O estranho caso da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto e a Zippy

19 JANEIRO, 2017 -

Numa que é considerada das 50 melhores faculdades de arquitectura da Europa, a Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, a mesma que formou os dois únicos Pritzkers da Arquitectura Contemporânea Portuguesa, Álvaro Siza e Eduardo Souto Moura, vive-se actualmente um clima de frustração e de sentimento de desrespeito para com o ensino da arquitectura e para os estudantes de arquitectura. O mais recente motivo de polémica foi em torno do uso (ou desuso) do Pavilhão Carlos Ramos (o primeiro edifício da faculdade projectado por Siza Vieira). No passado dia 18 de Janeiro de 2017, este serviu de local de lançamento da colecção de roupa infantil Primavera/Verão da Zippy, evento exclusivo e privado da Sonae.

Pelas obras de reabilitação do conjunto edificado serem há muito desejadas por todos, a falta de espaço para o bom funcionamento das actividades lectivas tem sido compreendido. No entanto, coloca-se a seguinte questão: se afinal o pavilhão ainda possui condições de uso, por que não foi – e ainda não é – disponibilizado para uso da comunidade escolar como, por exemplo, espaço de trabalho até começarem as intervenções?

Em resposta à Associação de Estudantes (AEFAUP) a 19 de Janeiro, a direcção da FAUP justificou a permanente interdição ao uso do espaço com os problemas de canalização (apesar do edifício ter sido usado durante 3 dias pela Zippy para actividade comercial).

É lamentável, e de certa forma anacrónico, que um dos espaços mais emblemáticos da Faculdade, pelo ambiente académico que propicia, se veja ser desvirtuado da sua função como espaço de trabalho, que tanta falta faz actualmente aos estudantes.

Tanto nas redes sociais como na própria faculdade, é notório o desagrado dos estudantes e da restante comunidade escolar, relativamente ao ocorrido. Apesar das necessidades que uma faculdade possa ter, não deveria ter de recorrer a esta maneira de suprir qualquer carência, nem a qualquer outra actividade nestes parâmetros, pois isso apenas contribui para a desvirtuação e redução da sua importância enquanto uma instituição de ensino superior pública.

Esperamos que, com esta polémica, se pense seriamente na questão do deficiente financiamento do ensino superior, e no papel que nós, como estudantes, devemos ter no seio destas decisões.

Texto de Diogo Rodrigues
Fotografias de Bruno Quelhas

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