O Homem que Grita Televisão: ‘Curb Your Enthusiasm’

26 JULHO, 2017 -

A televisão existe há mais ou menos 100 anos. Hoje, é um misto de conteúdos originais e formatos repetitivos, de utilidade e entretenimento, de qualidade e mediocridade. É, de forma geral, um meio banal. No entanto, ao longo da tão rica história foram surgindo obras diversas que se destacaram, que marcaram cultural e socialmente países, épocas, gerações. Sempre que isso aconteceu, sempre que isso acontece, a questão impõe-se: será a
televisão uma forma de arte?

Alan Dershowitz é um famoso professor de Direito em Harvard, cuja opinião em questões de política internacional é respeitada globalmente. É também um fã da série Curb Your Enthusiasm, de Larry David – conhecido co-criador da série Seinfeld. Conta o professor que, depois de ver o terceiro episódio da oitava temporada de Curb, “Palestinian Chicken”, enviou imediatamente o episódio a Benjamin Netanyahu, insistindo que o Primeiro-Ministro israelita assistisse ao episódio na companhia do líder Palestiniano Mahmoud Abbas. Para Dershowitz, gargalhadas eram certas e, assim, o reinício das negociações de paz possível.

Curiosamente, Larry David nunca foi conhecido pelo seu lado diplomático. Na verdade, antes de Seinfeld, David era um humorista pouco popular, mais famoso pelas sessões de insultos ao público nos clubes de comédia que propriamente por deixar as plateias a rir. O comediante conta até que, depois de um “set” de comédia, os “olheiros” do Tonight Show, na altura apresentado pelo lendário Johnny Carson, aproximaram-se dele apenas para dizer que nunca iria ser chamado para o programa – que o apresentador e público não iriam gostar de David.

Apesar de tudo, o talento de Larry era reconhecido num grupo – os comediantes. Com uma escrita distinta e uma visão invulgar, era apreciado nos meandros do stand-up. Foi nesse meio que conheceu Jerry Seinfeld, cuja carreira fazia a curva inversa: um comediante popular, frequentador comum dos programas do late night americano a quem ofereceram uma série para desenvolver. Sem ideias, e sem parceiro, Seinfeld convidou David para escrever com ele.

O resto é História, como dizem. Pessoalmente, não costumo dizer. Tirando desta vez. A “série sobre nada” fala de tudo e é um pilar da cultura popular dos anos 90. Mais, é uma agressão épica aos manuais da sitcom, com uma equação irrepetível de premissa banal mais personagens desagradáveis. Um problema que a escrita e a representação resolveram. Depois de um arranque “de culto”, a série tornou-se no entretenimento favorito da América, revolucionando a estrutura narrativa e os temas da comédia em televisão. No pico da popularidade, e numa altura em que televisão da América ainda era muito “virgem”, a série “brincou” com orgasmo feminino, masturbação e homofobia. Not that there’s anything wrong with that.

Depois de Seinfeld, Larry David era o mesmo homem noutro mundo. Rico e popular, Larry continuou a ver a vida da mesma maneira neurótica, egoísta e inconsequente. Curb Your Enthusiasm é o resultado disso. Partindo da ideia de regressar ao stand-up tornada falso documentário tornada série, Curb surgiu como um relato ficcionado da vida de Larry pós-sucesso.

A série foi uma evolução do que Seinfeld era. A nova conta partia dos mesmos números, mas somava uma dosezinha de esteróides criativos e total liberdade de tema e linguagem (canal cabo – HBO). O resultado: uma obra-prima absoluta.

Vamos por partes, que depressa e bem ouvi dizer que não há quem. Pessoalmente, não concordo. Tirando desta vez. David, aliando a falta de experiência dele e da equipa a um talento narrativo ímpar, criou em Seinfeld uma estrutura narrativa inovadora que permitia que cada personagem tivesse uma história a cada episódio que eventualmente iria concluir de forma bombástica, “chocando” com outra ou outras. O esqueleto do guião era fundamental na estratégia cómica do autor. E, tendo em conta essa estratégia, certas cenas de Seinfeld como que se escreviam por si próprias – a premissa era tão óbvia, que o processo criativo se tornava irrelevante. Acreditando no potencial da estrutura cómica, Larry desistiu de ter guiões em Curb. Deste modo, David desenvolve as histórias, criando outlines que definem o caminho das narrativas e respectiva conclusão, sobrando para os actores poucas indicações e muito improviso.

Assim, o trabalho criativo e a escolha de actores tornam-se irmãos no processo de desenvolvimento de cada cena, episódio ou temporada, fazendo com que o efeito cómico seja alcançado quase sempre de forma surpreendente. Fica um exemplo de uma cena no qual as indicações dadas eram: referência a outras mulheres e um pedido de lealdade a David.

Muitos temas sensíveis são abordados durante a série. Nunca de forma polémica, atente-se; ninguém quer resolver nada. Parte-se, sim, de uma visão juvenil, ingénua, cómica – as complexas questões raciais, religiosas, ou de género, por exemplo, desconstruídas à vista de certas e absurdas convenções. Como um deficiente em cadeira de rodas que passa a estrada a olhar para o telemóvel e é acusado por Larry de ser um condutor perigoso; como um homem negro que acusa David de ser racista por tê-lo visto a trancar o carro só por estar um homem negro por perto; como uma mulher que pergunta, depois do marido pagar um jantar a Larry, se este não lhes agradecia – Larry, claro, agradece ao marido, mas recusa-se a agradecer à mulher que não trabalha. Coisas muito básicas, mas nem por isso muito parvas. São questões essenciais para David e, curiosamente, ficamos quase sempre de acordo com ele.

Recupero ainda outro momento de Curb – a cereja no topo do bolo, como é costume. Pessoalmente, pôr uma cereja em cima de um bolo… por favor, nem lógica tem… corta-se uma fatia da cereja também? Quem é que inventa estas expressões? Mas faço-o, desta vez. Durante uma festa numa piscina, Larry repara que o filho do anfitrião tem um pénis extraordinariamente grande. O Larry real costuma dizer que, na série, ele protagoniza o tipo que gostava mesmo de ser. Porque, na realidade, o senso comum impede muitas conversas, comentários, confrontos. O Larry David da série diz tudo o que pensa, por mais idiota que possa parecer. Então, voltando à festa na piscina, Larry vai ter com o anfitrião e diz, em tom de elogio, qualquer coisa como “então, o teu filho… excelente pénis que ele apresenta…”. A reacção do pai e anfitrião, como seria de esperar, foi de nojo e ofensa. Mais tarde, questionado por outro personagem porque tinha dito aquilo, a resposta de David foi simples. “Arrisquei.” Simples, mas ao mesmo tempo, de forma quase filosófica, brilhante.

Arrisquei. Larry David arriscou. Na série e na realidade. E, com efeito, não é assim que se cria grande televisão? Não é assim que se cria grande arte?

Texto de Luís Figueiredo

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