Nuno Lopes: “Representar tem a ver com amar pessoas”

23 JUNHO, 2017 -

Foram precisas cadeiras extra para o público que quis assistir ao Q&A com Nuno Lopes. À frente de uma sala repleta, o ator atribuiu responsabilidades à timidez pela sua origem na representação. Uma timidez ainda maior na juventude, que o fazia moldar-se aos gostos e ideias dos grupos com que convivia, “porque não era muito popular e não tinha muitos amigos”.

Eu acho que representar tem a ver com amar pessoas. O meu conselho para um ator é não ter preconceitos e não pensar mal dos outros. E também para realizadores. Porque cinema é encontrar o outro ponto de vista.” Ao interpretar um papel é necessário encontrar-lhe qualidades para poder amá-lo. Em O Sangue do Meu Sangue (2011), Nuno aprendeu a gostar da sua personagem pelo seu caráter de sobrevivente.

Não tem um método, mas sim um processo de pensamento auxiliar à construção de personagem, que aprendeu nos EUA, com Susan Batson. Todos nós temos uma necessidade, “uma necessidade que não queremos que os outros vejam e que por isso escondemos atrás de uma persona pública.” Quando as pessoas veem a sua necessidade involuntariamente exposta, ocorre um erro trágico. Travis Bickle, de Taxi Driver (1976), foi um dos exemplos desta teoria.

Profissionalmente, começou no Teatro da Cornucópia, com Luís Miguel Sintra. Aos 22 anos fez uma novela no Brasil. No regresso, depois de voltar ao teatro, fez Alice (2005) com Marco Martins. “Eu não dormi. Durante dois ou três meses dormia no máximo três horas por dia. Adormecia entre takes. Mas ajudou-me.” Em Alice, a personagem de Nuno Lopes tinha de parecer cansada mas esperançosa. “A imagem que eu tinha era a de um peixe em terra, que está a morrer mas continua a tentar voltar para a água”. Sublinhou que é necessário ser muito concreto ao dirigir um ator, dar-lhe referências físicas e visuais, porque o resultado de indicações emocionais será a mera imitação de uma emoção que não é sua. O trabalho do ator não é sentir, é mostrar.

Em cinema, para mostrar, é preciso compreender a câmara. “Não tem nada a ver com interpretação”. Nuno Lopes considera a ausência de técnica de câmara uma falha das escolas de atores. Aprendeu com a experiência a adaptar o corpo e as expressões faciais à grandeza e movimento dos planos. Em grande plano tudo aumenta de escala, incluindo a velocidade da ação. “Deixem os vossos atores ver o que a câmara vê.” Gestos muito falsos podem parecer mais naturais do que a própria verdade.

Nuno Lopes encorajou os realizadores do certame a confiar nos atores e a trabalhar ideias em conjunto. “Nós fazemos perguntas estúpidas porque queremos ajudar”. Em Goodnight Irene (2008), exigiu ao realizador duas semanas para discutir o guião. “Em duzentas perguntas que fiz, só uma foi boa, mas ajudou o filme a ser melhor”.

Em 2016, Nuno Lopes protagonizou São Jorge de Marco Martins. Para o ator é um filme especial por ser também seu. “Seduzi o Marco a fazer este filme ao levá-lo a uma luta (de boxe) no Porto. A última do Guerreiro do Norte. O final de uma grande carreira. E foi num centro comercial, às 3 horas da tarde. Pessoas com sacos da Zara. Os lutadores a andar em escadas rolantes.” Interessou-o a visão de um desporto grandioso num estado “deprimente”. Nunca chegaram a discutir a personagem, porque ambos sabiam exatamente como devia ser.

A maior dificuldade que tem enfrentado é aprender a gostar de si como ator. “Esta não é uma arte sobre perfeição. E eu pensei que era.” Assegurou os atores presentes de que não há problema em falhar. Significa apenas que estão a dar o seu melhor. “Eu gosto muito do Nicolas Cage porque ele dá sempre tudo”. É melhor arriscar tudo e falhar completamente, do que negar a possibilidade de uma boa performance.

Texto de Inês Lebreaud

Comentários

Artigos que poderão ser do teu interesse

ARTIGOS RELACIONADOS

Com a abertura das portas do grande auditório, iniciou-se um frenesim. Entre sorver o fim do vinho

O festival de cinema FEST - Novos Realizadores, Novo Cinema co

Centenas de participantes de vários pontos do mundo, dezenas de pr

O criador dos cenários de "A Lista de Schindler" e "O Pianista" é um dos convidados da 1