‘O meu nome era Eileen’, de Ottessa Moshfegh: um romance intrigante com suspense até ao fim

13 SETEMBRO, 2017 -

Nas velhas e sujas ruas de X-Ville (nome fictício), em Nova Inglaterra, Eileen Dunlop transitava ao volante de um velho “Dodge” entre casa, trabalho e as lojas onde comprava bebida.
Recebia 57 dólares por semana a prestar serviços de secretariado num centro particular de correcção de jovens. Depois do trabalho, voltava para a decrépita casa onde vivia mais o seu pai alcoólico. Os serões eram passados numa cama de campanha, situada no sótão, ou na cozinha, onde o pai afastava o frio invernoso com muito “gin”, “whisky” e os bicos do fogão sempre acesos. Aos domingos, passava o seu tempo dentro do “Dodge” estacionado junto à casa de Randy, um colega de trabalho por quem se sentia atraída. A dura realidade era ludibriada com constantes divagações sobre os colegas, especialmente sobre o desejado Randy, e com ideias de homicídio e suicídio. Quando Rebecca começa a trabalhar no centro de correcção, tudo se altera.
Eileen tinha 24 anos e, como a própria conta muitos anos depois, esta é a história do seu desaparecimento.

Ottessa Moshfegh (Boston, 1981), vencedora do Prémio PEN/Hemingway para melhor romance de estreia com “O meu nome era Eileen” (Alfaguara), utiliza as estratégias narrativas próprias do “thriller” para dar a conhecer uma invulgar rapariga, cuja história individual é indissociável das características familiares e sociais, ambas hostis às ideias de emancipação feminina.
Uma vez denunciado o epílogo logo no início do romance, o suspense fica dependente do motivo e da forma do desaparecimento.

Através das palavras da própria Eileen, fica-se a conhecer, paulatinamente, a mediocridade que a prendia. A tensão cresce conforme se vai sabendo o que se passava na vida da narradora.
Eileen vestia as roupas da falecida mãe. O seu corpo magro, mal nutrido e com falta de higiene, não era favorecido por aquela indumentária. No entanto, eram essas as poucas recordações da mãe que ela queria manter.
A Senhora Dunlop sofria de mudanças bruscas de humor. A alegria dava rapidamente lugar à raiva. O riso era substituído por impropérios e pontapés nas paredes.
Na relação com a filha, ficaram em relevo a sua doença terminal e a incúria.
Eileen tratou a mãe até esta morrer e continuou, depois, a cuidar do pai. No entanto, nem um nem outro tiveram qualquer atenção com as necessidades da filha.

“Quando era criança, a minha mãe nunca me preparou o almoço para levar para a escola. Eu costumava ficar sentada a olhar para os joelhos, com o estômago vazio e a roncar, enquanto as outras crianças comiam as suas sanduíches”.

Tapado o corpo sem vestígios de vaidade, saía para o frio invernal, enfiava-se no “Dodge” e ia para o trabalho. No centro de correcção, o seu pensamento ora incidia sobre os colegas, ora evadia-se. A morte, com todas as possibilidades de execução, era motivo de distracção. Sentia-se confortável quando pensava  em homicídio e suicídio. Uma pistola, uma faca ou até mesmo as estalactites do telhado proporcionavam várias hipóteses:  ”se tivesse inclinado a cabeça para trás, quiçá me tivesse entrado pela goela, desbastando o núcleo vazio do meu corpo – gostava de imaginar estas coisas – e abrindo caminho até às entranhas, acabando por me dilacerar as partes baixas como uma adaga de vidro.

