O desdém de Cavaco pela democracia

9 OUTUBRO, 2017 -

No nosso quadro constitucional todo e qualquer cidadão tem o direito de se abster. 

A interpretação política que se pode fazer dessa ausência de voto, quando não acompanhada de uma declaração específica, é lata e contraditória. Irá desde os que acham que está tudo mal aos que pensam que tudo está bem, com infindáveis nuances pelo meio.

Acontece, até, que eu não votei, porque estava num casamento de um familiar muito próximo na Escócia no próprio dia e por isso só acompanhei já na segunda-feira o que tinha ocorrido” – esta declaração de desdém pelo acto eleitoral proferida por um qualquer cidadão não mereceria relevância. Tendo sido feita pelo ex-Presidente da República Cavaco Silva, sem que lho tenha sido perguntado, é de extrema gravidade. Cavaco podia abster-se em silêncio ou podia ter feito da sua declaração um acto político que visasse as candidaturas de quem vai a votos mas, em vez disso, manifestou-o, como é seu hábito, de uma forma cobardemente genérica (podendo significar tudo e o seu contrário) insultando, na prática, os milhares de cidadãos que abdicaram do seu dia de descanso contribuindo para que o acto eleitoral decorresse em liberdade e todos os que, com mais ou menos esforço, exerceram o seu direito de voto no passado dia 1 de Outubro.

É bom que tenhamos consciência que Cavaco não é mais uma figura pública ou uma personalidade que exerceu, mas já não exerce, funções de Estado. Cavaco Silva beneficia do estatuto de ex-Presidente da República tendo, entre outras coisas, direito a uso de automóvel do Estado (para seu serviço pessoal) com condutor e combustível, subvenção mensal vitalícia correspondente a 80% do salário do Presidente em funções, gabinete de trabalho com assessor e secretário pessoal nomeados por sua indicação, ajudas de custo como as do primeiro-ministro sempre que se desloque em missões oficiais, livre trânsito, passaporte diplomático ou uso e porte de arma.

Como se já não bastasse ter colocado a sua assinatura em todos os actos de perda de soberania deste país ou ter – no mínimo – deixado escapar debaixo do seu nariz as maiores trafulhices financeiras das últimas três décadas, manter esta postura de desdém por uma república e as pessoas que a constituem mereceria que, finalmente, vivesse sem honras e benesses no Estado que ajudou a depauperar.

Crónica escrita por Tiago Mota Saraiva  / Parceria jornal i

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