O frenesim dos fazedores de opinião

21 JUNHO, 2017 -

Sabemos que há pessoas para quem o ruído é incomodativo, outras para quem não é. Na verdade, ele não se revela negativo em nenhum dos casos. Nos últimos, porque é o seu habitat natural. Nos primeiros, porque, apesar de o contestarem, como não contêm o seu frenesim interior, acrescentam mais ruído ao próprio ruído inicial. Uma espécie de câmara de eco é levada a cabo nos mais diversos espaços opinativos, quer sejam reais ou virtuais.

A única forma de evitar o ruído não é impor o silêncio aos outros, ainda que a tentativa seja de aconselhá-los sobre o demasiado barulho que fazem. O silêncio consegue-se, como noutros casos, dando-se o exemplo. Projectar a nossa própria inquietação é uma das formas mais usadas para perpetuar o contínuo rebuliço, mesmo que as pessoas em causa não o entendam.
Para elas tudo é ruído: o que lhes motiva indignação, a sua contribuição contra a qual ironicamente se revoltam e, por mais estranho (ou talvez não), o derradeiro silêncio por que tanto ambicionavam.

Nesse sentido, não farei agora a defesa de uma minoria, como se houvesse para todos os assuntos sempre um grupo restrito de pessoas (a que por inerência eu pertenceria), virtuoso e imaculado, longe dos problemas e imune às fraquezas humanas.
Não só essa minoria não existe, como penso que a maioria, sempre dita incapaz e inútil, é igualmente fruto da imaginação dos fazedores de opinião. Constroem-se moinhos de vento que nada mais são do que reverberações de questões ou necessidades interiores que, em nos próprios, existem por resolver. Dessa forma, não começarei a frase com «raras são as pessoas» sensatas e inteligentes, como se tivesse a meu lado uma calculadora que fizesse, em segundos, um cálculo estatístico sobre o número de pessoas que reflecte correctamente sobre estas questões.

Mas, não a tendo, arrisco (também eu), especulativamente, fazendo um diagnóstico: apesar de, cada vez mais, existirem fazedores de opinião, mais ou menos, credenciados, acredito, ainda assim, e de forma optimista, que eles não constituem felizmente a maioria. A maioria mantém-se, curiosamente, silenciosa, muitas vezes, no cumprimento das suas obrigações diárias. Por isso, começarei a frase por «raras são as pessoas» que não fogem da confusão destes espaços opinativos.

Trata-se por isso de uma visão optimista que é provável que não tenha boa aceitação num meio que vive da descrença geral causada por uma decepção literariamente muito profícua.

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