O Gajo: ‘Tattoo de manhã, ensaio à tarde, e família à noite’

13 NOVEMBRO, 2017 -

João Morais descobriu a viola campaniça em Beja, por acaso e através de Paulo Colaço, que abria para um concerto dos Gazua. É a partir desse feliz encontro que nasce O Gajo e desde o início do ano João Morais deu já mais de uma centena de concertos. Antes de tocar no Vodafone Mexefest, O Gajo passa por Aveiro, no próximo dia 17 de Novembro, no GrETUA, para nos apresentar o álbum “Longe do Chão“, lançado em Maio deste ano.

Em 1988 começou o seu percurso no mundo da música. Após três décadas, quais são as maiores diferenças que sente enquanto músico?
Tendo em conta que pelo meio destes 30 anos surgiu a internet… as diferenças são abismais! Passou a ser mais simples chegar às pessoas. A Tecnologia também evoluiu muito e podemos agora gravar um disco em casa.
Antes tínhamos de ir para estúdio bem ensaiados pois a gravação era feita em fita analógica e não dava para corrigir erros…
Sou designer e a esse nível também estamos agora com a vida facilitada pois a imagem das bandas pode ser muito mais aprimorada. Ou seja, mudou quase tudo menos o que se passa dentro de nós e nos movimenta. O amor à música e à necessidade de nos exprimirmos. Interiormente eu sinto a mesma energia que sentia a 30 anos e a guitarra continua a ser o meu melhor meio de expressão.
Um dos lados negativos da chegada da Internet e que na minha opinião teve um impacto negativo na Música em geral é que por estarmos ligados ao mundo, também mais facilmente nos formatamos às tendências exteriores e perdemos aos poucos a nossa personalidade. Falo como músico que cresceu a ouvir música Americana e Inglesa.

Descreva um dia na vida d´O Gajo?
O dia normal, sem ser em modo concerto, é bastante rotineiro. Tattoo de manhã, ensaio à tarde, e família à noite.
Ter um dia-a-dia rotineiro ajuda-me a dar espaço à criatividade. O decorrer do dia não me faz pensar muito e quando pego na viola estou mais disponível para mergulhar na criação. Digamos que há uma rotina física contrariada por uma explosão mental.

De que forma é que o universo das tatuagens se relaciona com o da música?
As tatuagens deram-me autonomia e isso beneficiou de forma radical a minha entrega à música. Também tive oportunidade de entrar em contacto com muitos músicos e artistas e é sempre bom ouvirmos outras histórias para nos inspirarmos. As tattoos também são uma espécie de porta para o interior das pessoas e nesse aspecto acho que tirei um grande curso de vida nos 19 anos que tenho desta profissão.

Este projecto acaba por se traduzir numa fusão de vários géneros, um híbrido, tornando-se difícil de categorizar.
A parte da categorização é uma preocupação da Indústria e não do Artista. Antes não havia Impressionismo ou Cubismo… alguém teve de criar nomes para os novos estilos que iam aparecendo e não foi com certeza o Van Gogh ou o Picasso (respectivamente) a lembrar-se disso. Somos o reflexo do que nos rodeia e eu fiz sempre questão de estar rodeado por coisas muito variadas.

Pessoalmente, como é que o descreveria?
Como ouvinte de música, acho que juntaria o meu CD aos CDs de “Música do Mundo”. Este estilo tem muito a ver com as zonas de origem dos projectos. Vamos ouvir música do Mali, da Índia, do Perú, etc… Os artistas não são secundários mas a nacionalidade tem muita importância. Eu gostava que em qualquer parte do mundo O GAJO fosse identificável com Portugal.

Criar um projecto instrumental foi algo consciente?
Foi totalmente consciente. Achei que a Viola Campaniça tinha riqueza suficiente para fazer “cantar“ o projecto. Nos Gazua gravei 5 discos todos com letras minhas e escrever letras com conteúdo é um trabalho às vezes penoso. Talvez tenho também querido descansar desse processo.

O que espera deste concerto em Aveiro?
O Gajo é um projecto recente e cada concerto é uma novidade a vários níveis. Não estive ainda a tocar em Aveiro e sinceramente não sei bem o que esperar. Os concertos têm corrido bem até aqui e espero que em Aveiro não seja diferente. Tenho tido muito bom feedback sobre o GrETUA e por isso vou com a “missão” de não defraudar expectativas. De Lisboa levo muito empenho, suor e algumas caretas.

Entrevista de Teresa Queirós

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