Nuno Lemos Pires: “Qualquer pessoa pode transformar-se num terrorista”

31 MAIO, 2017 -

Coronel, professor da Academia Militar e estudioso do Daesh, Lemos Pires defende que a luta contra o terrorismo requer uma análise holística do fenómeno. É isso que procura fazer.

Em 2016 publicou “Resposta ao Jiadismo Radical” e tem sido presença assídua na análise dos atentados reivindicados pelo Daesh, como o ataque de Manchester, na semana passada. Nuno Lemos Pires é coronel de Infantaria/Operações Especiais e professor da Academia Militar. Doutorado em História, Defesa e Relações Internacionais, as suas intervenções públicas destacam-se pelo trabalho de casa e pela análise holística do fenómeno: lê regularmente as publicações do autoproclamado Estado Islâmico e acredita que a luta contra o terrorismo requer análise e ação em todas as vertentes: militar, social e política.

É uma das pessoas mais atentas em Portugal a fenómenos como o Daesh. Como surgiu esse interesse?

Tenho algumas paixões na vida quanto a áreas de estudo. Sou doutorado em História, Defesa e Relações Internacionais pelo ISCTE, e muita da minha tese de doutoramento tem a ver com aquilo a que chamo o “comando holístico da guerra”. Não se pode lidar com os problemas da guerra apenas do ponto de vista militar, tem de se ter atenção ao ponto de vista político, económico, social, diplomático… Só assim é que há soluções para os conflitos. Há muitos anos que sigo atentamente o fenómeno do terrorismo.

Porquê?

É algo que pode acontecer em qualquer lugar, a qualquer momento, e qualquer pessoa pode transformar-se num terrorista. Há mais de 20 anos, até mesmo antes do 11 de Setembro, já tinha uma forte inclinação para estudar a forma como movimentos anarquistas ou grupos terroristas se organizavam.

Mas houve algo que despertasse esse interesse?

A minha paixão inicial é História e, dentro da história militar, gosto muito da parte polemológica – ou seja, o estudo da história militar através da sociologia, percebendo as motivações das pessoas. Dedico muito tempo à i Guerra Mundial, à Guerra Peninsular, às motivações dos combatentes, a procurar saber o que leva alguém a estar disposto a dar a vida por algo. Um decisor tem uma história por detrás, tem uma vida que é alterada bruscamente por determinados acontecimentos. Assistimos várias vezes ao longo da História a pessoas que têm um comportamento aparentemente normal e que, através de um acontecimento extremo, mudam completamente. E muitas vezes, como têm o poder da arma ou porque comandam, alteram dramaticamente o rumo da História. Quando vamos para a análise das questões do terrorismo, também é necessária esta perspetiva e, por isso, coloco muito a ênfase em ver quem promove as ideias que estão por detrás das ações.

Como define terrorismo?

Posso dar uma definição de terrorista: é aquele que defende uma causa e está disposto a usar uma ferramenta para causar terror e medo. Terrorismo é uma técnica. Eu posso acabar com um grupo terrorista, mas não com o terrorismo. Quanto às causas que levam uma pessoa a associar-se ao terrorismo, há de tudo: grupos de cariz nacionalista que procuram a independência de um determinado espaço – como a ETA, o IRA, o Baader-Mein-hof -; grupos de inspiração jihadista radical, que utilizam uma base adulterada de uma das maiores religiões do mundo para atingir os seus objetivos; entre outros. E, claro, depois há psicopatas, pessoas perturbadas, desenraizadas, sem esperança, que atuam muitas vezes nestes grupos por simples pertença.

Mas há pessoas que, aparentemente, não se enquadram em nenhum dos retratos que referiu e se aliam a estes grupos?

Não consigo fazer uma generalização. O único procurador ainda vivo dos julgamentos de Nuremberga disse recentemente que esteve perante grupos que se dedicavam apenas a matar judeus e, ao analisar o perfil das pessoas, algumas tinham altos níveis de instrução, eram pessoas com grande integração social e, de repente, por vários motivos, seja a guerra ou não, transformam-se numas bestas. Ninguém está imune a estas mudanças, o ser humano é complexo. A única coisa que nos protege da ação cruel de alguns é a ética das instituições e estas devem ser controladas para que a força só seja usada por um bem maior, na defesa das populações, ao serviço do Estado. Se não houver instituições, o indivíduo é uma variedade múltipla.

