O falso elogio

22 FEVEREIRO, 2017 -

Não é certo que um elogio dignifique uma pessoa, porque uma das formas de tornar alguém visível é fazê-la acreditar no contrário.

Como na novela do livro «Decameron», em que é narrada a história do néscio Calandrino, que é enganado por dois amigos a respeito de uma pedra que um deles garante ter o poder de conferir invisibilidade.

Ao contrário da crítica, o elogio deve ser sempre encarado como uma opinião refutável. A isso se chama autocrítica. Sem este último predicado, seríamos como Calandrino, depositando total confiança numa pedra que nos confere um suposto poder.

Da mesma forma que não questionaríamos a veracidade do atributo que o amigo confere à pedra, também não poríamos em causa um elogio que nos é feito de fora.

Não pôr em causa um elogio que nos é feito, é uma forma de atribuir um poder especial a alguém: o poder de essa pessoa nos ver mais aprofundadamente.

Não é por acaso que costumamos guardar aqueles que consideramos, apesar de tudo, elogios verdadeiros. Porque dizê-los, é comunicar o que de mais interior há em nós: é confessar que a autoconfiança não emana apenas do interior, mas que depende, também, do exterior.

No caso de Calandrino, a autoconfiança foi instalada por um amigo esperto que o enganou, chamado Maso del Saggio. Calandrino fez as maiores enormidades sob o escudo de uma invisibilidade que, afinal, não existia. Também nós podemos cometer os maiores despropósitos a coberto de um elogio não merecido.

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