.

Lá está o neon que dá o nome à peça, a piscar. Mais à frente um gradeamento coberto com rede em malha verde e uma porta de passagem, feita em madeira. Passa-se a porta. Já à sombra, bem longe do sol, estão os andaimes que servem de casa aos toxicodependentes, personagens principais deste mundo para lá do mundo.

Começa a peça. Mil (Bernardo Almeida), Isma (Nuno dos Reis), Julinho (João Pantaleão), Fausto (Nuno Jordão), Lila (Daniela Jesus) e o Monguinho (Tiago Lopes Francisco) são os “covardes com uma coragem acima da média”. A mãe de Mil (Andreia Silva) é o retrato do desespero e da esperança. Conde (Carlos Conde) é o dono da Porta Paraíso.

Ao sabor das legislativas 2015 assiste-se a um desenrolar de histórias individuais que formam o coletivo. Mil, personagem principal, é um jovem que acha já não ter salvação. É “o corno apaixonado” por Lila, rapariga que trabalha na boate Porta Paraíso para poder juntar algum dinheiro. Grávida de um bebé de pai incerto, é uma rapariga que quer deixar a vida da prostituição que a mantém presa pelos vícios de Mil e pelas imposições de Conde. Este último faz o que quer e bem lhe apetece: põe e dispõe de um grupo à sua mercê a troco de droga e de uma passagem de luz que nunca chega a acontecer.

Isma é o líder do grupo marginal. Uma personagem dicotómica que por um lado se assume como protetor da “família” mas que por outro lhe vende “o vício”. Tenta manter os outros na linha para que não caiam ainda mais em desgraça e é o único que faz frente a Conde. Engendra o plano de fuga para salvar a vida ao filho do casal Mil e Lila, tentando levar o casal até fora do país.

Fausto merece um parágrafo só dele. Personagem sábia, tão dependente dos livros quanto da droga, e com um sentido de vida e de consciência peculiar. Morre para, metaforicamente, salvar Mil. O seu último desejo é que o jovem recomponha a sua vida ou que, pelo menos, não arraste Lila e o bebé consigo. Morre com as palavras que o rapaz lhe lê a pedido, para “ir quentinho”.

A mãe de Emílio, nunca de Mil, acumulou diplomas e criou o filho sozinha. Solteira com demasiado peso às costas, manteve a esperança de recuperar o filho até ao fim. Essa coisa que persiste na alma lusitana desde que D. Sebastião prometeu regressar numa noite de nevoeiro, levou a que a mãe se encontrasse com Conde e com Monguinho. Violada pelo primeiro após a fuga de Emílio, matou o segundo com medo que este fosse igual ao primeiro. Mas não era.

Monguinho, também conhecido como o mano mais novo do Julinho, songamonga ou simplesmente surdo, é a personagem mais ternurenta do enredo. Encaixa naquele mundo, não pelo consumo de drogas mas sim porque não é igual à grande maioria das pessoas que vive na sociedade. Morre porque não chega a horas ao comboio e porque estava à hora errada no espaço a que chamava casa. Julinho, também conhecido por Pimpas é o personagem mais cómico da narrativa. É o burlão, o homem das mentiras. Tenta cravar sempre a pessoa mais próxima. Apesar disso é uma pessoa com bom coração, sempre disposto tomar conta do monguinho.

Tecnicamente há momentos deliciosos: o modo como são encenados os flashbacks e a simulação do plano de fuga (através do desenho de luz); a projeção e simulação de fuga à polícia por Isma; a coreografia e a representação no momento em que Lila explica a vida que leva e a que não quer levar; a transição entre cenas e atos dada pelos recortes noticiosos radiofónicos relativos às legislativas; e a morte de monguito, pelo difícil grau emocional de representação que a cena requer.

As palavras da literatura e do cancioneiro português são chamadas recorrentemente para ilustrar aquilo que os personagens são, não são, gostavam de ser ou gostavam de ter. Trè Bui Dòi, ou se preferir, pó da vida, remetia para os filhos que ficaram perdidos num tempo qualquer, encalhados num limbo que teima em atirá-los para um espaço à margem do paraíso. O argumento dá um claro puxão de orelhas a uma sociedade que reclama louros de inclusão mas que o que o melhor que sabe fazer é varrer o pó para baixo do tapete, ou para fora da porta do paraíso.

Quem lhe escreve é demasiado pequeno para conseguir transmitir a grandeza da peça. É talvez a melhor produção que o Gretua levou a cabo. A dimensão emocional da obra dirigida por Bruno dos Reis e Nuno dos Reis é tão profunda que será difícil alguma vez alguém digerir a estória na totalidade. A entrega de todo o grupo de trabalho reflete-se num quão fácil é passar duas horas numa sala de espetáculos, algo incomum nos dias que correm. A peça esgotou todas as datas e facilmente se percebe o porquê. Não é difícil formar públicos. O difícil é tocar-lhes no coração.

Acabou a peça. Entrámos na Porta Paraíso.

gretua

Fotografias de Carlos Teixeira

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