Costuma ler as publicações do Daesh. Estes documentos são de fácil acesso?

Infelizmente, são. Faz-me confusão a facilidade com que se consegue aceder a estes conteúdos. Está, ainda assim, a tornar-se mais difícil. Há cerca de ano e meio, qualquer pessoa escrevia “vídeos de execução” [num motor de busca] e apareciam todos. Agora, já não é tanto assim: tanto os vídeos como as publicações e as mensagens de apelo à violência estão menos acessíveis. No entanto, estamos longe de ter quebrado esta propaganda.

Mas está a dizer que a presença do Daesh na internet está a diminuir?

Houve um avanço muito grande quando empresas como o Twitter e o Facebook decidiram ajudar. Há um livro do Malcolm Nance sobre o Estado Islâmico que explica como o grupo terrorista atuava no mundo virtual. Como estavam sempre a ser bloqueados no Twitter, criavam 250 mil contas por mês. Mal eram detetadas, eram fechadas, mas o grupo terrorista rapidamente abria outras. Penso que para acabar com este grupo é essencial acabar com a propaganda ou fazer algo que os EUA já têm estado a desenvolver: ter organizações próprias para fazer a contranarrativa, desmontar os argumentos e mostrar que há canais alternativos.

Tendo em conta os últimos acontecimentos – os ataques em frente ao Parlamento britânico e na Manchester Arena -, o Reino Unido é o principal alvo do Daesh?

Há oportunidades e padrões, há zonas mais e menos expostas. Há países que conseguem defender-se melhor e outros que estão mais vulneráveis. Não há um fator que explique isto, há muitos. Naturalmente que países onde há comunidades maiores, onde possam aparecer mais pessoas sujeitas a este tipo de radicalismo, têm mais probabilidade de sofrer alguns efeitos. Existe o chamado “padrão de oportunidade”. Por isso é que recentro sempre a questão na tal “mão que embala a violência”. E quem está sempre a incentivar este tipo de violência é a Al-Qaeda ou o Estado Islâmico. Nestes últimos três anos tem sido muito mais este último – não que a Al-Qaeda tenha parado as suas ações. São grupos bastante diferentes.

Em que medida?

São diferentes nos seus objetivos e na forma de atuar. Têm um ódio profundo entre si. Para a Al-Qaeda, por exemplo, sangue muçulmano é sagrado. Para o Daesh, não: os xiitas são apóstatas. Este último defende a violência sem um propósito, ou seja, atacam autocarros com refugiados, grupos de crianças de forma indiscriminada. Em princípio, a Al-Qaeda defende ataques contra alvos específicos que sejam símbolos de poder. Atingem civis, mas os locais têm um significado.

Mas o Reino Unido parece, de alguma forma, o alvo principal do Daesh?

Mais do que tentarmos ver quem é o alvo, é importante entender as mensagens que promovem a violência. E a narrativa anda sempre mais ou menos à volta do mesmo: primeiro, consolidar os ganhos à volta da comunidade dos crentes e, depois, conseguir nos espaços onde existe uma maioria muçulmana expulsar os restantes e garantir que há uma união à volta de certos ideais, repudiando os governos corruptos – qualquer governo que siga princípios de laicidade e democraticidade deve ser derrubado – e aqueles que partilham os seus ideais, sejam cristãos, judeus, etc.

Não é o país em si que dita o ataque?

Sim, ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, os ataques aos EUA e à Europa não são direcionados a estes países, servem, sim, para intimidar os seus cidadãos para que, de alguma forma, saiam do território, para que [o Daesh] possa fazer barbaridades naquele local à vontade. Daí que a maior parte dos alvos sejam alvos de oportunidade – oportunidade em comunidades onde estes princípios possam grassar, num Estado que esteja menos atento, aproveitando as próprias leis democráticas com que vivemos, de grande liberdade de movimentos. Provavelmente não existe um direcionamento para este ou aquele país pensado estrategicamente, até porque o Daesh não tem essa capacidade. Se tivesse, estaríamos a falar de algo muito mais grave. Mas, claro, têm sempre mais vontade de atacar certos países.

Os que aparecem nas imagens de propaganda, certo? O Al-Andaluz (península Ibérica) é um deles…

Existe uma ameaça sobre Espanha e, apesar de existir em Portugal, é muito menor. Digo que há uma questão de oportunidade, mas também tem a ver com simbolismo. No entanto, não existe uma estratégia para, num determinado dia, atacarem um local específico. Não têm essa capacidade.

