O melhor que vimos no Festival de Veneza

9 SETEMBRO, 2017 -

Abdellatif Kechiche celebra a juventude num filme dionisíaco, Paul Schrader aflora os pecados da Humanidade em First Reformed, e Frances McDormand dispara em todas as direções numa comédia muito negra. Uma escolha do que vimos e apreciámos na 74.ª edição do festival de cinema de Veneza.

Quando um festival chega ao fim e são anunciados os prémios, essa informação como que se cristaliza e apaga, por vezes, alguns dos melhores momentos que não chegam a ser mencionados. Por essa razão, recordaremos aqui o que de melhor vimos nesta dezena de dias intensos de muito cinema e poucas horas de sono.

Comecemos por aquele a quem nos daria o maior prazer em atribuir o Leão de Ouro. Mektoub: My Love: Canto Uno, o longo e emocionalmente intenso filme de Abdellatif Kechiche foi aquele que nos tocou mais forte e mais fundo, acabando por relativizar as três horas de duração. Durante esse tempo acompanhamos um grupo de jovens elegantes e bonitos em férias do verão, uma celebração dionísiaca da liberdade e o sol deixando que as suas hormonas se libertem. O mote é talvez a definição imprecisa do amor, em árabe, embora dominado pelo conceito de destino (mektoub). O que temos é um festim de sensualidade (sim, o sexo, como no controverso A Vida de Adèle, está bem presente), sedução e festa, observado por um jovem mais pacato, e também mais belo, que decidiu escrever um guião para cinema em vez de seguir o seu curso de Medicina. O contraponto apolónio? Sabe-se agora que esta será apenas a primeira parte de um conjunto de três Cantos. Uma história para concluir talvez lá para Berlim e Cannes do ano que vem.

Prosseguindo para o Grande Prémio do Júri, uma espécie de segundo lugar, saudar o regresso muito inspirado de Paul Schrader, com o surpreendente e intenso First Reformed, a aflorar os pecados da Humanidade, nomeadamente no que diz respeito ao universo. Ethan Hawke (que será o nosso melhor ator) no papel de sacerdote com problemas emocionais, acabará por passar a sua via sacra e mesmo vestir um colete com explosivos como se fosse um jiadista.

Ao mexicano Guillermo Del Toro ficará muito bem o prémio de melhor realização, por The Shape of Water, na sua revisitação do filmes de monstros em versão série B, com uma natural homenagem ao cinema clássico. Sim, uma espécie de O Monstro da Lagoa Negra, aquele mesmo que há muitos anos motivou uma experiência de 3D doméstico e provocou uma corrida aos óculos 3D nas papelarias. Agora com um look muito estilizado e, sobretudo, focado em relatar o sentimento da atualidade política (nomeadamente nos EUA).

Será que Deus nos irá perdoar?

Já a atriz que mais nos encantou foi mesmo Frances McDormand, no alucinado e delirante policial em versão comédia muito negra Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, armada em bitch from hell a enfrentar olhos nos olhos uma comunidade machista e racista, disparando o guião frenético de Martin McDonagh (também ele candidato ao melhor argumento) em todas as direções e arrancando frequentes aplausos durante a sessão. Os principais visados são os agentes da lei Woody Harrelson e Sam Rockwell, cujas orelhas teriam ficado a ardem de tanta difamação. Ethan Hawke arrebata a interpretação masculina num no papel em que mais sai da sua persona, assumindo uma composição em que parte de todos nós acabamos por estar incluídos, como o padre que reflete os desígnios dos homens. E de Deus até. Por isso, se questiona: «Será que Deus nos irá perdoar?».

Uma das narrativas mais tocantes foi a do filme israelita Foxtrot, de Samuel Maoz, vencedor do Leão de Ouro, em 2008, por Líbano, em que mostrava a guerra vista do interior de um tanque. Pois agora, poderemos até encarar a família como uma pequena unidade militar, a partir do momento em que oficiais tocam à porta para anunciar que o seu filho havia morrido em missão militar e tudo se desmorona. O trauma que se segue, os procedimentos e a leitura surreal após o primeiro impacto, justificam essa escolha.

O horror e a deceção

O Prémio Especial do Júri, talvez como prémio de mérito, vai direitinho para Jusqu’à La Garde, do estreante Xavier Legrand, ao encenar uma família desfeita pela separação e a luta pela custódia do filho, apresentado no último dia do festival, como que a surpreender-nos com um drama familiar que evolui até aos limites do horror. O que começa em tom quase documental, durante uma audição judicial acaba a fazer-nos recordar os momentos mais intensos de The Shinning, de Kubrick.

Por fim, uma chamadinha para a deceção do Festival: o vencedor é mesmo mother!, de Darren Aronosky (e que estreia já em Portugal no próximo dia 21) e o seu horror descontrolado e desconexo. Um filme que motivou as opiniões mais contrastadas de uma crítica dividida: das mais entusiásticas opiniões aos ataques mais violentos. Um filme sobre o qual ninguém quererá ficar sem opinião.

Há ainda o palmarés FIPRESCI, da crítica internacional, no qual contribuímos, com a atribuição do prémio da seleção Oficial para EX LIBRIS – The New York Public Library, de Frederik Wiseman, e ainda Los Versos Del Olvido, de Alireza Khatami. Estes sim, já oficiais.

Artigo escrito por Paulo Portugal / Parceria jornal i

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