O feitiço virou-se contra o aprendiz de golpista

24 MAIO, 2017 -

Grande novidade, Michel Temer é um bandido. Enquanto Dilma continua a ser a única sem acusações, ele e outros golpistas foram acusados de corrupção, organização criminosa e obstrução à justiça por tentarem impedir a Operação Lava Jato.

Em 2015, Michel Temer utilizou duas peças-chave no tabuleiro do golpe contra Dilma Rousseff: Eduardo Cunha e a Rede Globo. O primeiro é um corrupto com provas dadas que foi feito presidente da Câmara dos Deputados para apressar o impeachment; a segunda é a famosa estação televisiva que encabeçou na imprensa a defesa do golpe e a campanha de instrumentalização política da Operação Lava Jato.

Dois anos passados, Eduardo Cunha é preso, Michel Temer é gravado a autorizar um suborno para o calar, a Rede Globo dá a notícia em primeira mão e tudo desagua numa enchente de pedidos de impeachment do presidente golpista. A reviravolta na política brasileira encheu-se de deliciosas ironias.

No meio da trama está Joesley Batista, um dos homens mais ricos do Brasil. O açougueiro que subiu a magnata da alimentação esteve envolvido em esquemas de subornos e corrupção e acabou por fazer um acordo com a justiça para denunciar o presidente. Ainda o Brasil acordava para o escândalo e já Joesley estava na sua casa da Quinta Avenida com os dólares que comprou na véspera, prevendo a agitação financeira.

Com humor, a série norte-americana “House of Cards”, um drama político sobre um congressista sem escrúpulos à conquista da Casa Branca, desabafou no seu Twitter oficial que “‘tá difícil competir” (com a política brasileira). A diferença é que, ao contrário do suspense da série, a realidade do Brasil não surpreende ninguém.

Grande novidade, Michel Temer é um bandido. Enquanto Dilma continua a ser a única sem acusações, ele e outros golpistas foram acusados de corrupção, organização criminosa e obstrução à justiça por tentarem impedir a Operação Lava Jato. Na tragédia do Brasil, o golpe revela-se como farsa: não passou de uma conspiração para fugir à justiça e impor uma agenda de cortes, privatizações e selvajaria laboral que foi prometida aos patrões e à alta finança em troca do poder.

Às várias claques do golpe resta agora assobiar para o lado e fingir que nunca foi nada com eles. Em Portugal farão de conta que Temer nunca teve simpatizantes, como no Brasil a direita e as elites tentam agora apagar-se das fotografias que publicaram nas redes sociais ao lado dos golpistas corruptos. É a velha história do navio e dos ratos.

Tudo indica que o fim de Temer está próximo, mas isso não significa o regresso à normalidade democrática. É preciso que Temer desocupe a cadeira que nunca lhe devia ter pertencido e se dê lugar à democracia. É verdade que a Constituição não prevê eleições antecipadas, mas seria fatal confiar a eleição indireta de um substituto aos mesmos deputados e senadores fora-da-lei que elegeram Cunha, depuseram Dilma e empossaram Temer.

Há várias agendas em disputa na agonia brasileira. A direita quer desfazer–se de um governo moribundo para tentar salvar as impopulares reformas que ficaram pelo caminho: aumento da idade de reforma, generalização da precariedade e um novo código laboral com mais poder para os patrões. O PT continua a contas com o saneamento dos seus próprios corruptos e a esquerda ainda está à procura das mobilizações que podem dar força a um projeto alternativo. Tudo isso se verá mais à frente.

Para já, diretas. Para não ficar entalado entre o golpe e o justicialismo que entrega a política aos tribunais, o Brasil precisa de se reencontrar com a democracia, apurar maiorias e escolher governantes com legitimidade democrática. Eleições gerais e diretas, devolver a decisão ao povo, era uma reivindicação justa quando se confirmou o impeachment de Dilma, mas agora é mesmo a única saída possível. #foratemer

Crónica de Joana Mortágua, publicada no nosso parceiro Jornal i

Comentários

Artigos que poderão ser do teu interesse

ARTIGOS RELACIONADOS