‘O Diário de Anne Frank’ em banda desenhada: uma nova forma de conhecer Anne Frank

13 OUTUBRO, 2017 -

Uma menina de estrutura frágil, aconselhada a não fazer exercício físico na escola por os ombros e as ancas se deslocarem facilmente, foi obrigada a fugir da Alemanha para Amesterdão. Pouco tempo depois, a Alemanha invadiu a Holanda e e ela foi forçada a esconder-se num anexo durante quase dois anos. A perseguição dos nazis aos judeus, obrigou-a a conviver no mesmo exíguo espaço com Margot Frank (irmã), Otto Frank (pai), Edith Frank (mãe), A família Van Pels- composta por Herman Van Pels (marido), Augusta van Pels (esposa), Peter van Pels (filho)- e Fritz Pfeffer, o dentista. Ela viria a ser capturada e enviada para o campo de concentração em Bergen-Belsen. Resistiu cerca de sete meses, entre Agosto de 1944 e Março de 1945, até o tifo provocar a sua morte. O seu nome era Annelies Marie Frank; o seu diário é conhecido por milhões de leitores.

O diário de Anne Frank sofreu várias alterações ao longo do tempo. A primeira versão vai desde que ela o recebeu no 13º aniversário, começando logo a escrever, até ao dia em que ouviu Guerrit Bolkestein, membro do Governo holandês no exílio, a solicitar a manutenção de documentos, como cartas e diários, para, no pós-guerra, serem a prova do sofrimento do povo holandês.

De seguida, Anne Frank começou a preparar o seu diário para depois ser publicado. Algumas passagens consideradas desinteressantes foram retiradas, enquanto outras foram adicionadas. Ao guardar a primeira versão, Anne Frank ficou com duas versões. Uma terceira viria ainda a ser acrescentada, quando o pai, já depois do falecimento da filha, selecionou textos da 1ª e 2ª versões para publicar uma mais curta, de forma a corresponder aos critérios do editor holandês. Aspectos sobre a sexualidade de Anne Frank assim como muitos dos seus comentários depreciativos sobre as pessoas que coabitavam o mesmo espaço (a mãe e a irmã eram vistas sob um prisma muito negativo) foram eliminados pelo pai. Esta versão é a mais conhecida.


“O Diário de Anne Frank”, versão BD (Porto Editora), traduzido por Elsa T. S. Vieira, regista as constantes oscilações de humor de Anne Frank, a sua preocupação constante com a comida, a fulgurante imaginação e o humor com que, por vezes, dotava as suas descrições dos outros elementos do anexo (a Sra Van Daan, constantemente desenhada sentada no bacio, ou o hipocondríaco Peter Van Daan, que ora pensa estar a morrer do coração, de cancro na garganta ou por os rins estarem a falhar, são memoráveis). Além disso, Ari Folman (Haifa, 1962) e David Polonsky (Kiev, 1973) recuperam o sentimento de desprezo que ela sentia pela mãe e os aspectos relevantes quanto ao amadurecimento sexual. “Tenho de admitir que de cada vez que vejo um corpo nu feminino, fico em êxtase.” (pág.97), afirma Anne Frank depois de se lembrar de uma noite em que propôs a uma amiga mostrarem os seios uma à outra, como prova de amizade. Anos mais tarde, viria a apaixonar-se por Peter van Daan.
Peter Van Daan era, na realidade, Peter Van Pels.

Da 1ª para a 2ª versão, a autora decidiu atribuir pseudónimos às suas personagens reais. Na adaptação do texto para este diário gráfico,  Ari Folman e David Polonsky utilizaram os pseudónimos, tal qual Anne Frank fizera, mas introduziram uma valiosa correspondência entre os nomes verdadeiros e respectivos pseudónimos.

O diário gráfico é uma interpretação dos dois autores das palavras de Anne Frank. Uma interpretação respeitosa, sempre com candura,  que viria a merecer a autorização da família de Anne Frank para posterior publicação. A abordagem de Folman e Polonsky foi conservadora, não arriscando em inovar nas imagens. Este registo, similar no conteúdo embora diferente na linguagem, mantém em memória a morte de milhões pelas mãos dos nazis. A dupla de autores volta assim a abordar temas impactantes, tal qual fizeram em “Valsa de Bashir”, com o objectivo de chegar a uma nova geração de leitores.

A banda-desenhada continua a ser, para o público em geral, associado a uma faixa etária mais infantil. Está errado. Obras como “Maus”, de Art Spiegelman,  são monumentos literários destinados a todos os públicos.
Ver o mundo de Anne Frank pelas janelas desenhadas por David Polonsky é uma nova experiência.

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