O ambiente nocturno de ‘Relatives in Descent’, de Protomartyr

8 OUTUBRO, 2017 -

Relatives in Descent abre com um snippet de bateria que capta a atenção do ouvinte, logo a partir do momento em que carrega no play. “A Private Understanding” segue então com o estilo falado do vocalista Joe Casey, que vai discorrendo poemas modernos assertivamente, sobre acordes repetidos vindos de uma guitarra mansa, que se torna cada vez mais ameaçadora. Uma ponte de guitarra acústica liga esta parte à abrasividade dos riffs distorcidos, característicos dos Protomartyr. Em apenas cinco minutos, a banda de Detroit percorre diversos ambientes diferentes, com uma definição incrível.

Essa é uma das suas grandes virtudes, contrapor o sublime e o abrasivo, numa embalagem angulosa e vívida, capaz de evocar bastantes imagens. Apesar da formidável capa vibrante, Relatives in Descent vai mais em direcção a noites escuras e límpidas, devido às melodias nocturnas das guitarras formidavelmente produzidas, com um pouco de eco que nos permite preencher o espaço que sobra com a nossa imaginação. Todas estas valências do álbum contribuem para que o início cativante não seja apenas um chamariz vazio, mantendo-se interessante ao longo das doze canções.

“Here is the Thing” mantém logo a fasquia alta, com um ritmo galopante e baixo de cordas largas que fustiga e traz à mente uma sonoridade sludge. O monólogo de Casey ataca a “thing” que é o capitalismo sem restrições que se alimenta da humanidade, numa descrição e entrega estonteantes, ampliadas pelo groove dançável relativamente incomum ao som da banda. “My Children” completa o trio de abertura fenomenal. Começa de forma pachorrenta, com um quase-rap que inclui uma repetição arrítmica e hipnótica da expressão “pass on”. É a primeira canção a transmitir a ideia de descendência familiar induzida pelo título, encharcada no desespero que geralmente habita as canções da banda. Fala de desapontamento, de pais que não amam os filhos e lhes deixam um império de nada, de uma geração perdida de filhos que não ouve.

A ideia de desapontamento familiar passa para a canção seguinte, “Caitriona”, que é baseada numa história irlandesa sobre um ódio tão grande, que dura para lá do túmulo. A curta duração da canção não permite que o som abertamente distorcido se torne irritante; aliás, a distorção aliada ao tom brincalhão do vocalista coaduna bem com a letra que aborda a mortalidade de uma forma bem-humorada. O par seguinte refere a forma como as pessoas tentam reprimir a negatividade envolvente, seja com risadas vazias (“The Chuckler”) ou mentiras brancas (“Windsor Hum”, em que a frase “everything’s fine” é repetida inúmeras vezes). Constata-se que a primeira metade, para além de fluir musicalmente na perfeição, parece funcionar aos pares em termos temáticos.

A segunda, apesar de geralmente manter a qualidade, apresenta o único passo em falso – “Corpses in Regalia”. O ritmo associado ao baixo (eximiamente tocado, é certo) tem uma aura falsamente misteriosa, criada para um filme de espionagem duvidoso. O riff à Editors também não ajuda, não se enquadrando bem no ambiente envolvente.

“Night-Blooming Cereus” é a canção perfeita para o lusco-fusco. O início sinistro e etéreo, de acordes pairantes, funde-se na perfeição com um céu cambiante, graças ao uso de sintetizadores, que acabam por se manter na penumbra ao longo do resto da canção, mesmo depois da bateria de Alex Leonard entrar em acção. “Don’t Go to Anacita” é o claro êxito, exalando uma descontracção diferente daquela a que a banda nos habituou. A canção seguinte trata de reverter isso, sendo uma das mais focadas que já produziram, muito graças à batida compacta.

Os Protomartyr criaram um álbum bastante coeso e, ainda assim, cheio de variedade. Para um género com bastantes contribuidores, a banda conseguiu cinzelar o seu lugar bem definido na rocha do post-punk, graças à técnica exímia dos membros, lançamentos constantes e letras mordazes, pejadas de referências académicas e culturais, que ainda assim não alienam ninguém com pretensiosismo. Duvidamos que haja muitas bandas por aí a saber que garrafas de 15 litros de vinho se chamam Nebuchadnezzars, em homenagem a um dos Reis da Babilónia, e que ao mesmo tempo incluem a frase “Male plague” numa das canções apenas porque o vocalista quer ter a oportunidade de entoar algo estúpido.

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