O dom da plasticidade humana

26 JUNHO, 2017 -

A adaptação é coisa que não é estranha. É um caminho cada vez mais normal, mais realista. Isto porque já foi tempo de se ter um só trabalho durante toda a vida, um só lugar onde se residiria, um só sonho que, mesmo destinado à utopia, ia permanecendo como o grande objetivo a consumar um tempo tranquilo e estável. Essa tranquilidade e essa estabilidade eram as grandes premissas, as principais formas de avaliar e de medir a felicidade de cada um. Tê-las era fundamental para esse sentimento de realização e de satisfação se confirmasse e se proclamasse.

Os tempos mudaram. Cada vez mais são aqueles que querem mais. É um desejo natural, numa fase em que se conhece mais e se sabe mais sobre aqueles que viveram antes e os outros que são contemporâneos. São sonhos cuja impossibilidade acaba por se ver anulada. É cada vez mais frequente sonhar com sentido ao mesmo tempo que se sonha com robustez. Ver no outro uma referência, uma inspiração, e conhecer de perto aquilo que trilhou no desenvolvimento do seu projeto de vida ajuda a clarificar que qualquer um é capaz de cumprir com as suas grandes ambições.

A segurança e a inércia vão sendo gradualmente mais problematizados. “É isto que eu quero?”, “É isto que quero que a minha vida seja?”. O que significa em concreto o “felizes para sempre?” dos tempos de criança? Será que está dependente da estabilidade ou de um desafio constante e permanente em relação ao que o mundo proporciona e exibe? Com a propensão de cada um a ganhar proporções mais internacionais e globais, não é raro o que quer dar às asas e desbravar caminho, descobrindo novos rumos e redescobrindo-se a si mesmo.

No entanto, o reverso da medalha apresenta todas as ansiedades, todos os medos, todos os receios que provêm das gerações que viveram antes e que decidiram abdicar de arriscar em prol da segurança e do comodismo. Não há nada a julgar porque também eles viveram sob outras circunstâncias e com uma divulgação de informação em menor grau. Os sonhos alimentam-se com a exploração da alma e com a oportunidade de ler e de criar, de dar luz aos sentidos e de, com isso, criar metas um pouco mais afoitas em relação aos padrões pré-concebidos do conceito de felicidade. São medos que condicionam os voos altos e que se ficam pelo desejo escondido de se desenhar as asas e de se experimentar voar, mesmo que a vertigem assuste.

Para ajudar a superar isto, há um dom que todos têm e que pouco foi explorado. Estudado por neurocientistas e por psicólogos, se todos tomassem conhecimento daquilo que são os limites a serem transcendidos pela mente, poucos eram aqueles que acanhavam. A plasticidade, a capacidade de adaptação e da mente se modelar em relação aos novos contextos e aos novos trilhos que se apresentam na realidade daqueles que se aventuram. As peripécias estão garantidas mas a mente dá uma ajuda crucial, uma mão providencial. É um autêntico dom o ser humano conseguir ajustar-se a uma diversidade de realidades, a uma ementa variada e rica de situações e de perceções. A zona de conforto é uma almofada mas é esta plasticidade que permite que a mudança e a busca pelos sonhos e pela necessidade de arriscar se torne um autêntico trampolim. Cada um percebe que tem um ginasta dentro de si e diverte-se a dar piruetas de alegria pela sua ousadia e pela capacidade de projetar forma e matéria nos seus sonhos. É uma honra poder fazer disto uma realidade próxima e pouco descontextualizada. É sinal que se cumpre o destino do ser.

A plasticidade mental é uma benção, um dom escondido que só é revelado àquele que arrisca num processo de autodescoberta. Uma espécie de alquimia interna salta para a vista, para o coração e para o entendimento daqueles que se aventuram e que se envolvem nesta redenção do passado que ficou por se cumprir e do presente que está sempre a tempo. Esta habilidade de se reformular e de se readaptar àquilo que o mundo apresenta está lá para todos que testarem a mente aos limites outrora vistos como míticos. O ser humano é feito para aprender e para crescer durante esta aprendizagem, tanto numa sala de aula, onde todos os sonhos são desenhados e enquadrados, como na própria vida, onde se tem a arte e a virtude de os cumprir. Indiferentemente da cultura, da religião e de demais variáveis sociais, todos sonham e todos são capazes. Para se fazer arte, importa experimentar e dar voz ao espírito e à voracidade do sonho. A vida é pouco mais do que fazer arte. A vida é a arte por si e conta com a plasticidade da alma e da mente para a sua inspiração premente.

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