O cinema é feito para espectadores mudos

3 OUTUBRO, 2017 -

Vou ao cinema desde os meus 10 anos (relativamente tarde). Lembro-me como se fosse hoje do “Romeo + Juliet”, realizado por Baz Luhrmann, o mesmo que viria a realizar “The Great Gatsby” ou “Moulin Rouge!“, e de um então jovem Leonardo DiCaprio, com os seus tenros 22 anos, ainda a um ano de se eternizar em “Titanic”. Ainda assim, na altura, já tinha, em 1993, feito de Arnie Grape, no filme “What’s Eating Gilbert Grape”, que é, para mim, uma das suas melhores prestações como actor.

Desde então, tudo mudou, e o cinema não foi excepção. Por exemplo, a técnica é hoje a senhora de qualquer filme, seja a nível de imagem ou de som. É certo que há sempre exceções, e das boas, e convém referenciar isto para dar o devido espaço a filmes que, mesmo que não os mencione, não merecem ser suprimidos de forma generalizada.

Toda esta introdução serve para vos falar de tempo, pipocas e comentários indesejados numa sala de cinema. Hoje, 21 anos depois do meu “Romeo + Juliet”, é rara a vez que consigo ver um filme de forma tranquila. Actualmente, se um filme tiver uma cadência de sequências de imagem mais lenta, ou se tiver poucos diálogos, surgem quase sempre os “movimentos circulares dos catadores de pipocas” ou os comentários que se fazem ouvir duas filas à frente, ou duas filas atrás. Por exemplo, no ano passado, a da estreia do “São Jorge”, filme realizado por Marco Martins e que contou com o actor Nuno Lopes, foi um bom exemplo disso mesmo. Ora, o filme tem poucos diálogos, que também é uma forma de comunicar, e foi relativamente fácil ouvir o típico comentário: “então, mas eles não falam?!”. Esta experiência aconteceu de forma igual no filme “Manchester by the Sea”, realizado e escrito por Kenneth Lonergan, e que também é um filme que vive muito da imagem e do diálogo não verbal.

Das duas uma; ou estamos definitivamente habituados ao cinema de explosões e efeitos especiais, cheio de cortes e sequências repentinas, que nos estimulam o olhar de forma quase física (não tenho nada contra este tipo de cinema); ou então poderá ter tudo a ver com os tempos narrativos muito mais curtos das séries. Estaremos definitivamente a encurtar o tempo de reflexão quando vemos um filme? Ou, como nos diz Wim Wenders, no filme “Janela da Alma”: “a maioria de nós tem tudo em excesso, e ter tudo em excesso significa que nada temos. O actual excesso de imagens significa que somos incapazes de prestar atenção. Somos incapazes de nos emocionar com as imagens”, “a nossa imaginação complementa as palavras. Quando comecei a ver filmes era assim que eu os via. Era possível ler entre as imagens… actualmente , os filmes são totalmente fechados…”, completa Wim Wenders.

Outro exemplo mais recente foi a minha experiência em sala com o filme “Mother!”, realizado e escrito por Darren Aronofsky, e que conta com Michelle Pfeiffer, Jennifer Lawrence ou Javier Bardem. A dada altura, a actriz Michelle Pfeiffer aparece com um sutiã verde e alguém diz no silêncio da sala escura: “que sutiã mais parolo”. Ora, a primeira reflexão que tirei sobre a situação, e que me desligou do filme, foi: este é um comentário desnecessário e, ao mesmo tempo, inocente/espontâneo/não pensado. Desta situação, pude concluir na altura que o hábito de vermos filmes/séries num pequeno ecrã, e num ambiente muito mais familiar, pode tornar a nossa experiência muito mais desprendida, ou então foi só um comentário irresponsável (entretanto lá voltei ao filme).

Em forma de conclusão, e dando outro exemplo, a minha esperança como espectador mudo, e talvez inadaptado, reside na minha experiência em sala do filme “Tree of Life”, de Terrence Malick, onde todos estes fenómenos relatados anteriormente aconteceram. Mas, a somar a tudo isso, esteve ainda o sair de sala das pessoas que não estavam a gostar do filme, e o bater de palmas espontâneo que aconteceu no fim: se “a nossa imaginação complementa as palavras”, como nos disse Wim Wenders, então temos de dar oportunidade de imaginar a nós mesmos e a quem está ao nosso lado.

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