Num orçamento que é de todos: ‘Cultura Para Todos’

15 SETEMBRO, 2017 -

O orçamento participativo deste ano mostrou-nos o quanto a cultura vale para nós, cidadãos de um país ocidental e, por si só, latinizado e apaixonado. “Cultura Para Todos” ganhou o primeiro prémio do mesmo, que compreende um cheque-cultura aos jovens que se tornam maiores de idade (celebrando 18 anos), tendo acesso gratuito a museus, exposições, galerias e espetáculos durante um ano. Para além disso, incentiva e organiza trocas e doações de livros entre os agentes envolvidos, incluindo cidadãos, bibliotecas e demais instituições.

Mais do que refletir sobre os duzentos mil euros canalizados para esta iniciativa, e do que já foi feito, um pouco à imagem do proposto cá, em Itália, importa pensar e refletir sobre a importância desta vitória. Não ganham só aqueles que votaram no sentido de ver a proposta efetivada e firmada. Ganha todo o país, de forma mais ou menos direta. Os jovens, inseridos numa geração cada vez mais aluada, desinteressada, e agarrada às novas tecnologias, por mais que a ilusão de proximidade com o que se faz e se celebra se manifeste, ganham um novo alento. Para além de assistirem ao que de bom e de artístico se faz por cá, criam novas oportunidades, descobrem novas vocações, desvendam novas paixões. Tudo em prol de uma dinâmica coletiva e identitária nacional, que promove e desenvolve talentos, apoiando-os na linha da prossecução dos seus grandes objetivos. Os próprios museus e demais monumentos, avistados como aborrecidos, começam a contagiar aquilo que é uma nova geração, que se procura redescobrir com mais informação do que nunca, embora saia, amiúde, mais confusa do que quando chegou ao palco onde tudo circula, com mais ou menos filtragem. Não obstante, é nesses museus e galerias que se começam a entregar, de corpo e alma, às diferentes fragrâncias respiradas e estimuladas pelos artistas, que iniciam o granjear de interesses e de curiosidades em relação ao pensado e ao sentido.

Quem sai muito valorizado daqui, para além daqueles que têm a oportunidade de redescobrir a cultura do seu país, são os próprios artistas. De valor acrescentado, e de público renovado, ganham motivação para a criação e para a representação. São novos e diferenciados os percursos existentes e evidentes para a nova gama de gente, que se envolve, muitos deles pela primeira vez autonomamente, em iniciativas de cariz cultural. Novamente a isto, está associada uma dinâmica de crescimento sustentado e mútuo, consciente e consistente. Com meios, aquilo que, muitas das vezes, está associada a precariedade da atividade cultural, também ajuda a que isso se torne mais estável e duradouro. São diferentes os incentivos, para além dos interesses reunidos, e da ementa apresentada para a degustação da experiência criativa. Num balanço daquilo que é a formação e a transformação dos nossos meios, Portugal fica a ganhar, de uma ponta a outra, não querendo esquecer e prescindir os diversos cantos do seu território. Com tanto a potenciar, difícil fica de não o ver vingar.

Por sua vez, a troca e a permuta de livros entre entes e parentes das relações livrescas. Crescemos com tudo isto, como é óbvio. Mais do que a componente formativa e divertida dos livros, a vertente humana conhece um impulso destacado e honrado. Os valores mais proeminentes daquilo que são as relações interpessoais, para além daquilo que mostramos ser, saltam à tona, e aí ficam, contemplando o radiar do Sol na sua maior e mais sincera proporção. Um Sol que, tal como nos livros, é figurado, mas que representa em pleno aquilo que se quer dar a contar. Uma expressão sentida e confiante do que é o nosso legado, como humanos e como seres nascidos neste país. Não cansa destacar o papel importante e determinante da literatura portuguesa na constituição daquilo que somos, de forma mais ou menos explícita. Não se trata de reivindicar ou de se excluir patriotismos, mas sim de se evidenciar aquilo que ajuda a que nós sejamos, aquilo a que nos vemos concretizar, tanto para nós, como para os outros. O livro é uma pequena referência metafórica para um grande mundo polissémico, repleto de significados e de visões, de perspetivas várias, que fomentam a discussão e o debate, ao mesmo tempo que puxam pela imaginação e pelo evadir da nossa normalização.

Por seu lado, as instituições lavam o rosto, e chegam mais perto daqueles que se estreiam a lidar com os contextos mais formais e estruturados. Uma face informal e convidativa a que os livros deixem de ser, para muitos, entediantes, e julgados pela informação de fora, conhecida por todos, pela lombada, pela grossura, pela espessura, e por todos os aspetos que ajudam a rotular aparências e ideias subsequentes, assim como nós com os outros. Saltar do estruturalismo e do formalismo é decisivo para que todos se insiram na tal evolução combinada e congregada, assente e presente no que somos, e naquilo que nos propomos a dar. Abrirmos a nossa alma para com as estantes, demonstrando-o nas herméticas, mas sensíveis instituições, ajudam-nos a criar elos mais próximos e sentidos com aqueles que as habitam. Mais citadinos ou telúricos, toda a prosa, poesia e dramaturgia traz a representação de algo, mais ou menos fiável, mas que resulta daquilo que se vive, que se experiencia, que se sente, que se aprende. Haverá melhor legado para perceber o mundo, na forma dos tão habituais pensamentos e sentimentos, do que os ver plasmados num livro?

O Orçamento Participativo, ferramenta usada livremente por todos os cidadãos, de forma a canalizar uma quantia estabelecida pelo Governo para programas propostos por outros tantos cidadãos, ajuda-nos a perceber aquilo que a sociedade deseja ver. Podendo gerar controvérsia o facto da segunda mais votada ser uma relacionada com a tauromaquia, importa perspetivar a (crescente) preponderância que a cultura vem ganhando no seio e no caudal dos mais jovens, que se sintonizam e se reveem naquilo que os artistas exprimem. Para além disso, alimenta, nos mesmos, o bichinho de explorar aquilo que há de mais identitário e sensitivo nas suas almas, predispondo-se e desamarrando-se, rumo a uma vocação esquecida no ataboalhamento dos manuais e das mensagens trocadas. Num orçamento que é de todos, a cultura volta a ser de todos, do miúdo ao graúdo, sem explorar elites ou altas e baixas culturas. Aquilo que inspira um país são os seus feitos, a sua história, a sua memória. Sem Camões, Pessoa, Sophia, Amadeo, Almada, Eça, Antero, Florbela, Manoel, Agustina, Sá Carneiro, Siza, Soares dos Reis, Amália, Paredes, o que seria de Portugal? E quando é que todos eles começaram? Bem cedo. Está dado o mote para, mais do que a recuperação da valorização, a confissão da tão artística e mística paixão.

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