O dia em que Picasso resumiu a vida

15 ABRIL, 2016 -

Os grandes artistas assumem, muitas vezes, estatuto de deuses depois de mortos. Passam a vida a trabalhar como artesãos, em ambientes pouco ortodoxos, sempre em busca do detalhe que faz a diferença. Um destes deuses é Picasso, um inovador artista espanhol que passou a maior parte da sua vida a pintar, em França. Aí conheceu muitos artistas do seu tempo, numa cidade que sempre reuniu sonhadores em busca do amor e da vontade de viver a vida que escapa quando se está consciente.

A inspiração continua a surpreender os estudiosos. Uns dizem que só aparece quando se trabalha, outros dizem que não existe, alguns defendem que só pode aparecer num momento de distração… Uma coisa é certa: há momentos em que a confiança de ter feito bem é superior. Picasso, o artista que demorou muitos anos até conseguir pintar como uma criança, também procurava ideias na natureza, como qualquer pintor apaixonado pelo seu ofício. Paris é imensa, tem vida, tem sentimento e iluminou muitos destinos.

Típico dos deuses são as lendas, histórias que nos abalam pela força coesa e intensa na mensagem que transmitem. São frases curtas, nas quais nos revemos e nas quais encontramos uma sabedoria superior que nos era oculta até então. Pode uma frase resumir a vida? Provavelmente não. Picasso tentou e, como sempre, foi genial.

Num dia normal de trabalho, em busca de fazer um scketch, algures num parque de Paris, Picasso é interrompido por uma senhora dizendo reconhecê-lo e admirá-lo. Os elogios do costume foram seguidos por um pedido emocional da senhora que sonhava em ter um retrato seu, feito pelo grande artista. Após a insistência, o esboço surgiu com o seu traço inconfundível, num par de minutos. A senhora ficou agradavelmente surpeendida e entusiasmada pelas parecenças com o seu rosto. Um sentimento de responsabilidade e gratidão levou-a a fazer uma pergunta:

– Quanto lhe devo?

– 5000 francos, Madame – respondeu o artista.

– O quê? Tanto dinheiro? Mas só demorou dois minutos a fazer este desenho…

– Madame, levou-me a vida inteira – respondeu Picasso celebremente.

Quanto tempo se leva a fazer um obra de arte? 1 ano? 2 meses? 3 horas? E o tempo que se levou a viver, a aprender a fazer, a descobrir o estilo pessoal, não conta? Conta sim, a vida é um fluxo continuo. Vivemos com todas as idades que tivémos e todo o conhecimento que temos é a nossa “vida inteira”.

Texto de Pedro Fernandes

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