O optimismo de Kafka

10 JUNHO, 2017 -

Kafka disse que não nos devemos preocupar com derrotas porque somos nós que as provocamos. Kafka disse que é fácil ficar em casa, levar uma vida corriqueira e afastar os inimigos ao pontapé. Kafka, apesar de toda reputação que ganhou, tem momentos de optimismo, embora raros.

Muito foi dito acerca dele. A sua relação castradora com o pai, a falta de apoio emocional por parte da mãe ou as algemas que o acorrentavam a um trabalho burocrático, sem alma nem gosto. Ligou-se a várias causas em vida, mas nunca se comprometeu totalmente a nenhuma. Sistemas dogmáticos de regras rígidas não mesclavam com o seu estilo.

A tuberculose que contraiu em 1917 obrigou-o a voltar para casa dos pais. Uma derrota pessoal de que nunca recuperou. No entanto, apesar das circunstâncias e da sua profunda infelicidade, é possível encontrar esperança em Kafka. Como eu encontrei. Não através de interpretações ou significados escondidos – as suas parábolas caem sob o peso de si mesmos quando as tentamos interpretar – mas sim com a análise do que criou e como perdura apesar de tudo. Um caso de sucesso alimentado pelo fracasso.

A maior parte do trabalho de Kafka tem elementos biográficos. Desde K. no Julgamento e Castelo ou Gregor Samsa em a A Metamorfose. Em tudo o que escreveu encontram-se traços do absurdo, do ridículo, do inexplicável e incompreensível que sentia em vida. No entanto, ao ler Kafka e a luta constante que as suas personagens travam contra um destino inexorável, é impossível não sentir um rasgo de empatia por elas e pela sua situação.

Em a Metamorfose, Gregor Samsa tenta a todo o custo voltar ao trabalho após acordar para um pesadelo em que se transformou num verme (ou barata segundo algumas traduções). A delusão vai tão longe que até tenta levantar-se em duas pernas e falar com o empregador que vai a casa da família reclamar com ele por ter faltado ao trabalho.

Gregor Samsa encontra conforto ao olhar para o material de trabalho, para a secretária e mala de viagem. Chega a um ponto em que equaciona ir dormir na esperança de que a sua condição de verme  tenha passado, como se de uma constipação sazonal se tratasse.

Este optimismo é ridículo, absurdo e completamente ofuscado pelas circunstâncias em que a personagem se encontra, mas, ao mesmo tempo, é suportado por uma racionalização grotesca. Gregor Samsa faz os possíveis para contestar a sua nova condição mas, no final, acaba por aceitar a sua vil vida de verme.

O momento mais célebre acontece quando a sua irmã Grete começa a tocar violino e Gregor tem um momento de introspecção. “Gregório arrastou-se um pouco mais para diante e baixou a cabeça para o chão, a fim de poder encontrar o olhar da irmã. Poderia ser realmente um animal, quando a música tinha sobre si tal efeito? Parecia abrir diante de si o caminho para o alimento desconhecido que tanto desejava. Estava decidido a continuar o avanço até chegar ao pé da irmã e puxar-lhe pela saia, para dar-lhe a perceber que devia ir tocar para o quarto dele, visto que ali ninguém como ele apreciava a sua música.” O seu lado animal é esquecido involuntariamente e age como se fosse humano de novo. A música desperta a sua humanidade. A mudança de Gregor Samsa não é só física, mas uma metamorfose mental, que vai e vem.

Há quem teorize que o verdadeiro estado de Gregor na Metamorfose é a “Morte”. Uma hipótese cimentada pela alcunha que Kafka deu à tuberculose terminal de que sofria na altura “animal”. Mas tanto Kafka como Gregor rejeitam o suicídio. Especula-se que a sua transformação em verme foi uma escolha de Gregor e que pode voltar a ser humano, se assim o escolher. No entanto, prefere a vida de verme, o menor de dois males.

O seu optimismo é fácil de encontrar no contraste entre e o desespero e desorientação que marcam todas as suas personagens e, por conseguinte, no leitor, que acredita, até ao final, poder encontrar um sinal de redenção no arco narrativo, ou uma moral abstracta na história que possa aplicar à sua vida. Kafka não oferece isso. A mensagem em Kafka nunca é lógica ou óbvia. Eu diria até que, muitas vezes, a mensagem é a ausência dela.

Que moral há para tirar da Metamorfose? A falta de lógica e o ridículo torna difícil encontrar algo abstracto que possamos usar no dia-a-dia. A determinação de Gregor é alimentada por um sentido de dever familiar que transcende as páginas do conto e encontra raízes na própria vida de Kafka. Tudo o que Gregor Samsa sempre quis foi tentar evitar que a sua família parasítica vivesse a mesma vida que ele e até nisso falhou. O objecto é o fracasso, a confusão e a vertigem que Kafka incute nas personagens que através do realismo e especificidade da sua prosa, ele transmite ao leitor. É um nó de palavras que aperta o estômago.

Franz Kafka é o mestre do fracasso

No entanto, em Kafka é possível encontrarmos um optimismo racional e levado aos limites do absurdo. Gregor Samsa tentou até ao final; amou – à sua maneira – a família, em especial Grete, a irmã e nunca esqueceu o lado humano que os sustentava. Há valor neste tipo de entrega, mesmo que seja unilateral e pouco saudável. Kafka ansiava por dar, mas agoniava pelo que não recebia.

A Metamorfose é o exemplo mais famoso, mas podemos encontrar arcos narrativos semelhantes em todos os seus trabalhos. Personagens condenadas ao fracasso com pouca visão do seu futuro e desfasadas da realidade, mas que continuam a tentar mesmo que o caminho seja um círculo ou uma espiral. Continuam a desempenhar o seu trabalho, a seguir em frente. Sem desistir.

Kafka é universal. Parece que vivemos num mundo cada vez mais burocrático, corporativo, sem cara ou coração, mas é por isso que devemos desistir? Mas não é o ridículo e absurdo parte do nosso quotidiano? Kafka ensinou-me que não é por algo estar condenado ao fracasso que não se deve fazer. Como Gregor Samsa transformado em verme, por muito ridículo ou fútil que seja ou pareça, temos sempre de encontrar a vontade para nos levantarmos e ficar de pé, em duas pernas.

A sua aceitação póstuma é apenas um detalhe para os anais da história. O tratado sobre o fracasso que Kafka deu ao mundo tornou-se intemporal e universal. O que me deu a mim…é impagável.

Artigo escrito por M.J. Cruz, autor de crónicas, contos, poesia e do romance de ficção científica Karl Rogers. Actualmente escreve no blog “Ósume Pósum”.

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