O genérico de ‘Stranger Things’

6 SETEMBRO, 2016 -

Há algo que se destaca de forma imediata na visualização da série Stranger Things: o título de abertura. Este artigo pretende dar a conhecer muito levemente algumas da virtudes do design e tipografia do genérico desta série da Netflix, os quais ajudam a um espectacular pastiche  obra que imita abertamente o estilo de outros escritores, pintores, músicos, entre outros – da cultura pop dos anos 80.

Estamos sentados no sofá e subitamente temos uma introdução que dita perfeitamente o ambiente da série, sem necessidade de recorrer a actores, nem a grandes realizações. Esta sequência, realizada pelo estúdio Imaginary Forces, é de especial primazia e absurdamente simples.

O neón vermelho aparentemente abstracto toma o ecrã, revelando depois de vários close ups o título da série que se move de forma lenta e hipnótica. Os close-ups são de tal maneira próximos que é possível observar as diferenças tonais e o ruído visual, quase sufocantes de tão próximos. Os criadores desta sequência, sob a direcção dos Duffers, quiseram reviver a estética sci-fi/horror , bem típica do anos 80, utilizando no título a tipografia ITC Benguiat para invocar o tom nostálgico presente nos livros de Stephen King e nos filmes de Spielberg, que utilizam esta e outras tipografias semelhantes.

A origem desta tipografia é curiosa, apresentamos de seguida uma breve contextualização histórica. Nos finais dos anos 70, um amigo de Ed Benguiat pediu-lhe um favor: a criação de um novo logótipo para a loja de um amigo seu. Apesar de ser um trabalho não pago, tratando-se do pedido de um amigo, o designer deu algumas ideias, as quais foram recusadas. A meio deste processo, que se revelou algo longo, Benguiat concebeu uma abordagem à proposta do amigo que lhe agradava particularmente. Apesar do cliente rejeitar também este design e escolher outro tipo, esta tentativa não foi esquecida, tendo sido guardada para ser utilizada com outro propósito. Como o logótipo só implicava algumas letras começou a desenhar as restantes num estilo parecido, tanto no tempo livre como no estúdio onde trabalhava sob a alçada de Herb Lubalin, que não vendo justificação prática para este trabalho extra desencorajou a continuação de esboços. Benguiat parou, mas tendo já investido tanto esforço retomou mais tarde o trabalho; pouco tempo depois submeteu-o ao ITC Typeface Review Board, uma companhia tipográfica. Esta companhia rejeitou o trabalho, que foi alterado e submetido mais três vezes até ser aceite, tornando-se assim a ITC Benguiat um trabalho icónico que foi utilizado na capa do álbum “Strangeways, Here I Come” dos The Smiths, na capa da série de livros “Choose Your Own Adventure”, em alguns filmes da saga Star Trek e até mesmo no aviso anti-pirataria do FBI nos filmes da Paramount.

Retomando o tema inicial do genérico, para complementar o título utilizam a tipografia geométrica Avant Garde nos créditos exibidos no centro do ecrã, compostos entre as junções da letras em néon. Tudo isto é reforçado por uma óptima manipulação da luz e de uma paleta cromática misteriosa e soturna. É francamente refrescante e ousado ver um trabalho tão óbvio e puro, numa altura em que as sequências televisivas tem abordagens cada vez mais complexas. Estas últimas não são más, no entanto o simples dá muito que falar.

A segunda temporada de Stranger Things ainda não tem datas confirmadas, mas deverá estar disponível no próximo Verão, tendo em conta os timings da primeira temporada.

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