O que é e para que serve um amigo?

31 AGOSTO, 2017 -

Às vezes, as amizades inquebrantáveis vêm a revelar-se mais frágeis do que se poderia pensar, deixando a sensação de impotência, perplexidade e frustração.

A amizade é uma das vertentes mais importantes das relações interpessoais. Podemos dar-nos com muita gente no decurso da nossa vida profissional, de vizinhança, comercial ou em vários contextos, mas a amizade é diferente: obriga a um aprofundamento das relações, a um tempo de conhecimento e de aprendizagem, a uma exigência maior em rigor e qualidade, a critérios mais finos para “passar a malha”. De igual modo, força-nos a uma entrega e a um investimento muito maiores nas componentes do “dar” e do “receber”.

Os amigos representam, para as crianças (como para toda a gente, aliás), a segurança de que se é querido e que se tem, também, objetos e alvos para o amor. Os amigos obrigam a prescindir de parte da vertente egoísta da pessoa, a fazer sacrifícios e a partilhar e ter sentimentos “vivos”, como a alegria ou a tristeza, a realização e, quantas vezes também, a desilusão. Compartilhamos os sentimentos dos nossos amigos e sentimo-nos tristes quando eles estão tristes, e alegramo-nos com os seus sucessos. Este desenvolvimento de empatia é necessário para criar pessoas e cidadãos estáveis, altruístas e humanistas.

Ter amigos é ter também alguém com quem nos podemos realizar, através das vidas deles, enriquecendo-nos constantemente – ao vivo, e não nas inefáveis redes sociais.

Para a criança, um amigo é uma segurança, é um recurso para os momentos piores – verbalizar os problemas e “desabafar” são fatores protetores ao longo da vida, permitindo muitas vezes a resolução dos problemas. Para lá de serem, ainda, apoios nas brincadeiras, na descoberta e exploração do mundo e na vida relacional, os amigos também nos sabem dizer o que vai mal e está errado connosco – devem, aliás, ser os nossos mais “ferozes” críticos –, ajudando-nos a descobrir-nos a nós próprios, nas nossas potencialidades, mas também nas nossas limitações. Ter amigos é uma coisa que deverá perdurar pela vida toda e mais vale poucos e bons do que muitos e assim-assim ou do que milhares de pseudoamigos no Facebook, Instagram ou WhatsApp.

Quando a amizade mais sólida é quebrada…

Às vezes, as amizades inquebrantáveis vêm a revelar-se mais frágeis do que se poderia pensar, deixando a sensação de impotência, perplexidade e frustração. A tendência natural será culpar o outro, e descobrirmos que, afinal, nos enganámos acerca daquela pessoa. Mas será assim tão simples? Duvido que, na maioria das vezes, o seja. Assim, é essencial desenvolver um processo mental de reflexão, a frio, para procurar ver porque é que isso aconteceu. Que motivos levaram um amigo a negar (provisória ou definitivamente) uma amizade? Teria sido um excesso de expetativas, nunca realizáveis? Teria sido uma ilusão que, mais tarde ou mais cedo, acabaria por revelar a evidência? Terá sido apenas um abanão que está a ser, por motivos intrínsecos ou exteriores, maximizado e exagerado? Será que a “Dona Emoção” está a asfixiar completamente a “Dona Razão”? Seja como for, compete aos pais ajudar a criança a decantar o problema, analisando os vários comportamentos e tentando ver o que correu mal e se isso é ainda reversível. Se a criança fez algo de errado – mesmo que, a princípio, lhe seja sempre muito difícil assumir –, deverá ter consciência disso e pedir desculpa aos amigos. Estes, se forem verdadeiros amigos, desculparão e perdoarão (o que são coisas diferentes, note-se!).

Se a resolução da questão for impossível, vale a pena ajudar a criança a aprender os ensinamentos desse episódio, sem minimizar o sofrimento (porque foi uma perda importante e tem de ser sentida), mas de modo a que não perdure – novas amizades virão, e dessa que acabou há que retirar todos os ensinamentos, designadamente o que esses amigos nos ajudaram a melhorar o nosso eu.

Amizades duradoiras?

Na infância há amizades muito fortes, mas que têm tempo limitado e que acabam, por exemplo, de um ano letivo para o outro, mesmo que, passados anos e anos, se ache graça a revê-las, porque há sentimentos de pertença e uma série de códigos, histórias e “estórias” em comum.

Todavia, uma amizade não se força: desen-volve-se, vive-se, aceita-se, sofre-se com ela, partilham-se momentos bons e outros menos bons, e não deve ser obrigatória. Se não toleramos certas coisas a “amigos” é porque, provavelmente, não serão tão amigos como isso. A verdadeira amizade é um relacionamento de verdade, partilha, respeito e aceitação. Os nossos amigos são como são, e tentarmos constantemente mudá-los para serem da maneira que nos convém mais é não ter a noção da autonomia e do respeito que a amizade deve manter – e da identidade individual que as pessoas devem manter, seja numa amizade, seja numa relação de tipo conjugal, por exemplo. Se a amizade resiste à diferença, então as pessoas nela incluídas são mesmo amigas. Talvez por isso tenhamos poucos amigos a sério. Outra coisa são conhecimentos, “amigalhaços”, colegas…

Como poderão os pais intervir bem?

Os pais não devem criticar demasiado os amigos nem os grupos de pertença, embora possam analisar com os filhos algumas atitudes de algumas pessoas, e as dos filhos com essas pessoas. A amizade tem de ser compreendida no seu contexto e é um misto de lucidez e de emoção. Não podemos deixar que a lucidez nos dê demasiada racionalidade e intolerância, mas também há que sermos objetivos, até para ajudar os amigos quando temos de os criticar ou admoestar. Os pais podem ser solidários e interessados nos amigos dos filhos, mas têm de deixar uma reserva de intimidade a estes, porque não é necessário expor tudo na “praça pública”.

Os amigos são como nós próprios – é o que nos faz viver grandes entusiasmos e grandes deceções, alegrias e tristezas. Há quem prefira nunca se expor ou dar, com receio de poder vir a sofrer. Essas pessoas poderão conseguir esse registo, mas perderão também grandes emoções e paixões. O balancear do pêndulo é uma vertente da vida, que há que viver plenamente para nos sentirmos cada vez melhores e cada vez mais aperfeiçoados, tolerantes, humanos e completos.

P. S. Nas muitas aldeias periféricas ao local onde passei férias, havia festa quase todos os dias. Os foguetes lá estavam, diariamente, a par da música. O meu cão ficou a pensar se não haveria um agente da autoridade nesses bailaricos? É proibido lançar artefactos pirotécnicos neste agosto… e os guardas presentes nessas festas? Não intervêm? Ou só intervirão quando a aldeia estiver a arder?

Crónica do Pediatra Mário Cordeiro, parceria jornal i

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