No regresso a casa pensava, constantemente, se o pai se havia metido em sarilhos. Era costume andar bêbado pelas ruas. A polícia condescendia, pois o Senhor Dunlop era um ex-agente, compulsivamente reformado.
A embriaguez era a única forma de ele afastar os fantasmas e atenuar as paranoias. Os seus tremores faziam-no depender da filha. Era ela que lhe apertava os atacadores e lhe fazia a barba. Devido ao receio de ele sair sem aviso, Eileen fechava todos os sapatos na bagageira do carro. O pai não se atreveria a caminhar descalço pela neve.
Apesar de todo o apoio recebido, ele não tinha qualquer amor por esta filha. Rejeitava-a, rebaixava-a, escarnecia do seu corpo. As palavras de apreço eram dedicadas a outra filha, apesar de ela raramente o visitar. Aos olhos do pai, o pior crime que Eileen podia cometer era mostrar ”Indícios de vontade própria”. Tudo naquela casa suja, fria e degradada era executado a pensar no bem-estar dele.
Contextualizada por este ambiente familiar e social, Eileen Dunlop desenvolveu várias patologias.
Os seus períodos depressivos eram alternados com os de mania. A parte de que mais gostava das bebedeiras eram os momentos posteriores de ressaca. Sentia excitação e vigor –“actualmente chamam-lhe mania“, algo que não acontecia quando estava sóbria.

Socialmente, era uma inadaptada. Durante o período de trabalho, tentava passar despercebida, escondendo o asco que sentia por vários colegas. Só Randy, de quem era uma “stalker” dedicada, proporcionava fantasias agradáveis. Fora do trabalho, parava em lojas para executar pequenos furtos ou para comprar bebida. A sua principal companhia, até ao aparecimento de Rebecca, eram o pai e um rato morto, guardado no porta-luvas, do qual gostava de acompanhar a putrefacção. Ela só se libertava-se um pouco quando bebia.


A muito mencionada prisão de ventre é, na realidade,  associada a questões do foro psíquico. A ansiedade, ou, em casos mais graves, a repulsa de si mesmo, provoca os transtornos descritos no livro de Ottessa Moshfegh. O laxante, como o álcool, libertava Eileen. O interesse pelos aspectos mais escatológicos das outras pessoas tinha mais proximidade com questões psicológicas do que físicas:

Como facilmente se pode adivinhar, eu ficava facilmente excitada com os hábitos mais abjectos do corpo humano, e os assuntos relacionados com a sanita despertavam-me interesse. O simples facto de os intestinos das outras pessoas funcionarem deixava-me espantada. Sentia-me atraída por qualquer função do corpo que as pessoas escondessem por detrás de portas fechadas.

Apesar de todos os transtornos e ideias de morte, ela nunca desejou morrer. O seu objectivo era escapar daquela realidade.  Rebecca viria a ser preponderante na concretização dessa fuga. Pela primeira vez, Eileen sentia empatia com outra pessoa. Devido a isso, a preponderância de Rebecca foi sendo cada vez maior.

Naquela estranha criatura encontrei um par, a minha alma gémea, a minha aliada. Já me apetecia estender a mão com um corte e pronta para ser apertada num pacto de sangue; eu sentia-me assim tão impressionável e solitária

Rebecca é a solução para a sua ânsia de aceitação e de carinho.
É revelado, logo de início, que a narradora se liberta da mediocridade em que vive. A dúvida incide na forma como se liberta. E é para essa resposta que a escritora encaminha o leitor, paulatinamente, fazendo uma competente gestão da velocidade da narração e do “timing” para o desvendamento dos pontos mais importantes. Esta estratégia narrativa, básica mas eficiente, motiva o leitor a acompanhar a  história.

A sobriedade na aplicação dos recursos estilísticos dota o discurso de credibilidade. Apesar de ter frequentado a faculdade-que nunca terminou-, Eileen não é uma mulher com instrução acima da média. O seu discurso reflecte também a maturidade e a segurança que não tinha quando viveu o que foi narrado. Há uma grande distância entre a narração e ocorrência do evento. No momento em que narra, Eileen sente-se graciosa e longe daquela rapariga que outrora foi. Essas características parecem afastar a possibilidade de os seus sintomas existirem por herança genética. Afastada daquele ambiente, ela tornou-se outra.
Um dos grandes méritos de Ottessa Moshfegh é a complexidade com que dotou Eileen e o pai. Apesar de Rebecca ser fundamental na história, nunca atinge a riqueza emocional das duas personagens referidas.
Ottessa Moshfegh consegue manter o suspense até ao fim e entregar ao leitor um romance intrigante.

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