O coração bate forte em Cannes

20 MAIO, 2017 -

Filme a filme, o festival de Cannes vai gradualmente avaliando o estado das nossas convicções. E com filmes muito acima do aceitável. Logo de manha sentimos a pulsação vibrante de um grupo de seropositivos ativistas em 120 Battements Par Minute, do francês Robin Campillo, apesar de não termos ainda recuperado totalmente dos desafios que o sueco Ruben Ostlung nos colocara em The Square. Não podíamos também ignorar o belíssimo on the road que a veterana Agnes Varda, com 88 cheios de energia, fez como fotografo JR, perito em retratos de grandes dimensões. Vai em alta o cinema em Cannes.

Ataquemos o problema de frente, como faz Campillo neste enérgico e conseguido filme sobre a impreparação dos serviços de saúde do governo Fabius e a presidência de Mitterand, no inicio dos anos 90, em lidar com a comunidade seropositiva. Viajamos no filme dentro da brigada ativista Act Up, uma militância que o próprio realizador conheceu por dentro ao serviço da bem organizada célula parisiense, em diversas acoes de sensibilização, mas também de choque na sede de laboratórios, receções politicas ou em desfiles ao som do tecno das marchas de gay pride. De resto, e dai que vem o ritmo das 120 batidas por minuto, o som que o realizador escutava sem cessar, como confessou na conferencia de imprensa que se seguiu ao filme.

Sim, este e também um filme empenhado numa causa LGBT, mas não habita em nenhum nicho. De resto, esta energia contagiante de passar a acao e deixar de lado a palavras mansas fez-nos ate lembrar Nocturama, de Bertrand Bonello, um dos grandes filmes do ano passado, mas que permanece ainda sem estrear no nosso pais, sobre um grupo de jovens politicamente insatisfeitos com o rumo que o conceito dos valores de Liberdade, Igualdade e Fraternidade tomou no seu pais, e decide cometer alguns atentados.

No registo totalmente diverso, Robert Ostlund coloca-nos num local incomodo neste filme que marca o seu regresso a Cannes com The Square, depois de aqui ter dado nas vistas com o seu provocante A Forca Maior há três anos atras. Desta vez, conduz-nos durante duas horas e meia a locais onde frequentemente experimentamos o desconforto em que são colocadas varias personagens neste filme ambicioso que aflora o papel da arte contemporânea em confronto com as causas humanitárias, para tentar auscultar de que forma a honestidade e sinceridade das nossas opiniões e atos não cede a pura hipocrisia. A cobaia toma o corpo de Christian (a melhor prestação masculina com Claes Bang), o curador de um museu de arte contemporânea de Estocolmo, mas que se debate ainda com a concorrência. Sera ate essa concorrência a produzir um dos diversos choque do filme, quando um vídeo visualmente exploratório e hiperofensivo, destinado a um clic bait, aparece no canal youtube do museu. Há ainda um momento caricato quando tem um pequeno imbróglio com Elizabeth Moss (Mad Men), apos uma cena de cama, em que nenhum dos dois quer separar-se do preservativo usado, deixando no ar a ideia de que esse néctar poderia vir a ter alguma utilização por esta jornalista que ja o embaracara com uma pergunta no inicio do filme. No entanto, o momento mais chocante ocorre quando uma performance artistica ultrapassa todos os limites e vai ainda mesmo mais alem. E ai que a ideia do “fora da caixa” adquire um novo limite. Mas, ainda assim, tem tempo para fazer a sua personagem percorrer uma via em que se despoja dos seus excessos. E so assim talvez pudesse ser colocado a prova na peca de arte adquirida para o seu museu, O Quadrado, que da o nome ao filme, um espaco de 2m por 2m em que qualquer um e convidado a despojar-se dos seus preconceitos e ser capaz de verdadeiramente ajudar alguém. Sim, também nos somos postos a prova.

A deriva de Agnes Varga e do fotografo JR a bordo de uma carrinha pelo campo francês encerra uma proposta bem mais modesta. Se bem que tremendamente compensadora já que nos permite observar a beleza interior dos anónimos pelas fotos gigantes que a realizadora e o fotografo vao fazendo e decorando grandes estruturas e edifícios. De resto essa e mesmo a expressão artística deste fotografo que escolheu a natureza e os edifícios como galeria. O filme e admiravel no seu propósito de criação artística a medida da inspiração do momento, de certa forma algo que a cineasta que veio a primeira vez a Cannes ainda no final dos anos 50. O filme terá ainda um momento Jean-Luc Godard, quando o par decide fazer uma visita ao mestre e amigo de Varda na sua casa na Suica. Ai ocorre uma pequena catarse que nos abstemos de comentar. Mas que consideramos um dos momentos cinematográficos deste festival.

O coracao bate forte em Cannes. E ainda não vimos Carne Y Arena, a performance de Innarritu, em realidade virtual de que muitos já falam de forma emocionada. Por certo não nos ira escapar.

Texto de Paulo Portugal, publicado no nosso parceiro Jornal SOL

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