No ataque de Manchester morreram crianças e adolescentes. O Daesh não tem quaisquer limites morais?

A partir do momento em que decidem usar como escravas sexuais miúdas yazidi, fazer-lhes todas as brutalidades, se acham natural queimar pessoas vivas, crucificá-las, decapitá-las, a partir daqui não há limites para o terror. Se o objetivo é infligir dor, causar o pânico e incomodar as pessoas, e tentar intimidar a opinião pública ou os seus governos para que retirem ajudas humanitárias a pessoas dos países mais miseráveis… estes são alvos ideais para quem vive neste mundo perturbado.

O Daesh está agora a apelar à “paciência” dos seus seguidores. Podem estar a preparar algo mais grave?

Não é uma questão de interpretação, eles próprios defendem isso nas suas publicações. Têm várias páginas dedicadas à paciência. “Estamos hoje a passar um dos momentos mais difíceis da nossa jihad, mas pode ser um ponto de viragem na história da comunidade. Está na altura de todos fazerem o seu trabalho em todo o mundo. Façam emboscadas em casas, becos, matem os apóstatas. Aumentem as vossas campanhas contra os inimigos de Alá (…) Matem todos aqueles que são descrentes e façamos uma guerra abrangente para conseguirmos ser pacientes e sermos resilientes para o futuro.” Quem perde território procura fazer aquilo a que se chama distração estratégica. O general Terry Wolff, enviado especial adjunto do presidente dos Estados Unidos para a coligação global contra o Estado Islâmico, disse recentemente em Lisboa que estava convencido de que o Estado Islâmico estará destruído nas zonas do Iraque e da Síria nos próximos meses. E já percebemos os sinais disso: eles estão a mandar muitos combatentes para os seus países de origem. Existe neste momento a sensação de que o Daesh será derrotado naquela zona em breve, mas que irá continuar em funcionamento durante mais algum tempo. O Daesh pode desaparecer, mas a retórica mais ou menos agressiva vai continuar durante muitos anos – estamos muito longe de fazer com que esta desapareça.

Estão a perder território mas continuam a ter seguidores espalhados pelo mundo. O mundo está preparado para um aumento do número de ataques? 

O facto de eles quererem aumentar o número de ataques não quer dizer que consigam fazê-lo. Lá está, temos sempre de voltar às origens: o grande problema está nas razões que levam as pessoas a aderir a este tipo de grupos. Vivemos num planeta com problemas que nunca existiram antes na História. Temos muita gente e temos menos recursos. No início do século xx, o mundo tinha 1,6 mil milhões de pessoas, hoje somos 7,7 mil milhões. E pensa-se que em 2052 vamos ser 10 mil milhões. Começa a faltar água e alimentos, ao mesmo tempo surgem alterações climáticas – em certas partes do mundo, os desertos começam a avançar.

São os tais fatores sociais…

Há mais pessoas, há mais desemprego, os Estados começam a ser ingovernáveis, crescem as redes criminosas organizadas de tráfico humano, de tráfico de armamento, e, geralmente, a desgraça cai toda nos mesmos sítios. E por isso é que resolver os problemas na sua origem não é resolver o problema do Daesh, mas sim os problemas das pessoas, fazer com estas se sintam bem, sintam esperança e pertença. Um jovem de 20 anos no norte da Nigéria ou no norte do Congo – que vive um conflito brutal há muitos anos e ninguém está lá para cuidar deles – não tem emprego, não tem família, vive no meio da violência.

É facilmente aliciado?

Sim. Aparece um grupo a dar-lhe uma sensação de pertença, a dar-lhe dinheiro, uma mulher com quem pode fazer o que quiser, pode usar a violência, e passa a pertencer a um grupo. Esse jovem não adere por acreditar nas ideias defendidas, mas por lhe ser dada esperança. Um pai chega a casa e não tem o que dar de comer aos filhos, e alguém chega e diz que lhe dá alimento. Tens de matar pessoas, mas consegues dar comida à tua família. De acordo com o relatório das Nações Unidas, passámos a barreira dos 100 milhões de pessoas com fome, e 20 milhões estão em quatro países: Iémen, Somália, Sudão do Sul e Nigéria. Quando as pessoas estão desesperadas, é muito mais fácil passar imagens de violência. Já nas sociedades ocidentais, falamos em casos de desagregação. Quando as pessoas se sentem postas de parte, humilhadas, vivem no desemprego… todos os fatores de desagregação social, mesmo em países desenvolvidos, podem levar a uma adesão a estes grupos.

