Novo filme de Adèle Exarchopoulos foi escrito por lusodescendente

11 JUNHO, 2016 -

De muitas experiências são compostas a literatura, a escultura, a pintura e as demais artes. Pelo meio, está o cinema. Experiências longas ou circunstanciais envolvendo emoções transitórias ou consolidadas. É neste contexto que nasce o novo projecto do realizador francês Pierre Godeau.

Para entender a origens deste projecto importa considerar os seus antecedentes e a experiência que despoletou a nova projecção de Godeau. Tudo começa numa prisão da prestigiada Versalhes, no coração do país gaulês. A fragrância lusa provém do seu director, protagonista do trama. Florent Gonçalves, filho de portugueses, apaixona-se por uma prisioneira Emma cujo gangue era acusado de assassinatos e de demais delitos. Aquando da confissão de Florent da paixão por Emma, o diretor do presídio francês é ironicamente condenado a uma pena de prisão de um ano. Todo o trama dá corpo ao livro “Defénse d’aimer”, da autoria daquele que viveu na primeira pessoa esta mesma aventura Florent Gonçalves. Veiculado em 2012 pela comunicação social, foi com naturalidade que despoletou a curiosidade do realizador.

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Embora maravilhado pelas peripécias da história relatada, o cineasta francês confessa a adopção de uma via artística personalizada e, pelo meio, a reformulação das personagens e do enredo. Ao invés do recurso aos reais nomes de Florent e Emma, os nomes aludidos durante o filme são Jean Firmino e Anna Amari. O primeiro tem 39 anos e dirige um presídio exclusivo para mulheres, enquanto a jovem de 23 anos é acusada de um crime cuja deliberação está dependente da precoce idade com a qual o perpetuou.

Na tentativa de  Jean integrar Anna na realidade do estabelecimento prisional, este acaba por criar sentimentos que o unem à jovem presidiária através de uma relação cada vez mais  íntima, contudo avessa aos papéis que assumem no palco da sociedade. A emoção gerada acaba por ser recíproca, no entanto a jovem acaba por se seduzir pelas benesses provenientes deste caso, expondo o director a uma instabilidade familiar e profissional que, até então, não havia experienciado. Estas vicissitudes  acabam por sobressair na performance do actor, que tenta fundir as diversas características de uma personagem complexa e exigente.

As personagens serão interpretadas pelos conceituados franceses Guillaume Gallienne e Adèle Exarchopoulos. Uma especial curiosidade coaduna-se com o facto de Pierre Godeau filmar a actriz sempre de muito perto, de forma a expressar a imoralidade da personagem e o seu lado primitivo, esboçados nas suas decisões e na forma de agir. Estes factos são verdadeiramente expressos na intensa representação da francesa que traz consigo argumentos outrora consolidados em “La Vie d’Adéle” e que conquistam, mais uma vez, com uma irreverente prestação.

Neste sentido, o filme desperta algumas questões fulcrais no que toca à natureza desta relação e na sua extensão para a realidade, enquanto exemplo de paixões eticamente reprováveis. Para além da questão da ética na emoção, o desprendimento da personagem, em relação aos sentimentos que nutre , e as consequentes repercussões que embatem na realidade são apontamentos discutidos, de forma visual e argumentativa, no grande ecrã. Com um pendor especial do som da flauta no trabalho sonoro de Robin Coudert e com Muriel Cravatte a corresponder a movimentação da câmara à hesitação emocional que cada cena motiva, este ensaio cinematográfico acaba por discutir a dicotomia entre a ética do sentimento e a força primitiva da emoção. O contexto é uma novidade e a adaptação mantém o nexo de realidade. Tudo isto com a diáspora a fazer das suas e a não resistir a uma pincelada decisiva na transmissão de uma história a partir de uma flagrante memória.

Éperdument estreou em Março em França e não tem data de estreia nos cinemas portugueses.

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