O Homem que Grita Televisão: ‘Game of Thrones’

23 AGOSTO, 2017 -

A televisão existe há mais ou menos 100 anos. Hoje, é um misto de conteúdos originais e formatos repetitivos,
de utilidade e entretenimento, de qualidade e mediocridade. É, de forma geral, um meio banal. No entanto, ao
longo da tão rica história foram surgindo obras diversas que se destacaram, que marcaram cultural e socialmente
países, épocas, gerações. Sempre que isso aconteceu, sempre que isso acontece, a questão impõe-se: será a
televisão uma forma de arte?

Não fujam, estão livres de perigo. É sabido, qualquer pessoa que encontre um texto acerca de Game of Thrones poderá temer uma de duas coisas: malfadados spoilers ou incompreensível histeria. Aqui não. Não sabotarei nem enlouquecerei – o objectivo é que este texto seja lido por quem viu e quem não viu; quem gosta e quem odeia (ou acha que odeia) a série. Ora, num dos episódios de uma das temporadas da Guerra dos Tronos, há um casamento que se tornou na mais famosa cerimónia matrimonial da TV. O “Red Wedding” é, talvez, a cena mais memorável de um dos programas mais populares de todos os tempos. No entanto, a ideia não é inteiramente original. Com efeito, George R. R. Martin, autor da série literária que originou a série televisiva, inspirou-se no infame Black Dinner de 1440, acontecimento real da História escocesa.

Game of Thrones estreou na HBO em 2011, criado por David Benioff e D. B. Weiss. É a adaptação da série literária “A Song of Ice and Fire”, cujo primeiro volume, “A Game of Thrones”, foi publicado em 1996. O sucesso estrondoso dos livros pedia uma daquelas adaptações comercialmente apetitosas, mas o caminho parecia improvável dada a complexidade e tamanho da obra. No entanto, em 2001 Peter Jackson adaptou outro épico de fantasia famoso das páginas para as câmaras. E, com o sucesso d ‘ “O Senhor dos Anéis”, a adaptação de Tronos parecia, afinal, viável.

Nem foi imediato, nem foi fácil. No final, não correu mal. Game of Thrones é discutivelmente a série com mais sucesso de todos os tempos, com o maior número de prémios ganhos e de espectadores acumulados; um fenómeno cultural e financeiro único, que impulsionou economias (um abraço para quem nos lê da Irlanda do Norte ou Islândia) e acelerou revoluções. Mediáticas, compreenda-se. A Netflix era um sistema de aluguer de filmes e a Amazon um gigante de vendas online – hoje são premiados por conteúdos “televisivos” originais, disponibilizados de forma inovadora aos espectadores – completos, de uma só vez. Um apelo comercial crescente, assim como o vício das pessoas nas suas “histórias” e a explosão criativa de uma “era dourada” – são os novos caminhos do meio que “Tronos” tanto ajudou a destapar.

“Então a Guerra dos Tronos é um Senhor dos Anéis na TV?”, perguntam vocês. Acho bem, esta interacção. Atirem perguntas sempre que quiserem. Na verdade, a resposta é não. Apesar de encaixar no género da “fantasia”, a comparação recorrente à saga de “O Senhor dos Anéis”, e a uma série de obras semelhantes, é exagerada. Com efeito, Tolkien é uma das grandes influências na obra de George Martin e, com certeza, alguns elementos são familiares. Mas esta história é outra. A reverência de Martin é expressada não em homenagem, mas como amigável confronto. Uma espécie de lado B da visão Tolkiana. A distinção clara entre o bem e o mal, e respectiva luta, e a base de fantástico e criaturas imaginárias que distinguem a saga do Anel são por Martin completamente subvertidas.

Mas isto não tem dragões e dragonas? Mau… dizem vocês. Já lá vamos. Assim, não é esta a obra de referência de George R. R. Há outra leitura que nos transporta imediatamente para o tom e tema de “Tronos”. A Guerra das Rosas foi uma série de batalhas pelo poder dinástico em Inglaterra, entre 1445 e 1485, que colocou frente a frente as casas de Lancaster e de York. O resultado foi o surgimento do primeiro monarca da casa de Tudor, Henry VII, e a implantação de uma nova dinastia; o fim da idade média em Inglaterra e os primeiros passos do caminho inglês para o renascimento.