Há quem diga que o problema começou a tornar-se mais grave com a queda de regimes totalitários, como o caso de Saddam Hussein no Iraque.

É muito fácil cairmos nos extremos. O caminho não está nem num lado nem noutro, não podemos fazer a apologia dos ditadores só por dizer que estava tudo controlado.

Mas estava? 

Estaria, em termos de violência interna e exportada. Do ponto de vista maquiavélico, sim, mas não é isso que interessa. O que interessa é sabermos se as transições de países são ou não bem feitas para o futuro. Quando pensamos nos conflitos, temos sempre de pensar no antes, no durante e no depois. Por mais grave que seja a situação política e social que se esteja a viver na altura, tem de se pensar sempre no depois. Se fizéssemos simplesmente a apologia dos ditadores, então Hitler e Pol Pot continuavam a governar e as pessoas aceitavam que Kim Jong-un continuasse a liderar a Coreia do Norte.

Então pode colocar-se a culpa no Ocidente, por não ter sabido fazer essas transições?

A culpa não é do Ocidente, nem do Oriente, nem das pessoas. A culpa não morre sozinha, mas não vale a pena pensar apenas num culpado, isso é uma simplificação muito grande. As pessoas querem respostas muito simples, por ser mais fácil e para poderem apontar o dedo a alguém, mas não pode ser assim. É muito complexo e acaba por ser o reflexo do panorama das relações internacionais. Muitas das transições das chamadas primaveras árabes deram-se quando os EUA e a Europa estavam mergulhados numa grave crise financeira, e a opinião pública não estava disposta a gastar dinheiro lá fora para garantir transições. Podemos estar aqui a fazer autoflagelação, a pensar no que correu mal, mas, para mim, não vale a pena. Vamos olhar para a frente e ver o que podemos fazer bem. E, quando falamos no plural, falamos em nações verdadeiramente unidas, não há donos do mundo, não é o Ocidente que manda. Se nos agarramos ao direito internacional e à Carta dos Direitos Humanos, vamos ter uma maior aproximação.

Mas existem sempre interesses…

O mundo é cruel naquilo que tem a ver com a gestão dos seus interesses e quem faz análise política e estratégica sabe disso. Sabemos que existem sempre os princípios anunciados, os princípios perseguidos (que nem sempre são os mesmos) e os interesses. Determinados países querem comercializar um produto, outros querem certos aliados, uns exploram determinados recursos, mas o importante é perceber uma coisa: nenhum destes fatores por si explica nada. Se tentarmos individualizar um dos fatores, esquecemo-nos de outros.

A islamofobia tem vindo a crescer. Podemos chegar a um estado em que será impossível diferentes comunidades coexistirem?

Começa a haver uma retórica muito forte para garantir que dentro do Islão não existe este radicalismo. Isto porque eles tentam identificar-se com o islão ao máximo – toda a retórica do Daesh é que estão em defesa desta religião. E é o próprio islão que tem interesse em mostrar que é uma cultura aberta e racional. Mas também é importante haver um diálogo entre religiões, como o Papa Francisco tem promovido. Nesta altura, exatamente porque há más perceções, é o momento oportuno para fazê-lo. Mal será que cheguemos a esse ponto, acho que não vai acontecer.

Tem sido sublinhado que existe uma menor probabilidade de existir um ataque em Portugal. Mas, caso isso aconteça, estamos preparados para lidar com o problema?

Portugal é um país que, genericamente falando, tem as comunidades bem integradas, temos poucos nichos de gente desintegrada. Portugal tem poucos fatores de desagregação e, por outro lado, está afastado dos centros de poder. Temos serviços de segurança muito bons e as pessoas sabem disso, sabem que a PSP, a GNR, a PJ, o SEF, o SIS são muito ativos. Temos uma excelente ligação entre forças armadas e forças e serviços de segurança. Muita prevenção tem sido feita. Não sei se estamos preparados para algo que nem sei o que é, depende do grau de ameaça e alerta, mas diria que há uma atenção muito grande, que há uma preocupação por parte dos governantes e das instituições para lidar com a situação, mas esperemos que não tenhamos de pôr isso à prova.

Entrevista de Joana Marques Alves, publicada no nosso parceiro Jornal i
Fotografia de João Porfírio

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