Em Game of Thrones, as duas “casas” rivais inicialmente chamam-se Lannister e Stark. E uma terceira “casa” que reclama o direito ao trono chama-se Targaryen. Não é um acaso. GOT tem a narrativa profundamente enraizada na História – britânica, francesa, grega, entre muitas outras -, uma espécie de realismo medieval. Muitos historiadores defendem até que a obra de Martin e a série de Benioff e Weiss são mais realistas que alguns romances históricos. Mais: todo o universo criado tem um suporte narrativo forte – o passado deste mundo, como o do nosso, está perfeitamente delineado. Um dos extras dos DVD’s de Tronos é uma animação narrada pelos actores da série dos acontecimentos passados desta “História”. Neste link fala-se dos acontecimentos que antecederam o início da série. Dêem uma espreitada, porque está aqui público, mas adquiram os DVD’s porque… a lei.

Então e os zombies brancos? Ai, ai, ai… dizem vocês. Já lá chegamos. Para explicar como o bem e o mal funcionam em GOT, Martin cita frequentemente William Faulkner, que dizia “A única coisa sobre a qual vale a pena escrever é o conflito entre coração humano e ele próprio.” Assim, o bem e o mal não são apresentados da banal forma herói vs vilão. É, sim, uma lista de características positivas e negativas que cada personagem completa. Martin despeja as tintas branca e negra, e pinta quase tudo de cinzento. E o quadro de personagens é magnífico. Há qualidade e quantidade, diga-se, tingido com alguma da mais sedutora empatia, e selecta vilania, alguma vez transportadas para a televisão, cinema ou coisa que os valha. E, para isso, o autor usa o mais importante pincel de histórias – a História.

A produção é como nunca houve. Gradualmente aumentando de temporada para temporada, como o sucesso, o orçamento permite actualmente fazer coisas dignas do grande cinema americano. Com as filmagens espalhadas um pouco por todo o mundo, e um dos melhores trabalhos de guarda-roupa, efeitos especiais, fotografia e até genérico alguma vez vistos no audiovisual, Game of Thrones conta uma grande história e mostra uma grande história. Benioff e Weiss deram uma doce vida às palavras de Martin, com um nível de grandiosidade irrepetível em televisão. Fica abaixo um link de uma cena da temporada 6, para quem já viu e para quem não quer saber. É uma das mais extraordinárias cenas de guerra alguma vez filmada, composta por um dos planos mais belos que qualquer ecrã já mostrou.

Então e a magia… Calou! Uma pessoa dá-vos a mão e vocês levam logo o braço. Acabaram as perguntas. É verdade – há magia, e há dragões, e há zombies. Da mesma maneira que noutros clássicos televisivos há máfia, ou publicidade, ou droga. É um pequeno elemento de uma história profundamente humana, psicológica e moralmente complexa sobre poder, família, política, amor, legado. Mas é essa raiz histórica que sustenta a ficção: o uso de acontecimentos reais, de construções verdadeiras, de figuras que existiram. Nota-se em quase tudo, até numa inovação chocante para uma indústria de hábito e repetição – qualquer personagem pode morrer a qualquer momento. E mesmo não sendo fácil manter este calibre narrativo até ao final da série – o material publicado até agora por Martin acabou na temporada 5 e, embora o escritor seja consultor e indique os desenvolvimentos definitivos, faltará o detalhe que as longas obras sempre emprestaram à irmã mais nova -, a recta final será uma experiência alucinante para quem está investido.

A série é coisa das grandes histórias – a forma elementar de interacção e entretenimento. Uma história contada como a História foi, enquanto a História é contada como as histórias são. É narrativa, mitologia, surpresa. Porque os Reis não precisavam de ter cognome, nem certas batalhas de ter nome. Têm porque é colorido e económico. Mas quando a nobreza ia cagar, ou quando o clero ia rezar – isso não queremos mesmo saber, nem ninguém nos quer contar. Sabemos o que importa e o que é interessante – porque explica, cativa e facilita a assimilação. Da mesma maneira que existiu uma “War of the Three Henrys” ou um “Merciless Parliament”, na realidade, Tronos criou uma “Battle of the Bastards” e uma “War of Five Kings”. As histórias não devem apenas divulgar factos – devem encantar. Todo o tipo de histórias. E o melhor exemplo é a História.

Game of Thrones é isso. É o real e o mito, o épico e o íntimo, é Hollywood e “autor”. É coisa das grandes histórias. Vejam, mas calma com a histeria.

Artigo escrito por Luís Figueiredo

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